Arquivo de 7 de Outubro de 2006

Casamento (*)

Vera Pinheiro
(*) Publicada na edição deste fim de semana no Jornal A Razão, de Santa Maria / RS

Não sei vocês, mas eu adorei a história do casamento da atriz Suzana Vieira! Aos 64 anos, teve o viço de se casar no civil e no religioso com um homem 29 anos mais novo, soldado da Polícia Militar. A mãe do noivo, Regina Célia, tem 54. É mais nova, portanto, do que Suzana. Ele, por sua vez, é anos mais jovem do que o filho dela, Rodrigo Cardoso, de 42. Isso tudo passa a idéia de que a gente não pode ter qualquer tipo de preconceito em relação ao amor. Muito menos quando se é uma mulher madura e dona do próprio nariz, do próprio corpo, da própria vida. Quando é, enfim, “senhora do destino” em relação a si mesma.
Muitos casamentos na juventude das mulheres que hoje passam dos 50 anos, foram feitos com o aval da família, com a cumplicidade dos amigos, com a conveniência do status. Nem sempre a escolha traduzia uma vontade independente de outros valores, movida apenas pelo sentimento. Quando a vida se refaz, mais adiante, o que determina a escolha do companheiro é o amor, mais nada. Não importa que seja anos mais novo, que não seja o profissional mais badalado do mercado, que não faça parte do mesmo núcleo social ou que tenha renda abaixo da renda da mulher. O que importa é ser feliz! Tudo mais é apenas acessório.
As mulheres que se separam têm alguma dificuldade para escolher novos parceiros no amor. E não é por falta de candidatos! É que ficamos escaldadas por dores que vivemos, tememos que o sofrimento se repita e, além disso, nos tornamos seletivas demais: queremos um príncipe encantado e dispensamos os sapos, que são bichos bons; exigimos que o novo amor seja muito melhor do que o anterior, fazendo uma injusta comparação; buscamos um amor sem defeitos nem reparos, como se fosse possível encontrar um!
Outro atraso na felicidade, depois da separação, é que a mulher aprende a viver sozinha e passa a achar que isso não é tão ruim assim. Vivemos, então, uma longa fase em que “tudo é meu”. É o meu canto, a minha vida, o meu horário, o meu programa de tevê, a minha cama, o meu filme, a minha comida preferida, o meu espaço, que preencho só comigo. Nos primeiros tempos, é um aprendizado de convivência com a liberdade. Ah, tudo é novo e bom! Livre daqueles tempos em que pai, mãe, irmãos e tias bisbilhoteiras não tiravam os olhos da sua vida, a mulher fica contente de poder usufruir sua própria existência sem dar satisfação a ninguém. Nem aos filhos, quando os têm. Aliás, filhos são menos espaçosos que maridos. Talvez porque se manda em filhos mais do que se pode mandar em maridos.
Atrapalha a nova investida em outro relacionamento a parte confortável da solidão: poder dormir com creme anti-rugas no rosto, usar aquele meião em dia frio, a calcinha feia, mas gostosa, frouxa no corpo. Poder viver uma semana a ovo frito sem ninguém reclamar, não ter ninguém enchendo a paciência porque as compras do mercado acabaram, não tem outro rolo de papel higiênico e a pasta dental está no fim. Ah, que alívio não ter ninguém que aperte errado a pasta dental! Nem que chame por socorro na hora do banho, deixe o vaso molhado, a toalha sobre a cama, empurre o prato e puxe uma sesta depois do almoço.
Não ter ninguém para dormir junto todos os dias. Algumas vezes isso parece bom, a gente espichada de todo corpo na cama. É a satisfação interior de não precisar dividir a coberta, de não se incomodar com roncos. Mas há um silêncio que vara as noites. Todas as noites, ou quase. Exceto quando a mulher tira o cadeado emocional e põe outro homem na cama. Mas quando ele não fica, não faz junto o dia seguinte, o silêncio é mais agudo e o vazio, um tanto maior.
Algumas mulheres, mesmo depois de alcançarem a idade pós-adulta, ainda se mantêm aprisionadas em preconceitos. Querem ter um homem para mostrar à família, aos filhos, aos amigos e, pior, ao ex (que muitas vezes nem está interessado em saber!). Querem não um homem, mas um troféu para ser exibido. Isso é tão lamentável como acabar os dias na solidão que não se quis.
O importante é o amor, sempre! Às vezes, pode estar numa pessoa décadas mais jovem – mas com muito a ver conosco. Que não tem tudo na vida, mas é tudo de bom como pessoa. Que não se enquadra na figura de marido que desenharam para nós, um dia, mas é muito melhor do que poderíamos supor. Esse amor pode chegar a qualquer tempo, em qualquer fase da nossa vida. Não vamos deixar de lado a chance de ser feliz! Porque, nesse caso, é o cavalo encilhado que passa mais uma vez na nossa porta.

Adicionar comentário Sábado, 7 de Outubro de 2006 às 11:58 Vera Pinheiro


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