Gata escaldada
Vera Pinheiro
Sou gata escaldada. Escaldadíssima, aliás, mas não medrosa. Eu me permito algumas vivências, mas já não tenho a sede de antes, porque bebo da minha própria fonte. Quando tenho fome, como com prazer, mas também faço abstinência para manter o corpo e a alma em forma, e penso que as duas experiências - comer e se abster - são necessárias.
Não vou, como antes, com tanta sede a tudo. Lambo o pote, claro, mas não enfio a cabeça nele. Ela continua firme sobre o meu pescoço. Eu já não levo as coisas muito a sério. Já nem sou tão séria. Vivo as possibilidades, brinco com elas. Sou prudente, mas não muito, senão não me entrego. Eu me entrego, sim, mas me resgato para sempre estar inteiramente comigo. Relaxo e gozo. Muito! Porque o gozo tem sabor de vida. Sabor a mí.
Deito e me aconchego onde encontro o que me acresce, e rolo, entre meus sonhos e a realidade, sem perder a capacidade de elevar o coração e mantendo os dois pés - e meus calos - sobre o chão, na terra mãe, que me abençoa, nutre e me ensina todos os dias a ser graciosamente mulher.
Tomo cuidado, mas não a ponto de me impedir de viver. Eu me cuido, sobretudo porque me amo. E para estar viva por mais tempo, para viver o que até há pouco eu não sabia que podia.
Eu vou viver intensamente as novas chances que se abrem diante da minha estrada, saboreando o melhor de cada momento. Eu vou viver, isso é tudo! Escaldada, sim, mas sempre gata.
Adicionar comentário Quarta, 11 de Outubro de 2006 às 11:20 Vera Pinheiro