Arquivo de 12 de Outubro de 2006

Dia das Crianças

Vera Pinheiro
Se o dia é das crianças, por que os adultos têm feriado? Será somente para que eles levem pimpolhos aos parques e dediquem algum tempo para filhos, netos, sobrinhos? Acho que não é apenas isso, mas também uma chance de a gente rever a criança que habita em nós, adultos, crianças que cresceram e perderam atributos da infância.
Hoje eu estou de folga! Tirei folga das preocupações com o futuro para vivenciar com a máxima alegria o dia de hoje, o tempo do aqui e agora. Não tenho nenhuma ocupação que não seja apenas e tão-somente ser feliz. Estou com a agenda livre para não fazer coisa alguma que não seja prazerosa. Hoje tenho tempo só para a alegria, para folguedos da alma e do corpo. O meu único compromisso é estar de bem com a vida! É amar e ser amada, é receber a mesma intensa medida com que me dou, é deixar o coração em castelos de areia que eu posso montar, criar, desfazer e recriar a partir da vastidão espraiada das minhas emoções mais belas.
Hoje estou somente dedicada a risos amplos e fartos por qualquer coisa. Estou rindo à toa, de qualquer coisa e até de mim, dos meus erros, dos meus equívocos, das dores grandes demais por acontecimentos que não eram tão importantes quanto eu pensava.
Hoje é dia de cometer excessos. Vou me entregar exageradamente a exercícios de felicidade! Vou me lotar de doçura comigo e com os outros, de encantamento pela vida e pelo melhor que nela há. Vou passar da conta em comemorações por estar viva, saudável, próspera e feliz! Vou brincar de deixar pra lá as coisas rudes que enfeiam a existência. Não quero levar problemas tão a sério, como faço desde que cresci. Penso que não devo pensar em nada, a não ser que, se pensar demais, a gente não casa, e eu quero me casar! Quero casar com a felicidade, que é perfumada como flores recém-colhidas, como frutos maduros que alcanço com minhas mãos. Vou casar com as minhas histórias de amor e parar de brigar com elas, só porque tiveram trechos de lágrimas e perdas. Vou me apaziguar com lembranças que ferem, antigas como a infância que hoje reencontro com a boa desculpa de ser feliz.
Hoje quero vivenciar a paz de criança que dorme sem medo de sonhar. Quero dormir sem pesadelo entre braços que tecem afeto enquanto abraçam e acordar sem ressaca amorosa no depois. Não terei medo de adormecer nem de sonhar. Posso ter sonhos de olhos abertos, colados noutro olhar, e me alegrar por isso. Eu simplesmente me alegro por viver, isso é tudo.
Carrego comigo corpo adulto, cheio de histórias, alma com algumas cicatrizes, mas no meu peito pulsa um coração de vontades pueris, simples, fáceis. É um coração que tem vontade de ser feliz e não teme isso por acreditar que é possível e viável como o sol que acontece em todas as manhãs, mesmo que ele não apareça diante do meu olhar. E meu olhar é cor-de-rosa, não importa a cor dos olhos. Minhas mãos são ternas como o toque de um recém-nascido. Minhas manhãs são um recomeçar da vida, por difícil que pareça ou possa ser.
Hoje não quero planos, planilhas, projeções de futuro, por saber que ele será o que eu fizer com o meu presente. Não preciso de muito que não seja amor. De amor, quero fartura, abundância e entregas sem complicações nem cobranças, muito menos temores em relação ao tanto que me apaixono.
Tenho os pés descalços, prontos e dispostos a caminhar junto com um grande amor e a alma, liberta de qualquer pedaço triste que tenha vivido no passado. Sou criança de olhar no futuro, que ama com desprendimento e inteireza, somente pela felicidade de amar. Sou recém-nascida para desejos novos e ainda melhores do que todos os que já tive. Porque acabei de nascer para o prazer de ser intensamente mulher, não tenho laços antigos, todos são lindamente novos ou estão em construção. Os mais antigos foram renovados para continuarem comigo.
Neste tempo, chamado hoje, eu me permito ser feliz para viver cada dia como sendo meu. Um dia em que me festejo por existir, digo que me amo mais do que espero ser amada e abro os olhos para a vida com absoluta vontade e plena alegria de viver.

Adicionar comentário Quinta, 12 de Outubro de 2006 às 11:32 Vera Pinheiro


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