Janelas abertas
Vera Pinheiro
Por muitos e muitos e muitos anos, morei em apartamento. Era uma mulher totalmente urbana, com hábitos urbanos. Um dia, mudei para uma casa, coloquei os pés no chão. Nos primeiros tempos, tinha muita dificuldade de abrir as janelas pela manhã e costumava fechá-las antes mesmo de anoitecer. Boa parte do tempo as janelas eram mantidas fechadas, na verdade.
Isso parece o tempo em que eu estava com o coração fechado para o amor. Diante de novos relacionamentos, eu costumava me recolher muito cedo, não deixava ninguém entrar na minha vida e, na maior parte do tempo, estava fechada em mim mesma, remoendo emoções e saudade de pessoas que se foram de mim, deixando um rastro de amargura e solidão.
Hoje cedo, num domingo silencioso e ainda com o frescor da chuva que veio à noite, escancarei as janelas da minha casa e fiquei por algum tempo apreciando a paisagem. Ouvi pássaros que gorjeavam no meu jardim e coloquei alimento para eles. Colhi algumas frutas, que nascem espontâneas no meu pomar. Acendi velas perfumadas e incenso no meu altar. Enfeitei a casa e tomei café ouvindo o silêncio da manhã.
Tudo é aprendizado. Hoje, abro as janelas da casa quando vem um novo dia. Hoje, abro o coração para amar de novo. Minhas emoções são suaves, perfumadas pela alegria de viver sem linhas que me prendam a passado de perdas e dores.
Ainda fecho as janelas quando anoitece. Ainda tomo cuidado com pessoas que tocam as minhas sensações. Mas já me permito viver sem medo de amar de novo e alimento possibilidades que chegam diante de mim. E fico na janela, olhando a vida que acontece todos os dias. Até que chegue aquele a quem vou abrir a porta do coração e convidar: vem, entra, fica.
Adicionar comentário Domingo, 15 de Outubro de 2006 às 09:16 Vera Pinheiro