Tu, ainda tu
Vera Pinheiro
Tu és aquele que me visita a memória e quem mais eu queria esquecer. És quem povoa meus sonhos, ainda que eu evite.
És o pesadelo que me acorda de noite e a primeira lembrança que me traz o dia. És a pessoa que me deixa insone, entre a saudade e a amargura, a vontade de te ter e a necessidade de não te lembrar.
Tu és a agonia mais demorada, rumo ao esquecimento. Aquele que não se vai depressa, como eu precisaria. O que ainda permanece, por mais que eu lute contra a tua presença em mim.
És a palavra de amor que eu sufoco, a sensação que eu evito, a fuga que empreendo todos os dias do amor que não posso.
Tu és a sensação que envolve o meu corpo e eu rechaço. O silêncio que toca o meu espírito e fala comigo, ainda que eu cerre ouvidos e coração.
Tu és o grito que não sai da boca, o que me emudece, tudo que não quero dizer, embora sinta. És a lembrança mais dolorida e o amor mais intenso, a dor mais pungente e a paixão mais incontida. És a palavra que eu não digo, és tudo que sucumbe a razões e vence sentimentos. És a inversão das minhas vontades, o avesso da minha necessidade, a contrariedade das minhas certezas.
Tal como erva daninha, brotas à revelia de sementes e aconteces. Eu te expulso das minhas entranhas e sempre voltas. Não que tenhas voltado, apenas não te foste de mim. Ainda. Por enquanto, pois só o que é feliz merece a eternidade.
Adicionar comentário Quarta, 18 de Outubro de 2006 às 03:32 Vera Pinheiro