Pé de manga
Vera Pinheiro
Sentada na varanda da minha casa, naquele tempo de fazer nada, só apreciando a vida, eu olhava a mangueira no fundo do quintal. Fiquei contemplando o tempo de maturação dos frutos, que já faz a árvore pender galhos pelo peso que carrega.
Chamei a minha filha, pedi que se sentasse perto de mim e dali olhasse o que eu estava vendo. Em pé, não. Senta aqui comigo. Algumas coisas só se enxerga quando a alma passeia devagar e o coração se acomoda. Há que se estar em paz para perceber a vida.
- A felicidade é um pé de manga!
A minha definição esboçou riso no rosto lindo da minha filha, mas continuei.
É uma árvore frondosa, a felicidade. Tem folhas largas, fartas, sombra boa. Galhos fortes, tronco firme, raízes no profundo da mãe terra.
Quando não dá frutos, a árvore da felicidade, como a mangueira, repousa inocente e serena no seu tempo, sem se angustiar com os dias que correm. Sabe esperar sem angústias a hora de se dar e a hora de se recolher em si mesma, e nisso reside a sua sabedoria. Eu não sabia se daria manga ou se seria árvore seca, precisei esperar o seu ciclo completo.
Quando se prepara para o cio da vida, espalha de si em delicadas folhas, que sobram sobre o chão, ao redor dela. Ela perde de si mesma para frutificar – e eu lembrava das tantas folhas que recolhi, antes deste agora. Cada folha caída era o anúncio dos frutos que viriam. Assim a árvore, assim as minhas emoções.
Ao tempo de seus frutos, a mangueira se farta de chances, mas descarta alguns. Muitos deles restaram sobre o chão, não vingaram. Começaram e não foram adiante, como alguns relacionamentos que esperamos ser felizes, mas não são.
Os frutos que se apegaram à árvore e não caíram estão crescendo, mas ainda não podem ser colhidos. Precisam cumprir seu ciclo de maturação. Se colhidos antes da hora, por nossa ansiedade, ainda não estarão prontos. Verdes, não terão ainda todo o sabor a que estão destinados. Precisamos esperar que os frutos venham no seu tempo, na hora em que estão preparados para serem saboreados. Assim também a felicidade. Algumas vezes queremos frutos que ainda não estão prontos para nós, e nos decepcionamos. Não adianta forçar ciclos da natureza, devemos entender os humanos e dar a eles o tempo de maturação que precisam.
Vencer sem agonias o tempo de cada coisa, esperar com paciência a hora de tudo acontecer, respeitar o momento de cada um e entender o ritmo de cada história é muito sábio. Difícil para humanos ansiosos por determinar o fluxo da vida. Possível para quem aprende com a natureza que não se pode apressar o tempo, mas fluir com ele, para que os frutos, quando colhidos na sua hora, sejam deliciosos e compensadores de toda espera.
Abençoei a mangueira e a felicidade também. Virão mangas grandes, em boa quantidade. Serei feliz desse jeito também. Não é uma espera, tão-somente, nem é só confiança. É certeza firmada pelo ciclo que observo na árvore e pelo que plantei na minha história.
Minha filha espera comigo pelas mangas e faz a felicidade com a mesma fé que nutro pela vida.
2 comentários Segunda, 23 de Outubro de 2006 às 08:28 Vera Pinheiro