Quem fica
Vera Pinheiro
“Passa, passará,
quem atrás ficará?
A porteira está aberta
Para quem quiser passar.
Passa um, passam dois, passam três…”
Passam as pessoas pela vida da gente, como nessa cantiga que me veio à lembrança. Também nós passamos pelas pessoas e me pergunto: o que elas nos deixam quando chegam a nós e quanto levam de nós quando se vão?
Há quem nos arraste junto quando parte. Há quem não deixe sequer lembrança. De outros não temos saudade. E há os inesquecíveis, perpétuos, eternos, definitivos. Esses se agrupam em dois pólos: a felicidade e a dor.
Os extremos da emoção, o desequilíbrio, a desestrutura, o balanço dos sentimentos remexem o que somos e têm um poder transformador. Isso pode ser bom, mas também pode ser devastador.
Vendaval, não brisa. Aguaceiro, não garoa. Há pessoas assim em nossas vidas. Elas mudam de algum modo a nossa paisagem interior e não ficamos incólumes depois que se vão. Essas pessoas se eternizam na nossa memória emocional.
Quem passou brandamente por nós não se cola no nosso coração. Vem e vai, e é como se nunca tivesse estado ali. Seria isso justo? Talvez não, mas é verdadeiro. Por isso, prefiro as extremidades, ainda que me recomendem o centro das emoções. Talvez isso seja uma vaidade sem medidas: a vontade de ser inesquecível, ainda que por uma razão mal-comportada, como a de ter revirado o coração de alguém. É o que gostaria de ter feito com pessoas que amei, mas não me amaram, para as quais hoje eu não sou sequer uma pálida lembrança. Apenas passei.
2 comentários Sábado, 28 de Outubro de 2006 às 10:41 Vera Pinheiro