Porta entreaberta
Vera Pinheiro
Uma porta entreaberta não garante a despedida. Não acena com o adeus. Não encerra uma história que, apesar disso, não terá continuidade. Não dá certeza de que vai embora e não voltará. Quem parte e deixa a porta entreaberta alimenta-se dessa incerteza para manter o outro aprisionado ao bem-querer. A pessoa sai da nossa vida, deixa uma possibilidade atrás de si, no vão, na porta entreaberta, como se desejasse voltar um dia, mesmo que desde sempre saiba que não virá outra vez. Não raro, isso é apenas falta de coragem de dizer a verdade.
Saindo sem avisar, o outro pisa delicadamente para que não se perceba que vai embora. Mas pisoteia a nossa emoção, tardiamente alertada para um adeus que não chegou a ser dito. Resta-nos, desse jeito, um tipo doloroso de esperança: aquela que a gente sabe que não vai prosperar, mas ainda assim se agarra nela como que para não perder a vida. A gente fica só e descobre isso tarde demais, quando já esgotada de dor e ausência.
Por esses silêncios, que escondem o que as pessoas não dizem sob pretexto de não querer magoar - e que é só covardia -, prefiro caminhos escancarados, portas que batem e se fecham atrás de quem se vai. Do lado de dentro eu posso me dilacerar, mas não estarei enganada quanto a um sonho que vou, se eu quiser, acalentar sozinha.
A volta que é a vontade de um só nunca acontece e não é bastante para dois.
2 comentários Domingo, 29 de Outubro de 2006 às 09:11 Vera Pinheiro