Faltou coragem a Alckmin, diz sociólogo
Segunda, 30 de Outubro de 2006 às 02:55 Vera Pinheiro | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 612
Fonte: Agência Estado
O professor e sociólogo do Ibmec Carlos Alberto de Melo afirmou que o candidato do PSDB à Presidência da República, Geraldo Alckmin, foi derrotado por falta de coragem de assumir posição sobre temas como privatizações, corte de gastos e política econômica, entre outros assuntos. Segundo ele, sem referências anteriores e maior experiência política, Alckmin foi, aos poucos, transformando-se numa caixa-preta.
“Ninguém sabia o que ele iria fazer se eleito. A primeira declaração de um dos elaboradores de seu programa de governo, o economista Yoshiaki Nakano, foi desqualificada e desmentida. Se Nakano não podia falar sobre o assunto, quem falaria”, questionou. “Além disso, o que ele tinha para mostrar? As obras em São Paulo? Isso é suficiente para governar um Estado. E, no governo federal, é necessário mostrar sua política social e visão política do mundo, se isso não apareceu”, explicou.
Para o professor, não é possível afirmar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva era um candidato imbatível, pois, nesse caso, ele seria reeleito em primeiro turno com 70% dos votos válidos. “Dessa avaliação, poderia se inferir que Alckmin teve um desempenho excelente na campanha eleitoral. Lula é forte e tem penetração social, mas dentro do quadro de desgaste pelo qual seu governo passava, é possível dizer que Alckmin teve uma performance muito fraca e se mostrou um candidato muito frágil”, afirmou. “É até irônico que Lula tenha se mostrado um candidato imbatível no segundo turno. Que inversão foi essa? Alckmin tornou Lula imbatível no segundo turno pelos erros que cometeu”, comentou.
Na avaliação de Melo, não foi Alckmin quem levou as eleições para o segundo turno. “Foi o dossiê, a lambança dos ‘aloprados’, a foto do dinheiro apreendido e o erro estratégico de Lula ao faltar aos debates no primeiro turno, que no final não se mostraram nenhum bicho-de-sete-cabeças”, considerou. Segundo o professor, nos debates, Alckmin não se qualificou como uma alternativa. “E não é porque era desconhecido dos eleitores, mas porque foi desconsiderado. Ele jogou todas as cartas no discurso ético. E não se preparou para disputar o segundo turno. Basta ver a campanha do presidente Lula, com seu jingle ‘deixa o homem trabalhar’, para ver quem estava preparado para essa situação”, declarou.
O professor disse ainda que Alckmin não dialogou com os pobres, mas somente com a classe média. “O voto pelos R$ 70 do Bolsa Família é racional, de acordo com os interesses dessa classe. A classe média não percebe isso, mas para muitas pessoas, R$ 70 faz uma diferença danada. Ele deixou de conversar com esse público”, disse. “E o debate da Bandeirantes foi uma tragédia nesse sentido.” Para Melo, Alckmin deixou seus eleitores felicíssimos com a truculência, mas assustou o eleitor de Lula.
Ao ridicularizar Lula por ler as perguntas, o professor disse que Alckmin mostrou soberba, pois a maior parte dos brasileiros tem dificuldade para ler e se identificou com a situação. “E Lula deu uma resposta notável ao dizer que não teve tempo de decorar e não fez curso de psicodrama.”
Ao não defender as privatizações, segundo o professor, Alckmin cometeu um erro grave. “Um político não deve se pautar por pesquisas que mostram a população contrária à privatizações, mas mostrar que tem um projeto e partir para o trabalho de persuasão, não é uma questão dogmática. A resposta correta à questão levou uma semana para ser dada, por FHC, em defesa própria e de seu governo”, afirmou. “Renegar o governo FHC, que teve falhas mas vários méritos, e não trazê-lo para a campanha, foi um erro brutal, além de cruel. O eleitor se perguntou sobre por que FHC foi escondido. Quem não gostava de FHC já desconfiava de Alckmin, e quem gostava sentiu-se magoado”.
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