Arquivo de Novembro de 2006

Aprendizado

Vera Pinheiro
O convívio com os meus bichos me ensina muito. O gato preto, Happy, me dá exemplo de sossego. Ele passeia, corre, mas depois se aquieta por um bom tempo. Costuma dar umas escapadas, mas sempre volta e se aninha perto de mim. No início, temia que não voltasse, quando fugia. Depois entendi que é da sua essência felina ir e vir, voltar à casa que o acolhe carinhosamente. É silencioso, astuto. Aproxima-se devagar e escapa se alguém tentar agarrá-lo à força. Quando quero pegá-lo, ando a passos de gata, sem fazer barulho nem gestos bruscos. Não opõe resistência a essa aproximação suave, mas, se eu correr atrás dele, jamais o alcanço. Volta se quiser, e quando. E eu aprendo a esperar e a confiar no retorno dele. E a ser mais habilidosa…

Pitty, o gatinho malhado, é brincalhão e esperto. Aprendo com ele a delicadeza e a alegria. Fazendo festa de manhã cedo, ele sabe medir a mordida para me acordar todos os dias. Morde, mas não fere. Estou aprendendo isso…

Lucky é um cãozinho essencialmente fiel e amoroso. Está sempre junto de mim, atento a cada passo meu , e pede carinho o tempo todo. Também aprendi a expor as minhas vontades.A pedir, se me faz falta.

Buddy me mostra como defender o próprio espaço. Generoso, mas não a ponto de dar tudo o que é seu e ficar sem. Reclama a bolinha que era dele, antes de os filhotes chegarem. Aprendo com ele a me colocar em prioridade e a resguardar o que me importa.

Placky e Billy, com 50 dias, renovam em mim o prazer da descoberta do novo. A novidade assusta, mas a ousadia leva adiante os meus desejos. Observo como correm de manhã, como se divertem passeando pelos cantos que não conhecem, como ultrapassam as dificuldades para subir um degrau e para pular de outro. Sobretudo, como se alegram por qualquer coisa, como brincam. Mas, nesse aspecto, acho que são eles que aprendem comigo e me copiam…

Ontem, ao voltar para casa, sem querer pisei na pata de um dos meus bichinhos. Estava de salto! Sei que machuquei, pois ele chorou. Peguei no colo, acariciei, pedi desculpas. Logo depois, ele estava de novo ao meu redor, brincando comigo. Não me cobrava a dor. Fosse humano, estaria longe. Ou ainda estaria perto, mas sem esquecer que um dia eu pisei nele e o feri. Por mais que eu me desculpe, por mais que eu não tivesse intenção de machucar, os humanos não perdoam. Ou perdoam, mas jamais esquecem. E um dia devolvem. Quero aprender com os bichos a não ser assim.

Adicionar comentário Quinta, 30 de Novembro de 2006 às 10:40 Vera Pinheiro

Simples e bom…

Vera Pinheiro
Um gesto carinhoso a qualquer hora, sem seguir a agenda, mas a vontade do coração. Uma mensagem terna, capaz de quebrar a rotina das horas. Um beijo por telefone, no meio da tarde, só para fazer carinho… Ah, isso tudo, tão simples e bom, é simplesmente… ótimo e feliz! E eu adoro isso…

Adicionar comentário Quarta, 29 de Novembro de 2006 às 18:59 Vera Pinheiro

Presente

Vera Pinheiro
Eu adoro presente! Adoro mais ainda receber presente fora de data, porque das datas eu só gosto mesmo daquela em que faço aniversário. As outras passam, e nessas nem preciso ganhar nada. Não é o presente em si que eu adoro, mas a presença da pessoa nele. E o beijo, o abraço que ele contém.

Amo receber presente de lembrança, aquele que mostra que em algum lugar alguém lembrou de mim, mesmo estando de passagem, ou porque está longe e não pode vir. Esse é o próprio inesperado feliz! Presente que não tem hora marcada, não está ligado a nenhum acontecimento. Presente extrapauta, esse eu amo! Presente que tem significado de carinho, e só carinho basta, é muito! A surpresa boa é que me encanta, não importa o que eu receba. Não é o quê, é o gesto que me emociona. É o afeto, a gentileza. Isso, sim, é o verdadeiro presente.

Hoje eu recebi um presente e tanto!

Adicionar comentário Terça, 28 de Novembro de 2006 às 10:17 Vera Pinheiro

Despertar

Vera Pinheiro
Como é feliz despertar todos os dias! Como fiquei feliz por despertar hoje cedo, depois de uma longa noite de pesadelo. Nossa, acho que a minha alma andou passeando… e deve ter ido longe! Sabes quando a gente acorda e parece que não dormiu, o corpo está pesado e o coração inquieto? Lá fora, chove miudinho. E está frio como num princípio de inverno. No princípio, sim. Quando estou no meio do inverno não sinto tanto frio como quando a estação começa. Isso é adaptação. O mesmo acontece em situações difíceis: dói mais no início, depois eu vivo.

No meio de um sono perturbado, a gente não sabe se está dormindo ou acordada. No meio de um amor complicado também. Nunca a gente sabe se vai despertar, nem quando, para a ruptura necessária. E, apesar da dor, vem o alívio quando a gente desperta e sai fora daquele relacionamento que tira sono e paz.

Quando acorda de um pesadelo é o mesmo alívio. Que bom ter sido apenas um sonho. Frase contrária eu já disse: que pena ter sido apenas um sonho. Falava de amor perdido. Hoje vejo que era um longo pesadelo. E me sinto feliz por ter despertado.

Adicionar comentário às 06:50 Vera Pinheiro

Chance de casar

Vera Pinheiro
Escrevi hoje a mensagem abaixo (“O exercício de ser só”) sem ter lido a matéria da Veja desta semana. Leram? As chances de a mulher solteira se casar hoje, no Brasil, são cada vez menores! Matéria assinada por Bel Moherdaui, conta que já em 1986, a revista americana Newsweek publicava, com base em estudo feito na Universidade Harvard, que “a mulher branca (sou…), com diploma universitário (tenho dois…) nascida em meados dos anos 50 (meu caso…) que ainda estivesse solteira aos 30 anos tem só 20% de chances de se casar”; aos 35, a probabilidade caía para 5% e aos 40, para 2,6%. Bem, não falava das mulheres de 50 como eu. Mas lascava uma frase contra qualquer aspiração das casadoiras: aquela mulher teria “mais probabilidade de morrer num ataque terrorista” do que de encontrar um marido, ressalva feita na matéria ao fato de que, naqueles idos, os ataques terroristas ainda não haviam chegado ao território americano.

Mais adiante a matéria da Veja menciona estudos do economista Marcelo Neri, coordenador do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas. Ele diz que “mulheres sozinhas têm renda 62% mais alta do que a das acompanhadas; quanto maior a idade, menor o número de acompanhadas; e nas cidades grandes há mais sozinhas do que nas cidades menores ou nas zonas rurais”. Quer dizer: “se você é executiva (pois é…), é solteira (então…), passou dos 45 (já…) e vive na capital (sim…), prepare-se para tirar o máximo proveito da vida a um”. Buááá, chamem o terapeuta!!!

Constatação de uma entrevistada: “O homem mais disponível é casado, o mais interessado é jovem demais e os mais difíceis são os da mesma faixa etária, que só querem sair com meninas novinhas”. E não é?

Outra diz: “Quando sou apresentada a alguém e digo que nunca me casei, as pessoas começam a procurar o que eu tenho de errado”. Agora, imaginem a cara do sujeito quando eu digo que sou viúva…

No final da matéria, Danuza Leão fala que quer um homem quando o carro enguiça, ou o computador, ou DVD, e quando tem de fazer o imposto de renda, “coisas que só homens têm capacidade de resolver”. Por essas e outras, escrevi a crônica “Eu invejo os homens!”, publicada outro dia.

Ora, ora. Se a situação está ruim para as que nunca casaram, como é que eu, que quero entrar na fila de novo, fico? Olha o “dote”: viúva, quase 51 anos, 2 cursos universitários, 2 filhos, 2 gatos, 4 cachorros…

Nem termino o rol e o homem… opa! Para onde ele foi? Sumiu…

Adicionar comentário Segunda, 27 de Novembro de 2006 às 15:33 Vera Pinheiro

O exercício de ser só

Vera Pinheiro
Há um grande número de mulheres que querem um bom relacionamento, mas não querem morar junto com a pessoa amada. Há as que adoram “ficar”, beijar muito na boca, fazer sexo regularmente, mas nada de compromissos! Há quem queira uma relação estável, mas não se sente preparada para morar com outra pessoa. Há as que reconhecem as próprias manias e as acham insuportáveis! Não suportariam manias alheias, já que mal aturam as manias que têm. Também existem mulheres que adoram seus namorados, mas não agüentariam viver com eles sob o mesmo teto. Há as que defendem a sua liberdade, querem manter a sua independência, e isso está acima da vontade de ter alguém no convívio cotidiano, dentro da mesma casa.

Mulheres que vivem só há muito tempo criam um espaço próprio, onde vivem, se movimentam, fazem o que querem e o que podem. Traçam seus próprios limites sem que alguém opine a respeito. E ficam saudavelmente egoístas. Aprendem o que é “meu”, conhecem o que é apenas seu. Não precisam dividir decisões, fazem escolhas não-compartilhadas. Erram e acertam sozinhas. Dão-se ao luxo de cozinhar apenas se têm vontade, de usar o banheiro sem interrupções, de não precisar lavar roupas além das suas e não se sentem compelidas a conciliar os programas de fim de semana com os interesses dos outros. Podem mudar de opinião a toda hora, desfazer planos. Ficar sozinha ou ir ao encontro de alguém, do bem-amado ou de um grupo, ir só ou acompanhada a algum lugar, tanto faz, tudo sempre depende da sua vontade.

Seguem os seus desejos. Às vezes querem ficar junto; de outras, preferem ficar a sós. Observam as suas prioridades. Exercitam as próprias vontades sem contrariedades à volta. Aliás, não se contrariam nem entristecem, exceto quando se pegam querendo um fim de semana bem doméstico, ao lado de quem poderia estar ali de segunda a segunda. Porém, quando pensam nisso, sacodem a cabeça e acham que é melhor deixar as coisas como estão. Às vezes, querem mudar tudo; de outras, acham melhor tudo continuar do jeito como conhecem. Conhecer dá segurança e a ousadia de mudanças, então, se imprime em outras áreas da vida, não no que diz respeito aos afetos. Continuam sozinhas, sem estar. Até o dia em que passam em revista a vida, questionam se vale a pena viver só, e se perguntam como é mesmo que se conjuga o verbo compartilhar. Amar, elas sabem. Sabemos.

Adicionar comentário às 06:04 Vera Pinheiro

Paz

Vera Pinheiro
Estive por um bom tempo na varanda esta tarde. Coloquei um CD de músicas que eu gosto e fiquei ouvindo as lembranças, enquanto olhava os cãezinhos filhotes e os pais deles, que brincavam, fazendo descoberta do convívio. Os gatos, recostados nas cadeiras, eram a própria imagem de um dia em paz. Ali, entre árvores e bichos, eu apreciava o final de um domingo que se pareceu com a vida, ora com sol, ora com chuva, alternando humores, mas, ainda assim, belo.

Os pequeninos Poodle, hoje com 1 mês e 15 dias, aprendiam esforços, mas também se divertiam. Que significado terá para um cãozinho o degrau que ainda não consegue subir de um pulo e que o faz titubear para descer? A grama era novidade! Rolaram nela os seus pêlos macios, se sujaram e logo descobriram o sabor das flores. Lembrei, então, dessa pequena incompatibilidade entre cães e jardim, que preciso contornar para que as minhas flores desabrochem sossegadas nesta primavera. Disse “não” e acho que eles aprenderam, mas só vou saber disso no correr dos dias e à medida que crescerem. Algumas coisas a gente só sabe quando elas acontecem.

Entre cães, gatos, músicas, palavras e sons da memória, foi um dia de alegrias suaves e de reminiscências. Tive a sensação de estar ficando velhinha… mas, sobretudo, a certeza de viver em paz.

Adicionar comentário Domingo, 26 de Novembro de 2006 às 19:06 Vera Pinheiro

Casas separadas

- Confissões masculinas –

Vera Pinheiro
Conheço um homem que tem uma relação estável de, sei lá, mais de 10 anos, e que vive com a mulher, mas em casas separadas. Ele, na dele; ela, na dela. Juntam-se nos fins de semana, fazem programas juntos, dormem na mesma cama. Já tentaram fazer diferente, mas não deu certo. Voltaram a namorar em casas separadas. Esse parece ser um detalhe importante: pessoas que moram em casas separadas namoram quando se reencontram. Ou não, caso de outro homem que conheço, que ficava mais tempo à frente do computador do que com a mulher. Acabou namorando outra pela internet e hoje está separado da mulher com quem vivia junto só aos sábados e domingos. Vive (com a outra) do jeito formal, que abominava antes.

O problema, diz um homem, é que “quando mora junto, complica, porque um pisa no espaço do outro”. Casa separada, no caso dele, é um respiradouro. Vive a parte boa apenas, quando está junto. Faz o que quer. Inclusive, ficar com outra(s) mulher(es). Comprometido, sim, a ponto de cuidar para que a namorada fixa, a parceira mais constante e antiga, não descubra, mas não a ponto de manter a exclusividade. Faz sexo com outras, mas mantém a aparência de namorado fiel. Não está casado, mas também não é livre. Se outra quer dar mais consistência à relação, ele pode cair fora, dizendo que não quer magoar a namorada antiga, tão boa pessoa. Sente-se à vontade para ficar com quem quiser sem dar satisfação a ninguém. Diz ser livre e jamais admite estar preso ao coração de alguém. Está e não está. Essa gangorra o mantém cativo à relação e à sua liberdade, ao mesmo tempo. Acha que o casamento como instituição “foi para o brejo faz tempo”. Não dá o nome de casamento à relação que tem. Apenas por questão de formalismo, coisa que detesta. Não admite, mas está casado. Acha que não apenas por viver em casas separadas. A casa, o espaço, o ambiente físico parecem determinar o seu compromisso com a mulher, mas, no fundo, ele sabe que não é isso.

Ter um relacionamento em casas separadas não o faz sentir-se casado, embora ele saiba que o vínculo se faz em outro patamar. Não faz um rol do que seja vantagem ou desvantagem, apenas vive a situação. Não fala em traição, pois para ele essa palavra (e tudo o que dela deriva) simplesmente não existe. Vive as suas vontades, tão-somente. E as tem: antigas, novas, renovadas. Que nenhuma mulher tente aprisioná-lo além de (poucas) horas de prazer. Ele tem outra, que serve de refúgio contra as que querem mais, o que ele não pode dar. Na verdade, ele se dará quando se apaixonar por outra, mais do que está apaixonado pela atual, a das casas separadas. Se amar mais, vai romper. Mas lhe agrada o conforto de não ser exigido. É apenas um homem a quem a mulher dele, sábia, faz pensar que é livre.

4 comentários às 12:02 Vera Pinheiro

O gosto de estar junto

- “Confissões masculinas” -

Vera Pinheiro
O ser humano não foi feito para viver sozinho, é um animal gregário. Com essa convicção, um amigo meu vive se casando. Casa, separa, casa de novo. Sozinho não fica! De tempos para cá, tem pensado até em evitar a apresentação das novas esposas, noivas, namoradas, para os pais e para os filhos dele, tantos casamentos já teve.

A rotina do casamento não o incomoda. “Para quem quer viver a dois, isso é inevitável, mas pode ser prazeroso”, garante. Ele adora acordar de manhã e dar com os olhos na mulher amada. Tomar café junto, almoçar quando é possível, voltar para casa e ter com quem jantar, ficar o máximo de tempo ao lado. Já chega ter de ficar a maior parte do dia trabalhando. A solidão de voltar e não encontrar alguém o consome! Só a ele?

E a independência, como fica? “Não haja ilusões: ou se fica sozinho ou se abre mão da independência. Mas é possível administrar a vida a dois. A questão é aprender a gerir interesses para não esmagar a individualidade do outro nem a nossa. Pode-se ter autonomia mesmo morando junto com alguém”. É preciso aprender a conviver com as manias, com as diferenças, com os hábitos, com os horários do outro, mas, na opinião dele, vale a pena. Quem quiser ser totalmente independente que viva só, mas isso não significa ser feliz, afirma. “Viver sozinho não faz ninguém feliz! Homens e mulheres são capazes de viver sozinhos, mas isso não quer dizer que são felizes”. Há uma grande diferença nisso.

Segundo ele, não é para controlar (exceto no caso dos muito chatos) que o homem telefona, quer saber aonde a mulher foi, o que vai fazer. “O homem apaixonado que apenas estar junto com a mulher que ama. Pronto, simples. Quer estar próximo, quer tê-la junto, só isso”. Não é para dominar, apenas quer a proximidade com a pessoa amada. Até porque é ilusão o controle sobre a alma feminina. “Mulher alguma é controlável”, diz, acrescentando: “Qualquer mulher exerce o controle com mais eficácia do que qualquer homem”.

Por mais que goste de estar com amigos, e gosta, o homem não ocupa a sua mente com eles. Não se preocupa em saber se os amigos estão bem nem o que estão fazendo. Isso ele faz com a mulher de quem gosta muito. Com essa, sim, ele se preocupa, dedica seu tempo, sua atenção. Paciência, pois, mulheres.

Claro que ele fica mal quando se separa, mas logo parte para outra. A separação dói, machuca, mas ele se refaz e vai em frente, rumo a outro coração. Envelhecer sozinho, nem pensar! Ele acha isso muito triste. A quem tem medo de morar junto, recomenda: “Tenta! Experimenta!”. Ele faz isso e nunca se arrepende. Quando perde a capacidade de gostar da pessoa com quem vive junto ou quando a mulher não o quer mais, vai em busca de outra e, assim, renova a própria capacidade de amar.

Será que ele não tem medo de se relacionar de novo, depois da perda? Não. “Não faço da relação um experimento científico. Apenas vivo o processo natural do relacionamento, sem anotar os defeitos, sem fazer comparações. Deixo fluir. E baixo as defesas quando estou apaixonado. Entro na relação de peito aberto, sem medo”. Só assim funciona e bem, pelo tempo que durar. “Que seja eterno enquanto dure”.

O raciocínio é simples para ele. “Se gosto da pessoa, durmo com ela, a companhia dela me agrada e ela me faz bem, por que não seria assim no cotidiano?”, questiona, dizendo ser doloroso estar só aos sábados e domingos. Ele aposta na cumplicidade e, para dar exemplo, cita o prazer de viajar, que nunca é o mesmo se está só. Por isso, prefere levar a pessoa amada, e sempre quer ter uma. E sempre tem. Assim, quando o encontro depois de algum tempo, pergunto com quem está casado. Casado, sim. Afinal, namorar para ele é muito pouco e “ficar” não compensa. Então, ele casa! E “quem casa, quer casa”. A mesma da pessoa amada, no caso dele.

2 comentários às 10:23 Vera Pinheiro

Tempo e dinheiro

Vera Pinheiro
O prêmio principal da Mega Sena está acumulado e deve pagar R$ 26 mi em próximo concurso. É um bom dinheiro…

O que eu faria se ganhasse tudo isso? Não sei, mas não me faltaria criatividade! Acho que eu compraria tempo. Isso mesmo, tempo! Se eu tivesse muito dinheiro talvez eu trabalhasse menos e, então, teria mais tempo e não precisaria fazer tantas coisas. Ou faria apenas o que eu gosto e não precisaria me ocupar com o que é apenas necessário. Viajaria mais, não teria pressa de voltar, porque teria mais tempo para ficar nos lugares aonde fosse e com as pessoas de quem eu gosto. Conheceria mais pessoas e aprenderia com elas, porque teria mais tempo para isso.

Não me preocuparia com as horas, com o que preciso fazer no tempo que tenho. Seriam todas as horas minhas. Seguiria meu ritmo, não o das necessidades. Não haveria urgências. Tudo estaria no seu próprio tempo. Sem pressa, premências, nem haveria atraso. Eu sempre estaria em tempo de viver o que me faz feliz.

Ainda acordaria cedo para assistir o desabrochar do dia, mas não pensaria logo em tudo o que devo fazer. Faria cada coisa a seu tempo. Dormiria apenas quando tivesse vontade, pois não haveria nada mais importante do que viver nem compromissos que me exigissem estar descansada ao levantar. Poderia sentir preguiça. Não haveria agenda que me cobrasse estar atenta o tempo todo. Teria tempo para fazer tudo. Teria mais tempo para mim e para estar com os outros.

Continuaria sem relógio, mas sem me ocupar do andejar das horas, dos minutos, sempre a perguntar quanto tempo tenho. Eu teria muito tempo para viver a natureza e me demoraria mais na apreciação dos ciclos, e os observaria ainda mais. Teria ainda mais bichos comigo e a eles me dedicaria por mais tempo.

Cuidaria melhor de mim, se tivesse mais tempo. E teria muito mais tempo para estar comigo e com quem me faz feliz. Iria ao encontro de quem amo mesmo se estivesse longe. Não haveria distância. Num vôo eu estaria junto e não seriam apenas viagens de pensamento, nas asas do meu sonho. Continuaria a sonhar, como sempre. Mas realizaria mais, faria mais. Não para me esgotar, mas pelo melhor prazer. E viveria tudo o que me dá prazer, por ter tempo e vontade para isso.

Agora, sonhando o tempo que eu compraria, vejo que não é o dinheiro que me traz o que vivo, é a minha disposição de viver! Porque, afinal, faço tudo o que disse, apenas por menor tempo. E reconheço que tenho todo tempo do mundo para o que verdadeiramente importa: ser feliz! E sou!

Adicionar comentário às 07:56 Vera Pinheiro

Fugas… (2)

- “Confissões masculinas” -

Vera Pinheiro
“O que fizeste hoje?” é uma pergunta respondida com sangue frio pelo homem que tem outra mulher além da esposa. Amigo meu contou que sempre dá “todo o serviço”. Diz exatamente tudo o que fez no dia, apenas aumenta o tempo de cada atividade ou compromisso e assim encaixa o tempo que dedica às suas escapadas. É o jeito que ele encontra para safar-se de uma eventual investigação da esposa. De fato, ele fez tudo que disse ter feito, apenas não demorou tanto. Se ela o interroga à exaustão, ele mantém o que disse. Ameaçado, ele se justifica, mas jamais confessa que traiu. “Pode até flagrar, eu não confesso!”.

A mulher dele é ciumenta. Não sem razão. Isso complica, admite, citando dois tipos de mulheres ciumentas: a que extravasa e a silenciosa, e esta é bem pior, na opinião dele. “A gente não percebe”, diz ele. Com a que extravasa o ciúme o homem melhor se defende. Com a silenciosa, pode deixar escapar alguma coisa, pois supõe, erradamente, que a mulher está indiferente. E o homem se trai justamente por isso.

Com a ciumenta assumida, diz ele, o homem já vai para a conversa, respondendo ao questionário, com a desculpa engatilhada, pronta. Está sempre preparado. Tem resposta para todas as perguntas. E quando volta à sua casa, está com as idéias concatenadas e com a mentira na ponta da língua (a mesma língua que esteve no beijo de outra há bem pouco).

O homem que trai, segundo disse esse homem, não questiona a mulher “para não dar direito de que ela faça o mesmo, para não se submeter ao interrogatório, para não enfrentar questionamentos”. Por isso aceita mais do que, não tivesse “culpa na consciência”, aceitaria.

Quando está com a outra, mantém o telefone celular desligado. Mas, se esqueceu de desligar, atende o chamado. “E quando atendo já vou dizendo onde estou para evitar perguntas”. Nunca está onde disse, mas dá uma informação para calar a indagação que aterroriza: “Onde estás?”. E quando é a outra quem liga? “A mulher, atenta, quer saber quem é. Dizer que é um cliente chato é a melhor resposta”. É o que ele faz e no que a mulher dele sempre acredita.

Difícil na relação com a outra é quando ela quer receber mais do que recebe. Quando ela quer atenção mais amiúde, quando quer estar com o homem mais vezes do que ele pode. “Há uma dificuldade de conciliar a outra e a esposa, por isso, tem de saber administrar”.

Quando ele sai com a outra? Para não ser pego, sempre no horário de serviço. Desculpas sobre onde andava fora do horário de expediente, à noite, por exemplo, são mais arriscadas. Durante o dia é mais fácil, segundo ele. “Há mais segurança”, afirma, explicando que é mais fácil ter razões para dar uma carona de dia do que explicar porque estava com outra no carro à noite.

A questão do horário sinaliza se a relação extraconjugal se torna perigosa ou não. Se a outra concorda em estar com ele quando ele pode, tudo bem. “Quando começa a ser exigido pela outra, começa o risco de cometer insensatez”. Há mulheres que não suportam submeter-se às possibilidades do homem e aí vem a ruptura da relação, afirma.

Para não enfrentar cobranças, ele prefere as mulheres que já têm compromisso, as casadas. Essas nunca cobram, diz ele. “Mantêm a aparência, cumprem o papel social de forma exemplar e defendem o sigilo da relação extraconjugal”. Delas e deles. E aí fica bom para os dois.

Por que, afinal, esse homem não se separa da mulher? “Porque sempre coloquei a família acima de tudo”. É incoerente? Ele acha que não. Para ele, as escapadas o fazem melhor no casamento, simplesmente isso.

O que se torna insuportável na outra é perceber que ela pode tornar pública a relação extraconjugal que ele tem. “A partir do momento em que se percebe que ela é capaz de uma coisa dessas é hora de cair fora!”. É quando ele some da vida da outra com uma boa desculpa ou, sem se importar com isso, apenas some. A outra sabe que ele não está mais a fim. E, acredita ele, ela já vai partir para outra relação. E ele também.

(Volto depois com as razões do homem que sempre quer casar)

Adicionar comentário Sábado, 25 de Novembro de 2006 às 13:51 Vera Pinheiro

Matilha

Vera Pinheiro
Demorei a voltar porque ontem tive um dia cheio de trabalho e à noite estive envolvida com a minha matilha. Meus netos caninos, filhos de Buddy & Lucky (ambos da raça Poodle) vieram para a nossa casa. São lindos, parecem umas bolinhas de pêlo! Um branco e um preto, como os pais deles. O filho de Lucky, de pêlos negros e brilhantes, é calminho e se chama Placky. Uma mistura de preto com black. O nome foi dado pelo avô canino. O filho de Buddy é Billy. É mais ativo e tem no nome um pouco da mãe Babi, de pêlos alvos como os dele. Sim, todos terminam com Y. É o sobrenome deles.

Os gatos Happy & Pitty receberam bem os novos membros da nossa família animal. Todos se entenderam. Comentamos, minha filha e eu, que é impressionante o relacionamento dos animais. Os cachorros pais pareciam ter reconhecido seus filhos. Não houve nenhum problema de aceitar o convívio com eles. Os pequeninos logo se sentiram em casa. Os gatos não apontaram as garras para os cãezinhos que chegaram à nossa casa.

Cada um dos bichos que trouxe para casa, desde o primeiro, veio numa sexta-feira (gosto especial pelo dia…) e fiz isso à noite, porque eles dormem e acordam juntos, se reconhecem e ficam na paz, ao contrário de muitos humanos. E porque não há nada melhor para o aprendizado do que um dia depois do outro e uma noite no meio…

Fiquei meio enrolada hoje de manhã. Não sabia a qual deles dar comida primeiro. Todos queriam atenção! Precisei me organizar e consegui. Enquanto escrevo, todos os bichos estão à minha volta. Repousam. Acho que estou vivendo num canil. Ou num zoológico! Afinal, os pássaros cantam lá fora e os calangos passeiam pelos muros. E todos estamos em paz, bichos e pessoas desta família.

Por falar em bichos, volto em seguida para continuar a história daquele homem que sempre se safa. Até já.

Adicionar comentário às 12:50 Vera Pinheiro

Fugas… (1)

- “Confissões masculinas” -

Vera Pinheiro
“Enquanto a gente namora, é a mulher dos nossos sonhos; quando vamos morar junto, vemos que ela tem os mesmos defeitos das outras. É só morar junto que as mulheres ficam iguais”. A afirmação de um amigo meu (casado, nível superior, já na “meia idade”) explica por que ele não deixa a mulher com quem é casado há muitos e muitos anos, mas a quem trai muito, desde sempre, sem que ela saiba. Sempre tem outra para sair, mas jamais foi pego e, afirma ele, a esposa jamais desconfiou. Se desconfiasse, ele estaria frito! Ele acha que a esposa tem bastante auto-estima, confia em si mesma e nele, mas não tem noção do que ela seria capaz de fazer se soubesse, então não arrisca se expor a isso. Não desafia a esposa, por assim dizer.

Uma amante de plantão compensa a chatice do casamento, disse. “Ter um pouco de culpa no cartório me torna mais paciente e compreensivo com ela, o que é vantagem para o casamento. Fico menos exigente, cobro menos, me torno mais tolerante com o que ela faz e que me aborrece, como os gastos exagerados dela, comprando o que não precisa”. Marido que não reclama de nada tem “culpa no cartório”. Palavras dele.

Mantendo ativa a vida sexual fora de casa, ele se exaure, sim. Como atende os apelos da mulher, na volta do passeio com outra? “Não procuro sexo, mas, se ela manifesta interesse, preciso estar em condições de cumprir o desiderato”. Ele comparece, sim, ainda que não seja tudo aquilo que, não fosse a escapada, ele faria, mas, segundo disse, para isso existem as alegações de cansaço do trabalho, se ele não der conta.

Ele sempre tem uma parceira fixa fora de casa. Uma namorada que se submete a viver escondida, mas que, como a maioria das mulheres, usa perfume e batom. Para não ficar com o cheirinho da outra, toma banhos demorados no motel, antes de voltar para a esposa. “Depois de um encontro furtivo, o banho é fundamental para não chegar em casa com o perfume da cúmplice”. Além do aprumo da roupa, do cabelo penteado. “Se chego descabelado é culpa do vento forte”. O limite que ele observa fica entre a arrumação da aparência e o ar de final de dia. “Se chegar arrumadinho demais, a mulher presta atenção, por isso o meio termo”.

A perguntinha recorrente - “O que fizeste hoje?” - é a morte para o homem, diz o meu amigo, especialmente quando está voltando de um encontro com outra. “Relato exatamente tudo o que fiz no dia, porém, aumentando o tempo de duração de cada compromisso. Estico as horas e, assim, cabe o tempo do encontro sem que, aparentemente, eu tenha mudado a rotina”. É desse modo que escapa de uma eventual inspeção da mulher quanto ao que ele fez no dia. Fez tudo o que disse, apenas não demorou tanto tempo.

(Conto mais depois a respeito das escapadas desse esperto, continuando a questão do “interrogatório” da esposa quando ele volta para casa).

Adicionar comentário Sexta, 24 de Novembro de 2006 às 07:38 Vera Pinheiro

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