Arquivo de Janeiro de 2007

Pensando em sexo…

Vera Pinheiro
Desde cedo penso numa querida amiga minha, doente há muitos anos. Não a visito faz tempo. Logo que adoeceu, eu a visitava com alguma freqüência, mas ando agora descuidada com o carinho que devo dedicar a ela. Não fiquei bem comigo por não ter ido à festa dos seus 50 anos, sei lá há quanto tempo. Devia ter ido, mas, naqueles idos, eu trabalhava demais, nunca tinha tempo para me divertir. Ela também não tinha tempo para outra coisa que não fosse trabalho e trabalho. Doente, hoje tem todo o tempo do mundo, mas não pode usufruir. Escrevi no meu livro uma crônica sobre ela, pessoa que me deu grandes lições de vida. A crônica chama-se “Prisioneira do silêncio”, está no “Parto de mim”. A propósito, preciso me organizar, encontrar mais tempo para a edição do próximo livro. Ando ocupada mais do que gosto de estar.

Essa minha amiga tem um marido com vocação para santo. É mesmo! Bonzinho, um amor de pessoa! Sereno, tranqüilo, paciente. Ela, sempre ocupada, deixava-o esperando durante horas até que pudessem ir para casa. Eu e outras amigas nos encantávamos com o jeito dele, que nunca reclamava de nada. Conhecíamos homens impacientes, chatos, que reclamavam muito de esperar por suas mulheres. O marido dela não era assim. Sempre esperava sem reclamar. Não podíamos conter os elogios:
- “Nossa, amiga, teu marido é um amor”.
- “É mesmo! Um amor! Mas é ruim de cama…”, retrucava ela em voz pausada.
Caíamos em risos, sem deixar de emendar:
- “Credo, amiga, não diz isso!”
- “Digo, sim. Marido e empregada a gente não elogia para não despertar inveja”.
Ela, quando saudável, era pessoa muito bem-humorada, linda!

Hoje, lembrando dela e do que dizia, não deixei de pensar que, quando há sentimento, ser bom de cama é um detalhe. Eu acho. Sexo é bom, sem dúvidas, mas a questão entra no “conjunto da obra”, não é o mais importante quando há amor. Sem sentimento, ser bom de cama torna-se vital. Afinal, há relações baseadas apenas em sexo… e do bom! E pode ser uma relação duradoura, apesar do vínculo apenas sexual. Há homens e mulheres bons de cama, ah, como existem! Mas, lá pelas tantas, a gente descobre que é apenas isso, não tem mais nada. E isso se torna pouco demais para permanecer junto. Por isso, não havendo sentimento, muitos compensam com sexo de qualidade. Botam empenho nisso, porque é só o que têm para dar ao outro. Mas há alguns que não chegam nem a isso, por mais que se esforcem (e falo de homens e de mulheres). Na realidade, bom mesmo é fazer amor. Sexo com amor. Uma delícia…

1 comentário Quarta, 31 de Janeiro de 2007 às 08:17 Vera Pinheiro

Carpe Diem

Vera Pinheiro
Aqui em Brasília tem um restaurante do qual eu gosto muito. Chama-se Carpe Diem. Não é um lugar sofisticado nem tão simples. É agradável e isso é tudo. Tem um lugar reservado, mas não é ali que gosto de ficar. Gosto de ficar na parte da frente, com vista para a rua, para as árvores e para uma igreja. Apesar de não ser católica, gosto da arquitetura dos templos. Foi no Carpe Diem onde comemorei o meu primeiro aniversário na cidade, em 1995, e também onde lancei o meu livro, comemorando meus 50 anos, em 2005. Freqüento, portanto, esse lugar há 10 anos, no mínimo. Conheço os garçons, a quem espalho beijos e abraços quando vou lá. Eu me tenho por íntima daquele lugar, onde servem um chope absolutamente gostoso e bolinhos de aipim que não têm explicação, precisa comer – e devagarinho – para ter noção do sabor. O que eu gosto, mais do que tudo, é do nome do restaurante: Carpe Diem. Li no site de Rubem Alves definição que está pronta e que compartilho: “Carpe Diem” quer dizer “colha o dia”. “Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente”.

Hoje cedo eu me demorei contemplando a árvore de carambolas, que tenho por sagrada, no meu quintal. É baixinha e dela posso colher as suas frutas deliciosas, que como ao pé, sem lavar. Eu me sinto meio selvagem, fazendo isso, e acho que sou, mas quando estou diante daquelas carambolas amarelinhas não resisto, como na hora e me farto de alegria. Se quero comer as que estão mais no alto, pego uma cadeirinha da varanda, me espicho quanto posso e colho. Como na hora, antes que caiam. E muitos frutos caem todos os dias sem que eu veja. Frutos maduros, que não são colhidos, caem ao chão e ali fenecem.

Olhando o pé de carambolas eu pensava na vida e nos frutos de felicidade que a gente deixa para amanhã. Por isso eu lembrei do Carpe Diem, o restaurante de nome sugestivo. Quanta vida se deixa para depois, quantas alegrias se espera viver amanhã, quanta felicidade costumamos adiar. Quantos frutos maduros que hoje estão deliciosos e prontos para serem degustados caem do pé no final do dia. Por isso, quase todos os dias eu pego uma sacolinha, dessas de supermercado, e encho de carambolas para levar para alguém. Domingo, levei para o pai do namorado da minha filha e a mulher dele. Ontem, para uma amiga da minha filha, que estava de aniversário. Camila deu o presente dela, eu dei o meu. Estranho dar carambolas de presente? Por que não presentear assim? O que pode ser mais amoroso do que frutas que nos lembram a mensagem da natureza, o recado da vida dos frutos, que precisam de tempo para maturação e que devem ser saboreados quando estão prontos, nem antes nem depois? Se não os colhermos a tempo, estarão perdidos. Assim também os frutos que a vida tem a cada dia. Portanto, Carpe Diem. Vamos colher os frutos da felicidade desse agora. O amanhã é uma espera. Enquanto esperamos que ele venha, vivamos felizes hoje, agora, já. Sem adiamentos nem atrasos.

Adicionar comentário Terça, 30 de Janeiro de 2007 às 10:02 Vera Pinheiro

Decisões e escolhas

Vera Pinheiro
Quem pode escolher o que viver senão nós mesmos? Tudo são escolhas. O que não é escolha é imposição e, nesse caso, no máximo podemos nos rebelar. Porém, às vezes, toda rebeldia não basta para mudar situações. Então, acatamos. Submetemo-nos. Esse é um duro exercício de humildade, de reconhecimento da nossa impotência e dos nossos limites.

Quando podemos escolher nem sempre fazemos isso sozinhos. Pedimos opinião, queremos ouvir o que os outros pensam sobre determinada circunstância. Um pitaco ao menos, que seja. Quando faço isso, quando peço a opinião alheia é porque me interessa mesmo, é porque preciso ter “uma segunda opinião” acerca de um fato, e é também porque não tenho opinião formada ou me sinto confusa e quero ajuda para clarear a minha visão sobre os acontecimentos.

Tenho observado que as pessoas não gostam de dar opinião. Ao menos sobre assuntos que me dizem respeito as pessoas não gostam de dar opinião, mesmo que eu peça. Tenho pedido e não recebo. Aí eu me questiono se isso ocorre porque eu nunca gostei que dessem palpite na minha vida, porque me acostumei a fazer tudo por minha conta e risco, porque os outros acham que eu posso fazer isso sem ajuda ou, pode ser, porque não recebi bem as opiniões alheias que recebi sem ter pedido.

De todo modo, quando peço alguma ajuda para decidir e para fazer escolhas e não recebo isso, eu tenho duas sensações diferentes: primeiro, eu me sinto muito sozinha para decidir e escolher; segundo, eu me sinto mais responsável por mim mesma. A única responsável pelas minhas decisões e escolhas. Se acertar, talvez eu comemore com todos, até com quem não quis me ajudar a decidir e a escolher. Mas, se eu errar, tenho certeza de que não posso compartilhar o erro com ninguém. Nisso está a grande responsabilidade de ter a vida nas próprias mãos, compartilhando escolhas e decisões apenas com o Poder Divino que, aliás, dá conta da insegurança, do medo e da angústia de decidir e escolher sozinha. Ainda bem!

Adicionar comentário Segunda, 29 de Janeiro de 2007 às 10:16 Vera Pinheiro

Filhos postiços (*)

Vera Pinheiro
“Quando casa uma filha, a gente ganha um filho; quando casa um filho, a gente o perde”. Coisas da minha mãe. Ela dizia isso com uma certeza enorme, mas acho que era da boca pra fora, não falava sério. Sempre duvidei que fosse verdade, embora não confessasse a dúvida por respeito a ela, que hoje é maior de 85 anos. Sou do tempo em que não se retrucava mãe e tudo que vinha dela tinha vigor de sentença irrecorrível. Com o passar dos anos, já me encostando à idade em que a mãe dizia isso e vivendo as minhas próprias experiências com genro e nora, acho que a afirmação era mesmo exagerada, mas não a invalido porque, ao menos, me serviu de alerta para os cuidados a ter com as relações familiares e seus acréscimos.
Nesses tempos de “ficar”, relações casuais e rápidas, na minha casa ainda funciona o velho e bom estilo de namoro, sem os excessos da minha educação materna. Não me tenho por sogra caninana, mas também não sou exatamente um primor, especialmente quando me zango (ainda bem que por poucas – e justificadas – vezes). Quando o namoro da minha filha começou, fiz um bico: lá se vão as noites de sábado assistindo a um bom filme juntas e os nossos domingos de caminhada no parque, pensei. Mas me rendi às evidências. Ou melhor, entendi que não podia ser (seria?) um embaraço à relação dos dois, que anunciava bom começo, embora eu tenha dado, de cara, um dote ao candidato a meu genro: 500 pontos negativos. Se ele conseguisse zerar o número, já estaria em vantagem na família. Será que exagerei?
Catando um ponto aqui, merecendo outro ponto lá, em quase quatro anos o moço está com boa margem de pontos positivos, muitos deles por conta de um café inexplicavelmente maravilhoso com que ele brinda os nossos amigos ao final de cada reuniãozinha em casa. Suspeito que ele nunca vai entregar o segredo, pois cada rodada de café merece aplausos dos convivas e me pergunto – em silêncio – se os meus quitutes não estarão perdendo a pose. A sobremesa que eu fazia já perdeu espaço para o café insubstituível e inenarrável que o meu genro faz.
Foi difícil, admito. De começo, ver o trânsito de um “estranho” dentro de casa me deixava confinada no meu canto. Nunca mais os meus shortinhos e o camisetão sem nada mais aos domingos. Eu me sentia mãe de segunda a segunda, sem feriadinho nem fim de semana. Um cansaço! Com o tempo, entretanto, ele conquistou status de membro da família e virou um filho postiço, mais por seus méritos do que pela minha boa vontade. Então, descobri que a minha mãe era exagerada em algumas coisas (e devo ter puxado a ela), mas tinha razão em muito do que falava.
“Quem beija os meus filhos adoça a minha boca”, ela costumava dizer. E assim é, daí a estima que tenho pelo genro e pela nora, duas pessoas lindas que fazem parte da vida dos meus filhos e, por extensão, da minha. Gosto muito deles pelo que são, e gosto um tanto mais pelo que meus filhos sentem por aqueles dois, seus pares. Sem contar que, estando todos muito felizes, eu vivo muito mais em paz. Quem agüenta dor de cotovelo de filho? Dá vontade de passar a chinela em filhos que não são nossos, por conta disso! Mas, eu, que não bati nos meus filhos originais, nunca espancaria filho nascido de outro útero e que tenho como meu também. Genro e nora são filhos do coração e não abro mão disso! E estou segura de que não vou perder meus filhos pelo amor que sentem por outras pessoas, porque tudo é amor, embora se expresse de jeito diferente. Desculpa, mãe, mas não concordo que se ganha ou perde nessas relações, e posso dizê-lo aos 50 e um.
Porém, por mais que goste deles, há um “porém” (e sempre há algum). Ainda estou no aprendizado de mãe postiça do meu genro e da minha nora, que me aturam e eu a eles, exercitando o que é compreensão. Com aquela mania de deixar tudo espalhado e a promessa de arrumar logo depois me ensinaram a ter mais paciência. Quem vai arrumar tudo serão eles, não eu. Já consegui relaxar quanto a isso. E a festa na cozinha quando resolvem cozinhar? O que sujam de louça e de talheres anuncia um batalhão para o almoço, mas seremos poucos, apenas nós ou somente eles. “Mãe, aumenta a minha paciência, porque ela é grande, mas acaba!”, peço em oração. Cinco horas depois, quase tudo já está limpo. Não cuido o tempo no relógio, desvio o olhar da pia, vou fazer outra coisa. Isso me fez menos exigente (ou seria chata?).
Com a convivência que se faz aos poucos e sempre, alarguei a minha gratidão, pois se muito ensinei aos meus pequenos, aprendo o dobro, desde que cresceram. Isso é a dinâmica da vida, a reorganização do universo humano, que nos permite ensinar e aprender. Nessa troca todos nós crescemos: pais, filhos e quem mais entrar para a família.

(*) Crônica publicada em 27/1/2007 no jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria, RS.

Adicionar comentário Sábado, 27 de Janeiro de 2007 às 21:47 Vera Pinheiro

Revisão

Vera Pinheiro
Na noite silenciosa e calma, o pensamento passeia pelas veredas do passado, encontrando situações, pessoas e histórias. Reencontro amigas antigas, como a perseverança, que me fez alcançar muito do que eu queria; a determinação, que não me deixou desistir de alcançar sonhos; a alegria, que vestiu circunstâncias de sorriso; a fé, que não me deixou desanimar; a coragem, que me fez superar adversidades; a confiança, que me fez seguir adiante. Também revejo algumas dores em processo de cura, algumas mágoas que precisam ser transmutadas em perdão, algumas ofensas que devem ser esquecidas.

Olho o presente e percebo que toda a vida nele se faz, por isso me concentro em ser feliz agora. Espio o futuro e espero por ele sem deixar de viver o hoje. Tudo o que vivi valeu a pena e todas as penas que vivi muito me ensinaram. A felicidade também ensina, porém de um jeito mais suave. Todas as lições que capturo do ontem e deste agora farão o meu depois melhor. Reúno o que há de bom e me desvencilho do que não é tão bom assim para fazer a minha viagem leve, sem bagagem de que eu não precise.

Sou parte, pedaços, trechos. Sou as minhas histórias. Mas quero sempre ser uma pessoa inteira no que vivo e ter cumplicidade com os meus sentimentos, sem os rejeitar, acolhendo-os para melhor compreendê-los. Olhando para o meu interior sem medo do que possa ver, pois quando me encaro eu mais aprendo sobre mim e sobre o que quero para os dias que ainda virão. Mais me sei quando me revejo. E quanto mais aprendo tanto mais quero entender. Às vezes, choro e lavo a alma. Depois eu sorrio, porque sempre há bons motivos. E jamais desisto de mim.

Adicionar comentário Quinta, 25 de Janeiro de 2007 às 22:16 Vera Pinheiro

Crônicas

Vera Pinheiro
Hoje é dia de escrever a crônica semanal para o jornal A Razão, de Santa Maria, RS. Não gosto de escrever antes da hora nem de pegar textos guardados. Esse é um recurso que guardo para as impossibilidades, para dias e semanas em que eu estiver muito ocupada mesmo! Mas é coisa muito rara, pois aprendi a ter tempo para fazer o que gosto, e escrever se inclui nisso. Gosto do frescor das palavras e do sentimento da semana para as minhas crônicas. Não gosto de falsificar o meu estado de alma no que escrevo e acho mesmo que nem posso! A crônica, sendo semanal, reflete o meu cotidiano semanal também. As pessoas que me lêem podem saber como me sinto. Deixo a janela do coração entreaberta, quando não escancarada, porque a crônica tem um sentido de partilha das minhas emoções.

Às vezes, as pessoas perguntam onde estão as crônicas que publico em A Razão. Nem todas estão neste blog. Umas, sim; outras, não. Nem tudo o que escrevo está aqui ou lá, pois reservo textos inéditos para o próximo livro. Neste blog há uma sessão de crônicas. Eu coloco algumas nesse espaço. Só peço que, se repassarem, mantenham o crédito, a autoria. Eu sempre faço isso com o que é dos outros, acho respeitoso, além de ser um direito.

O tema da crônica do próximo domingo será a minha relação com o meu genro e com a minha nora. Mais com ele, que mora na mesma cidade e convive mais de perto comigo. Ou será que eu devia escrever “me atura”? Vou postar aqui no fim de semana o que escrevi inspirada em Leandro Ferreira Coelho e em Renata Monezzi, meu genrinho e minha norinha. Os dois, muito amados! Por mim também, é bom dizer!

Adicionar comentário Quarta, 24 de Janeiro de 2007 às 16:46 Vera Pinheiro

Confia

Vera Pinheiro
Não importa quão rudes tenham sido os teus dias do passado. Confia no dia de hoje e prepara com confiança o caminho para o amanhã. Não tragas lembranças dolorosas do teu ontem. Nada é igual, tanto na parte boa como na nem tanto. As alegrias não são as mesmas, as tristezas também não. Este momento é único, por isso, não te detenhas no que já passou, pois são trajetos diferentes, embora se assemelhem. As experiências vividas não pertencem a esse agora, servem apenas como referência, como quem transita por uma estrada e dela conhece os perigos. Anda com cuidado, mas não percas a confiança na tua sabedoria. Ela está no teu coração, que te serve de guia por onde andares. Nada é mais sábio do que o teu coração, ouve-o, sente-o. Ele orienta com exatidão. E mesmo nas vezes em que te pensavas em engano, o teu coração sabia, embora negasses. Assim também é nesses dias. Confia no que fala o teu Eu interior, pois ele te trouxe até essas vivências. Não oponhas resistência à voz que te sopra conselhos e que vem de ti, rugindo ou sussurrando. Segue em frente, rumo aos teus desejos, pois também eles vêm do teu coração.

Adicionar comentário Terça, 23 de Janeiro de 2007 às 07:35 Vera Pinheiro


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