Arquivo de Maio de 2007

Tudo azul

Vera Pinheiro
O dia está azul. Céu e lua estão azuis. A vida está azulzinha e eu, feliz. Estou atrasada para o meu blog e pensava nisso, há pouco. Não escrever no blog, tendo um, é como convidar alguém para ir à nossa casa e não estar nela quando a visita chega. Pois é. Não pude estar nesta casa até agora porque estava com um homem que me deixa de boca aberta. Estava no dentista.

Continuo a maratona da revisão geral e me parece que depois da chamada certa idade, tudo é mais demorado, tem mais peças para checar. Carro com quilometragem alta também não é assim? Tudo para, ao final, ter a saúde aprovada. Vale a pena a correria, então. De três dias para cá, cuidei da cabeça. Dermatologista, oftalmologista e dentista. Falta ir ao cabeleireiro e ao terapeuta para completar essa área. Depois, vou descer pelo corpo até chegar à podóloga que cuida dos meus sagrados calos.

Não gosto de marcar consultas no meio do dia. Prefiro ir de manhã cedo. Até para jogar búzios o horário é melhor. Mas não tinha espaço e eu tinha pressa. Gosto de começar e terminar logo, senão leva uma vida de lá pra cá e de cá pra lá. A minha paciência esgota antes que termine o check up.

Vou cuidar do mais que tenho a fazer e depois entrar em serenidade para me conectar com a energia da Lua Azul esta noite. Tenho alguns pedidos a fazer. Mas posso garantir que, mesmo não pedindo, a Grande Mãe me alcança. Ela sabe do que eu preciso para viver bem, em paz e feliz. Saúde, por exemplo, o bem maior desse templo que habito. Ela me protege e eu me cuido.

Adicionar comentário Quinta, 31 de Maio de 2007 às 15:43 Vera Pinheiro

Silêncio

Vera Pinheiro
O silêncio da noite me traz a sensação que o mundo está em paz. Toda essa quietude acalma até o grito das corujas. Ouço apenas o bater de suas asas próximo da minha janela, por onde entra a luz muito clara da lua cheia, que na noite seguinte será azul.

Nas noites de lua cheia tenho menos sono e mais silêncio. Olhos abertos, coração quieto. Como ave noturna, meu pensamento bate asas e voeja entre recordações e vontades.

A saudade me visita, enquanto espero o sono, sem saber quando virá. Saudade de afagos, palavras ternas e sentimentos compartilhados. Falta de estar junto. De carícias sem nenhuma pressa e dos arroubos do corpo.

A mente passeia, busca e encontra memórias de felicidade, lenitivo para a ausência. Envio mensagens ao coração, dizendo “espera”. Tudo tem hora e tempo certo. Alguns ciclos se completam e outros começam, enquanto eu recomeço, lua após lua, a caminhada do meu ser mais profundo.

Não tenho muitas bagagens senão as histórias que vivi. Algumas passaram, outras são eternas. Algumas guardei, outras tento esquecer. E há pessoas que sempre estão presentes e seguem comigo.

O destino tem estações onde os desejos se renovam. Tomo pela mão os que caminham comigo e me são essenciais. Esses têm permanência. Tudo o mais passa. Rusgas que não valem a pena, dores que devem ser curadas e as incertezas que permeiam a caminhada. Tudo passa. Só fica o que recompensa o espírito e quem me faz jornadear em noite de lua cheia, uivando do coração para dentro, chamando quem está ausente.

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A Lua Azul

Magda de Mariolani

Lua Azul é a segunda lua cheia dentro de um mesmo mês. É um fenômeno raro (ocorre a cada 2 anos e sete meses- apenas 36 vezes em um século-) e os ocultistas a consideram uma lua de poder aumentado.

É considerada uma lua de prosperidade e os pedidos podem ser feitos de acordo com o signo do zodíaco onde ela cai. É um momento forte para entrar em contato com a Deusa, a responsável pela criação do universo.

Tem um halo azul em torno de si, se observada em telescópios e aumenta os dons psíquicos. Aguça os poderes de visão, deve-se prestar atenção aos insights e premonições.

De acordo com a tradição celta, na lua azul o véu entre os 2 mundos (matéria e espírito) está mais fino, permitindo contato, como no Samhain.

Exatamente por sua força, essa é uma lua de cautela, onde devemos buscar a maturidade emocional para não termos nossas emoções exacerbadas, levando a atitudes irracionais e sem-sentido.

De acordo com a tradição mágica, os pedidos feitos durante a lua azul são atendidos em tempo recorde.

Adicionar comentário às 00:43 Vera Pinheiro

A Lua Azul da abundância (*)

Mirella Faur
Acredita-se que a Lua Azul começou a ser cultuada, inicialmente, entre os egípcios, com a substituição do calendário lunar, que marcava o tempo usando as fases da lua, pelo solar, que introduziu o conceito do mês de trinta dias. Lua Azul é o nome que se dá à segunda lua cheia dentro do mesmo mês. Um fenômeno que acontece, em média, uma vez a cada dois anos e sete meses, sete vezes a cada dezenove anos e trinta e seis vezes no século. Desde a Antiguidade, a Lua Azul é considerada um acontecimento de muita força magnética e poder espiritual, reforçando o sentido de plenitude da lua cheia. (Neste dia 31 de maio, o fenômeno voltará a ocorrer com uma segunda lua cheia no mesmo mês).

A Lua Azul nos proporciona uma oportunidade a mais de tocar o divino, um aumento da consciência diante das forças sobrenaturais, reforçando, assim, o intercâmbio com os outros planos, reinos e dimensões. Por ser considerada um tempo entre os tempos, um momento raro, e por isso, muito mais poderoso e mágico, fica mais fácil alcançar o mundo entre os mundos por meio dela. É uma lua de abundância, que permite colher muito mais do que plantamos. Os encantamentos têm maior poder e os resultados são mais rápidos. Pensamentos e desejos tornam-se mais intensos e, assim, qualquer ritual exige maior cautela em relação aos objetivos e pedidos. Mais do que nunca vale a advertência: cuidado com o que pedir, pois você pode conseguir!

Com o surgimento do calendário juliano, no início do cristianismo, o culto à Lua Azul passou a ser reprimido por ser considerado uma exacerbação da simbologia lunar, do poder feminino e do culto às Deusas, assuntos perseguidos e proibidos. Mesmo assim, permaneceu sua aura romântica e poética, e a Lua Azul passou a ser associada à crença de que era propícia ao romance e ao encontro de parceiros. Surgiu o termo inglês blue moon, significando algo muito raro, impossível, dando origem a inúmeras músicas e poemas melancólicos ou esperançosos.

Na mitologia celta, esta lua favorece o contato com o reino encantado dos seres da natureza. Invocam-se as Rainhas das Fadas - Aeval, Aine, Aynia, Bri, Creide, Mah e Sin - e empreendem-se viagens reais ou imaginárias para as sidhe, as colinas encantadas, morada do Little People, o Povo Pequeno.

Para agradar as fadas, os celtas cultivavam perto de suas casas suas plantas preferidas - calêndulas, verbenas, violetas, prímulas e tomilho - e deixavam oferendas de mel, leite, manteiga, pão e cristais nas clareiras onde os círculos de cogumelos denotavam sua presença. Para favorecer a visão, abrindo a percepção psíquica, usava-se artemísia, em chá ou em infusões para banhos, suco de samambaias ou orvalho passado nas pálpebras, sachês de mil folhas e hipericão, invocações mágicas adequadas.

A Lua Azul é regida pela Matriarca da Décima Terceira Lunação. Ela é aquela que se torna a visão, a guardiã de todos os ciclos de transformação, a mãe das mudanças. Esta Matriarca nos ensina a importância de seguir nosso caminho sem nos deixar desviar por ilusões que possam vir a interferir em nossas visões. Cada vez que nos transformamos, realizando nossas visões, uma nova perspectiva e compreensão se abre, permitindo-nos alcançar outro nível na eterna espiral da evolução do espírito. A última visão a ser alcançada é a decisão de simplesmente SER.. Sendo tudo e sendo nada, eliminamos os rótulos e definições que limitam nossa plenitude.

Para criar uma atmosfera adequada a uma celebração da Lua Azul, use velas e roupas azuis. Prepare água lunarizada expondo garrafas de vidro azul, cheias de água, aos raios lunares. Prepare travesseiros dos sonhos enchendo uma fronha de tecido azul com flores de sabugueiro, lavanda ou alfazema, hipericão, folhas de artemísia e sálvia. Imante cristais e pedras azuis como o topázio azul, a safira, o berilo, a água-marinha, o lápis-lazuli ou a sodalita. Usando músicas com sons da natureza, como pios de corujas, cantos de baleias ou uivos de lobos, permita que sua criatividade e intuição levem-no/a ao reino das fadas ou ao encontro das deusas lunares. Olhe fixamente para a lua, eleve seus braços e puxe a luz da lua para sua testa, seu coração e seu ventre.

Conecte-se, em seguida, à Matriarca, pedindo-lhe orientação sobre as mudanças necessárias para alcançar uma real transformação. Permaneça, depois, em silêncio e ouça as mensagens e respostas ecoando em sua mente ou alegrando seu coração.

(*) Fonte: O Anuário da Grande Mãe – Guia Prático de Rituais Para Celebrar a Deusa, da Editora Gaia, de autoria de Mirella Faur.

1 comentário às 00:34 Vera Pinheiro

O que virá

Vera Pinheiro
Temes o que virá? Temes como vai ser e se será? O que o amanhã representa na tua vida? Qual a importância dele nas tuas escolhas? O amanhã é feito dele mesmo ou é resultado do hoje?

Minha crônica do próximo fim de semana tratará disso. Escrevi hoje, enviarei amanhã e ela será publicada sábado, 2/6/2007, no jornal A Razão, da minha Santa Maria, RS, e neste blog, ao mesmo tempo. A vida é assim também: escrevemos hoje o que queremos para amanhã.

Adicionar comentário Quarta, 30 de Maio de 2007 às 17:41 Vera Pinheiro

Olhos casados

Vera Pinheiro
“Este é irmão desse…”, segundo o ditado popular. No caso dos meus dois olhos, eles não são irmãos, são casados! Pensava nisso enquanto me adapto às novas lentes, e as testo. O que faz o tempo, não? Meu grau de miopia aumentou (agora é 10), mas precisa conviver bem com aquela fase em que o braço espicha para que enxerguemos bem. Pois é.

Para ver bem à distância e também de perto, mas sem o recurso bifocal, que se pode usar em óculos, inventaram uma tal de báscula, que já uso há uns dois anos, acho. É assim: um olho ganha lente para longe e o outro, lente para perto. Quando a contatóloga me informou dessa novidade, à época pensei: isso não vai dar certo, como pode? – já me sentindo zarolha. Pois deu. Funciona que é uma beleza!

Assim, com um olho eu vejo o que está longe. Com o outro, o que está perto. A visão se funde, por assim dizer, e posso enxergar bem tudo o que a vista alcança. O detalhe é que para isso funcionar, precisa baixar o grau de cada lente. Ambos são 10, mas cada um cede um pouco para que eu possa ter boa visão. Não parece casamento? Parece.

Numa união, cada pessoa precisa ceder um pouco. Ambos são nota 10, mas isso não basta para que o casamento funcione. Baixam a guarda, relevam, cedem um pouco e, cada um fazendo isso, a relação anda bem.

Meus olhinhos são casados. Eu, de novo? Ainda não. Ainda.

2 comentários às 14:14 Vera Pinheiro

De olho nos olhos

Vera Pinheiro
- O seu olho direito sempre foi pior do que o esquerdo, não?
- Não. O meu olho esquerdo sempre foi melhor do que o direito.

O médico riu, enquanto me submetia a exame oftalmológico nesta manhã. Literalmente, uma questão de ponto de vista, Sou míope desde… sei lá, desde que estava no hoje chamado Ensino Fundamental. Conversadeira na aula, vez por outra, minha mãe era chamada na escola por conta disso ou vinham anotações no boletim dizendo que eu boa aluna, MAS devia conversar menos. Não parei de conversar, hoje mais por escrito, a bem da verdade.

Agora me pergunto se a culpa da conversa não seria da miopia. Como não enxergava o que estava escrito no quadro, conversava, ué! Vejam só. Em vez de procurarem saber a causa, combatiam a conseqüência! Quando perceberam o problema da menina aqui, já estava com 4 graus, e passei a usar aqueles óculos “fundo de garrafa”, de cara, na cara. A propósito, outro dia reencontrei um antigo colega de classe. Ah, que mundo pequeno! Cliente de um coleguinha de aula. Médico especialista em acupuntura, quase me faz levitar! Um espetáculo! Eu lembrava bem dele e o tempo não mudou muito a sua aparência. Não faltou a perguntinha: “tu usavas óculos, né?”. Usava. Valeu pelo menos para me garantir na lembrança dele.

Usei óculos de todos os jeitos, de todas as cores e formatos. O que não dá pra esconder tem de assumir. Mas sempre em paralelo com o uso de lentes de contato. “Usas lentes ou o teu olho é assim?”. “Assim” é meio esquisito, mas acho que é elogio. Respondo, pacientemente: uso lentes, mas meu olho é assim…

Ora, ora, se não precisasse, eu me submeteria a 30 anos e tanto de bota lente, tira lente? Nem pensar! Mas gostaria de enxergar sem lentes e sem óculos. Gostaria de ver o teto do meu quarto, ao acordar. Para que a queixa, se tantos são cegos e nada vêem? É mesmo, estou sendo injusta.

Não posso fazer cirurgia para acabar com a miopia. Já tentei, mas foi negado e nem lembro a razão. Só sei que me recomendaram esperar a catarata chegar. Como assim? Eu não espero por ela!, protestei. “Então, a senhora não quer envelhecer”. Pronto. Está no pacote, portanto. Enquanto a catarata não chega, boto lente, tiro lente, boto óculos, tiro óculos. E desenvolvo meu tato. É impressionante como a gente se recompensa. Meu tato é muito melhor do que o de pessoas que enxergam bem. À noite, me movimento sem problemas e sei onde tudo está (por isso não posso estar com a casa bagunçada!). Curioso, enxergo melhor à noite. Será coisa de gata? A claridade incomoda os meus olhos claros, deve ser isso.

De todo modo, agradeço muito à minha miopia. Não fosse ela, eu não seria jornalista e tudo o mais até aqui não teria acontecido. É verdade! Fiz concurso (com uma única vaga) para ser locutora de rádio, aos 18 anos, não porque tivesse sonhado isso. Eu queria mesmo era comprar um par de lentes de contato. E deu no que deu. Felizmente! Vejo (!!!) que se confirma o ditado popular de que há males que vêm para bem.

Não fosse jornalista, e depois advogada, e depois escritora, eu seria médica. Talvez, quando me aposente, eu faça vestibular. Mas isso já é outro assunto. Por ora, o que interessa é que meus olhos são nota 10… e tem, cada um, 10 graus de miopia!

Adicionar comentário às 12:14 Vera Pinheiro

Já?!

Vera Pinheiro
Assim não é possível! Cheguei do trabalho, fiz umas coisinhas e já é quase meia-noite? Que coisa! Parece que o tempo voa! Será que é assim pra todo mundo? Como será a vida de pessoas que podem curtir um terceiro tempo de pernas para o ar? Bem, não ficaria de pernas para o ar, não por muito tempo, mas queria não ter pressa para nada! Das 24 horas do dia, 8 trabalho (quando o ritmo é normal), 8 durmo (quando é possível) e as outras 8 fico entre idas e vindas, cuidando da família, dos bichos, dos meus escritos. Cadê o meu tempo? Olho em volto e a casa grita. Há tanta coisa para fazer…

E dizer que, antigamente (nem tão antigamente) eu passava noites acordada, trabalhando. Diziam que quando a gente fica mais velha, dorme menos. Mas, pelo visto, não é assim. Quanto mais avanço na idade, mais dorminhoca fico. Será uma segunda adolescência? Quando muito jovem, sonhava em não ter compromissos pela manhã. Mas tinha aula, e depois trabalho, e mais adiante filhos grudados no peito (apesar de o pai deles sempre fazer a mamadeira das 6h), e depois leva e traz filhos (apesar do ônibus escolar) e por aí a vida me ocupou sempre pela manhã, e de manhã até a noite.

Quando é mesmo que chega o sábado? Amo sábados e não é pelos embalos. É para ficar no meu canto!

Amanhã (daqui a pouco) é dia de escrever a crônica da semana. Gosto de escrever na véspera (envio para o jornal na quinta) e deixar o texto maturando. Nem sempre consigo. Às vezes escrevo no dia mesmo e sai um texto fluido. Depende do ritmo do dia. Curioso, nunca sei com antecedência o assunto. O que escrevo traduz a emoção da hora. Será que é assim para todos os cronistas? Acho que não. Somos todos desiguais, únicos.

Estou sem sono, com preguiça e com um monte de tarefas domésticas a minha espera. Nessas horas eu queria ser a Jenny, aquela bruxinha que é um gênio. Sou apenas uma bruxinha.

Por essas e outras, viver sem um par no cotidiano não é tão ruim assim. Num cansaço desses, e com essa preguiça, eu dormiria de ladinho e, no máximo, diria: boa noite, meu amor.

Adicionar comentário Terça, 29 de Maio de 2007 às 23:51 Vera Pinheiro

Carro e intimidade

Vera Pinheiro
Preciso dar uma faxina no meu carrinho. Tem de tudo um pouco e acusa a necessidade de vasculhar os cantos, debaixo dos bancos e no bagageiro. Carrego um mundo ali! Não posso me arriscar a mandar passar um aspirador, tantas coisinhas precisam ser recolhidas. Outro dia perdi um brinco, depois um broche e achei tudo semanas depois, coisa desse jeito desinquieto de ser. Faz muito tempo que não dou uma geral no meu tapetinho mágico. Acho tão masculino limpar carro, mas me aventuro, fazer o quê? Fica lindo, mas não dura muito. Homem faz isso melhor. Pelo menos essa a minha impressão.

No semáforo sempre aceito propaganda que me entregam e vou juntando, às vezes, sem olhar. Respeito quem está trabalhando. Só hoje me ofereceram promoção de troca de óleo e filtro, dois planos de saúde, vários cursos de tecnologia, oferta de carros seminovos e massagem redutora mais drenagem linfática. Que eu lembre, só isso. Muitas pessoas nem olham para quem oferta esses papéis, mas não rejeito, embora me mantenha bastante atenta ao movimento de quem chega à minha janela.

Enquanto não abre o sinal verde, fico com um olho no carro ao lado, observando as pessoas. Faz tempo que não vejo alguém falando ao celular, que bom. É infração e risco. Alguns motoristas têm o semblante aborrecido; outros parecem cheios de fastio. As mulheres aproveitam para retocar o batom ou ajeitar o cabelo. Os homens sempre parecem concentrados, ao menos de manhã cedo. Eu olho para os cabelos deles. Alguns parecem que não tomaram banho e outros que passaram horas em frente do espelho. E sonho com meio expediente, tardes livres, noites para mim. Não lembro de ter trabalhado só meio turno na vida! Deve ser bom.

Tenho a sensação de que pessoas mal-educadas no trânsito são insuportáveis no convívio próximo. Há aqueles que ultrapassam sem dar seta, outros que dão seta para um lado e vão para o outro, os que viram de inopino uma esquina e os que entram na contramão esperando que ninguém veja. O que eles fazem no ambiente de trabalho?, me pergunto.

Educação é uma coisa que devia ser aplicada em qualquer ambiente e com todas as pessoas. Muita gente passa reto, não cumprimenta quem quer que seja. Há os que fazem no banheiro coletivo o que não fariam em casa, um lambuzo! Pessoalmente, detesto compartilhar esse ambiente com outros. É espantoso escovar os dentes na frente de pessoas que não conhecemos, passar fio dental diante do espelho sob olhares alheios, e do mais nem falo! Se pudesse, evitaria.

Quando viajo sinto saudade da família, dos meus bichos, e sinto muita falta do meu banheiro! Pode até ser maior, melhor, mais bonito, mas jamais encontro em outro o que tenho no meu: o conforto da minha privacidade.

A intimidade é como uma saia curta. Mostramos o que todos podem ver, mas reservamos o privilégio da visão completa a quem merece. Nem é questão de merecimento, no caso de banheiro, que, aliás, faz estragos enormes no romantismo. Não é coisa para compartilhar, a menos em situações criativas, digamos assim.

Adicionar comentário às 18:54 Vera Pinheiro

A língua

Vera Pinheiro
Às vezes, recebo uma infinidade de mensagens prontas, que não respondo. Gosto de bilhetes, de recados, aos quais gosto de dar resposta, embora nem sempre possa. Adio, mas respondo e, para isso, conto com a compreensão dos remetentes. Afinal, eu trabalho e a vida não está ganha! Só no intervalo ou no terceiro expediente compareço para cuidar do meu lado pessoal. Hoje recebi uma mensagem que testa a dicção, do tipo “o rato roeu a roupa do rei de Roma e a rainha resolveu remendar”. A língua trava! E como não fica com câimbra a língua que bate em discurso vago, tentando explicar o inexplicável?

Quando vim para Brasília, observei que por aqui as pessoas usam “você” e não “tu”. Pronome pessoal da 2ª pessoa do singular, “tu” soava estranho, mas nunca deixei de usar, fiel às minhas raízes dos pampas. Observei também que, por chamar atenção, era preciso conjugar os verbos corretamente. No Sul, a gente mistura tudo, na base do “tu foi, tu viu”. Além disso, comemos quase todos os “S” finais das palavras e carregamos no “R”. Atenta, procurei falar corretamente e acho mesmo que é minha obrigação, já que tive acesso aos estudos, e não foram poucos. Se aprendi, devo usar. Perdôo quem não sabe, mas não relevo quem sabe o que é correto e não faz.

No meu segundo dia de Brasília, em 1995, fui designada para fazer uma reportagem no Senado. Perdida (como sempre) pelos corredores, queria ir embora e não achava a porta. Perguntei o caminho, como até hoje faço se me perco. Com aquela cara de recém-chegada na capital da República, perguntei a um servidor:
- “Moço, por favor, se eu sair por esse corredor, aonde eu vou dar?”
- “Aonde a senhora quiser…”
Fiquei vermelha de um tanto que veio outra pessoa em meu socorro, mas nunca esqueci da história. E mudei a pergunta, claro.

De quebra, aprendi que a língua é outra por aqui. Nunca mais pedi “cacetinho” no balcão da padaria. Até lembrar que era “pão francês” eu já estava apontando “aquele ali”. Não pedi mais “azeite”, se queria óleo.

Ontem, uma amiga cutucava, a propósito de romance que anda no noticiário: “eita, como são ‘dadeiras’ essas jornalistas”. Pois é, mas a maioria trabalha e não ganha “de grátis” aluguel mais 12 mil e caco por mês. Ora, reconheçamos: aquela ralou pra cara…, digo, pra caramba! Ou vai dizer que ali não botou esforço?

Putz, nunca apareceu ninguém com um pacotinho mensal na minha porta… Não estou p(h)odendo, vai ver que é isso. Mas não posso me queixar, sempre tive bons empregos. Se tendo a me queixar, lembro de outra amiga, muito divertida, que está viva e forte para confirmar. Em tempos rudes, e eu em queixumes, ela dizia: “tu estás sentada em cima do dinheiro e não aproveitas”… Pois é. Quem me mandou estudar?

Nos pampas, 3 é três e 10 é dez. Não é “treis” nem “deiz”, como aqui. Quem botou esse “i” no meio? Não sei, mas levava uma vida para que as pessoas entendessem quando eu dizia o meu telefone que tinha, na época, justamente esses dois números: 3 e 8. Mudei. Precisei mudar ou ninguém entenderia, mas titubeio até hoje para falar “treis” e “deiz”. Está errado, pô! Mas o errado se impunha e precisei me adaptar.

Adaptar-se é uma necessidade para se conviver em paz com o meio. Mas há que se cultivar indignação com o que está errado ou acabaremos coniventes. E a conivência é irmã do pecado, diria minha mãe.

Não sou Nossa Senhora, mas ando cheia de graça… É que essa cidade é muito divertida, gente! E está cheia de piadas prontas.

Adicionar comentário às 14:34 Vera Pinheiro

Frio e fidelidade

Vera Pinheiro
Minha cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, figurou ontem no Jornal Nacional da Globo e não foi por causa da Romaria de Nossa Senhora da Medianeira (rogai por nós!). A previsão meteorológica falava da temperatura de lá: 1 grau negativo. Caramba! Espiei o jornal A Razão e hoje a cidade está em 2 graus positivos. Ai, que frrrriiiioooo!

Como passar alguns dias por lá sem tremer? Nem tenho roupa para me aventurar pelos pampas. Precisarei tirar a naftalina e a pimenta-do-reino (boa para afastar bichos) dos casacos de pele. Quando falo do frio dos pampas, o argumento em sentido contrário é que no RS, e especialmente nesta época, as mulheres são muito elegantes. Está bem, as roupas de inverno são lindas mesmo e as gaúchas também. Eu é que não gosto de andar apertada, com muita roupa. Fico agoniada, fazer o quê? Hoje já agradeci aos céus por morar em Brasília, onde trabalho de terninho (arg!) e manga cavada por baixo, que beleza. Esta cidade é uma bênção para mim! A minha pele se ressente um pouco com a secura, mas não mais do que reclama do frio. Nada que um bom creme não resolva. E eu adoro creme (hidratante)! Hoje estive no dermatologista.

Desde que estou aqui sou cliente dele. Curioso, como sou fiel! Vou sempre aos mesmos médicos, freqüento o mesmo salão há anos, cuido dos pés e das mãos com a mesma pessoa há tempos. Acho que é a confiança que mantém a fidelidade. Confio neles, por isso sou fiel.

Sou fiel a pessoas e ao meu trabalho. Se começo a falar mal, percebo que está na hora de partir - e quando não fiz isso, depois me arrependi. Mas não saio por aí com uma faixa dizendo: sou fiel. Até porque não sou corinthiana. O povo que torce pelo Corinthians é da Fiel e grita isso aos quatro ventos. Não é o caso.

Fidelidade é uma coisa interessante. O Aurélio a define assim: 1.Qualidade de fiel; lealdade. 2. Constância, firmeza, nas afeições, nos sentimentos; perseverança. 3. Observância rigorosa da verdade; exatidão.

Levando ao pé da letra, ninguém trai ninguém. Poderia estar com outra pessoa e, apesar disso, ter constância, firmeza, no que sente pelo (a) parceiro (a). Ou não? Fato é que alguns entregam só o corpo, mas não o coração. Outros, apenas dão palavras, mas não as emoções. Uns “ficam” com outros para escapar do frio da sua relação, mas voltam correndo para ela. E há os que amam e são fiéis porque simplesmente não sentem vontade de estar com outra pessoa que não seja a amada. Não são obrigados a isso, é uma fidelidade natural, sem cobranças.

Sou fiel ao meu dermatologista porque não há outro melhor que ele na sua especialidade. É isso que faz a fidelidade: determinada pessoa é a melhor de todas, nenhuma outra supre a nossa vontade e as nossas necessidades. Todos os outros são… apenas outros . “Os outros são os outros , e só…”, diz uma música.

Agora lembrei de uma situação que tem a ver com isso. É o tipo da coisa que a gente sopra por cima do ombro, ou seja, não dá a menor atenção. Tanto foi assim que esqueci de comentar com minha filha, isso é a medida da importância. Outro dia, faz tempinho, uma desorientada se deu ao trabalho de copiar parte de um texto meu e mandar para meu namorado com aviso de cuidado comigo pelo que escrevo. Ah, meus sais. Dormi como uma santa, não perdi o sono (que me faz economizar consultas) por conta disso. Nem ele, claro. Mas pensei: quem tem tempo para se ocupar da vida alheia a esse ponto? Meus escritos vão causar ciúme? Ah, que preguiça.

Enquanto isso, tenho me divertido pensando as palavras. Frio, por exemplo. Trocando as letras vira “firo”. Palavras ferem, eu também firo.

Desorientada mesmo sou eu! O prédio onde fui me consultar tem seis entradas. Nunca sei por qual porta entrei, e vou lá há anos. Aliás, Brasília tem muito disso. Lados iguais pra lá e pra cá. Eu, que sou uma mulher “perdida” – já fiz uma crônica com esse título – não preciso de muito para errar a saída. Outro dia procurei o meu carro de um lado, depois do outro, e voltei ao primeiro… com aquela cara de “ai, não sei onde deixei, e agora?”, e apertando o controle remoto com enorme esperança de obter resposta. O segurança do prédio, observando a minha procura em círculos, ofereceu-se para ajudar. Acheeeeei! Agora só estaciono na garagem. O probleminha é que fico dando voltas até achar a saída. Mas eu sei que tem uma e isso me acalma. Como na vida, a gente sabe que sempre tem uma saída para qualquer dificuldade, basta encontrá-la ou pedir ajuda.

Detalhe sobre frio e fidelidade: comentei o clima de Santa Maria com uma amiga minha e ela, pensativa, perguntou: “no Rio Grande do Sul as pessoas fazem sexo no inverno?”. “Não sei, não lembro mais”, respondi entre risos. Mas vou lá para saber.

Adicionar comentário às 12:18 Vera Pinheiro

Calorias

Vera Pinheiro
Não sei de quem é a frase que recebi e repasso para o conforto de todas as pessoas que vivem às turras com a balança.

“Calorias são pequenos animais que vivem dentro dos armários e apertam nossas roupas durante a noite”…

Que bonitinho…

Mas (sempre há um “mas”, estamos cansados de saber), é bom ficarmos de olho nas calorias para a segurança da nossa saúde. “Não é só de fome que se morre”, dizia minha mãe. Prazer em doses altas sempre acaba em erro. Comer um pouquinho de tudo parece-me saudável (embora eu arrebente num pudim de leite, de vez em quando).

Nunca pensei que um dia dissesse isso, mas lá vai: sejamos equilibrados! Sejamos equilibrados em tudo o que fizermos, ao menos para conquistarmos o direito de cometer algum excesso, quando tivermos vontade.

Adicionar comentário Segunda, 28 de Maio de 2007 às 14:43 Vera Pinheiro

É uma lerda…

Vera Pinheiro
Ninguém mais nasce com cabelos crespos nesta terra?! A pergunta, que não queria calar, era a que eu fazia durante o almoço num restaurante. Fui sozinha, coisa que hoje faz parte da rotina e que, antes de me acostumar com isso, me incomodava muito. Agora, pelo contrário, aproveito para pensar e para olhar em volta. As mulheres andam vestidas como num exército que poderia ser de saias, mas é de terninho. Detesto terninhos, mas também uso. Depois que incorporei a idéia de que é apenas um uniforme, relaxei. De segunda a quinta, visto terninhos. Sexta-feira é “casual day”, posso usar outra roupa, embora isso nem sempre seja possível, o que me faz voltar ao “uniforme” no último dia de serviço da semana.

Os cabelos das mulheres andam uniformizados ou me engano? Todas à minha volta com madeixas lisas e eu, na contramão, com meus cachinhos dourados. Será que a “chapinha” e a escova tomaram as cabeças das mulheres desse jeito ou ninguém mais tem cabelos encaracolados, crespos? Será que imperou nas cabeleiras a idéia de que, numa situação difícil, dizem que ela “está crespa” e por isso todo mundo usa fios espichados? Não sei. Mas, que seja, não tenho nada com isso. Cada pessoa faz por si o que achar melhor. Comer devagar, por exemplo, como faço.

Fico admirada de ver colegas minhas que vão e voltam do almoço em 15 minutos, mas não as invejo. Meia hora para mim é pouco, e isso não é de hoje. Desde pequena sou lerda para comer. Isso tirava a paciência da minha irmã mais velha, comadre minha duas vezes. Ela dizia (não sei se ainda diz) que eu era muito lerda à mesa e que lhe dava gastura ver-me comer tão devagar. A impressão dela era a de que eu não gostava do que me servia em sua casa, onde, aliás, há o pudim de leite mais maravilhoso que conheço, até porque é feito especialmente para mim, quando a visito.

Comer devagar tem lá suas vantagens. Sempre lembro da recomendação de que é preciso esperar 20 minutos para o cérebro receber a mensagem de que o estômago está satisfeito. Como devagar e, com o tempo, aprendi a “comer pelas beiradas”, a não ser tão frontal com os outros, especialmente aqueles que desafiam a minha calma, e alguns fazem isso.

Será que acontece só comigo? Às vezes, estou “de boa” e alguém cutuca para me tirar do prumo. É aí que eu dou ainda mais valor aos meus cabelos encaracolados. Fico torcendo uma mecha até que a raiva passe. E passa!!!

Adicionar comentário às 14:13 Vera Pinheiro

Velhinha, eu?

Vera Pinheiro
Sempre me perguntei se saberia quando a velhice chegasse. Ainda não sei se ela bate, gentilmente, à porta e pede para entrar, se anuncia que virá em data próxima, ou se decide instalar-se, na maior sem-cerimônia, e não envia nenhum aviso prévio.

Acho tão esquisitas as críticas contra quem apela para métodos de rejuvenescimento. O argumento é que as pessoas tentam retardar o processo de envelhecimento. Como assim, retardar? Não temos domínio sobre o tempo e nada o detém, não importa o número de cirurgias plásticas ou os litros de botox injetado na face ao longo dos anos. No máximo, o que muda é a aparência da velhice, que fica um tanto melhor, mas ninguém se engane que, tendo 50, parecerá ter 20; ou tendo 70, enganará que tem 40. As pessoas ficam apenas mais bonitas na aparência, mas ainda assim terão a idade que têm. E para que enganar os outros sobre a idade? Enganar quem, aliás? Alguns é que são gentis demais e, por isso, fazem o outro crer que os enganou. Que bobagem esconder a idade. Esconder? De quem? Por que esconder que viveu?

O que faz diferença, de verdade, é o tipo de vida que a pessoa leva. Isso, sim, muda para mais ou para menos a aparência da idade. Gente mal-humorada, por exemplo, parece 10 anos mais velha! Pessoas infelizes carregam anos a mais nas costas! Quem se cuida bem, come saudavelmente, exercita-se com regularidade, diverte-se, ama, está saudável, é amado, tem amigos, curte família, gosta do que faz, geralmente tem aparência boa! A propósito, a felicidade muda mais a aparência da pessoa do que muito creme de marca ou roupa de grife. Porque a felicidade vem de dentro para fora e tem autenticidade. Não dá para fingir felicidade nem se pode escondê-la. Tristeza, sim. Podemos guardá-la num cantinho até que passe, pode ser disfarçada de bem-estar até que seja resolvida.

É importante que estejamos com boa saúde, equilibrados emocionalmente, com a mente produtiva, para envelhecermos bem, coisa que – não é novidade – começa quando nascemos. Aos 30, já devíamos ter ficha num geriatra. E é pra lá que eu vou. Já estou com 51 anos e nunca me consultei com um especialista dessa área, que atraso! Parece que posso ver a surpresa de algumas pessoas: geriatra?! Claro que sim. Já comecei a agendar consultas com ginecologista, dentista, oftalmologista, cardiologista, toda a lista de profissionais da medicina, pois quando se ganha idade, não é possível visitar apenas o dermatologista. Uma carinha lisa não faz o menor efeito num corpo detonado. Portanto, mãos à obra!

Putz, nunca pensei que um simples fio de linha que não quis entrar na agulha, hoje cedo, me fizesse pensar na velhice. Apelei para a minha filha que, num segundo, fez a obra e, então, pude pregar o botão frouxo do meu casaco. Poderia ter trocado de casaco, esquecido isso. Mas não é do meu feitio. Eu só queria saber se ainda sou Verinha ou se estou velhinha…

1 comentário às 12:32 Vera Pinheiro

Do que sei e do que não sei

Vera Pinheiro
Ai, que dor de cabeça… vou escrever para ver se passa. Palavras guardadas dão dor de cabeça, porque não saem da gente. Ficam latejando e doem. Palavras que não são ditas doem. Se são boas, porque frustra não dizê-las. Se não são, por terem sido sufocadas. E doem.

Não, a dor de cabeça não é ressaca. Talvez apenas ressaca do meu mar interno, que fustiga palavras que não foram ditas. Levo uma vida quase monástica do ponto de vista das farras. Não me fazem falta, tenho outros prazeres. Os meus embalos de sábado à noite são como eu gosto, não para atender expectativas alheias. Aliás, para isso existem os fins de semana: para serem nossos.

Dormir, por exemplo, é um prazer que reencontrei. Mas nem sempre posso ou quero me entregar a horas extras de bom sono. Esta noite dormi tarde demais para os meus hábitos atuais e acordei no mesmo horário em que acordo nos dias de semana. Horas de bom sono fazem milagre pelo nosso bem-estar.

A rotina de domingo é mais lenta. Coloquei a mesa para o meu café e me pus apensar. Eu coloco a mesa para meu café mesmo quando estou sozinha. Detesto comer em pé ou apressada. “Quem come em pé não alcança o que quer…”. Por que minha mãe sempre falava isso? Acho que é porque quem corre não chega a lugar algum. Sinto saudade dela, quero revê-la. Os dias de domingo acentuam a saudade. No domingo sinto mais falta de família à volta. Ainda bem que tenho amigos que emprestam essa convivência boa e não me importo com os anexos, a parte nem tanto.

Tomava café e olhava a paisagem, ouvindo o canto dos pássaros e o barulho da máquina de lavar roupa. Elas é barulhenta mesmo ou o silêncio daqui é que me faz ouvi-la? Não sei se a minha máquina sempre fez barulho ou se eu não tinha ouvido. Às vezes, acontece. A gente simplesmente não ouve, seja um barulho ou uma palavra que o outro diz. Só quando há silêncio nós ouvimos. No burburinho, todas as palavras se confundem. Ou não são ouvidas. Daí, o valor do silêncio. A gente silencia para poder ouvir. E silencia para ser ouvida. Ou fala para não deixar que o outro fale. Ou se cala para não aumentar o risco de desencontro. E o que não é dito… dói. Ou estoura em dor de cabeça.

Pensava também na minha crônica deste fim de semana sobre pagar micos e no quanto aprendi a conviver com meus erros. A partir do momento em que deixei a vaidade de lado, eu me soube capaz de errar, de me equivocar, de não saber tudo, de não ter todas as respostas. Eu me permiti não sofrer por ser apenas humana, embora a porção divina que existe em mim e em todos os seres sobre a terra.

Antigamente (e é um passado recente), me escabelava se a vida não fosse tão exata quanto uma soma matemática simples. Não gosto de matemática como não gosto de qualquer tipo de rispidez, pensada ou involuntária. E detesto que me cobrem saber o que ainda não sei, porque me encanta querer aprender e saber mais. Algumas coisas não sei, não compreendo ou ainda não aprendi. Tenho, porém, a inquietude que me conduz ao aprendizado. E há coisas que não farão muita diferença saber. Há, ainda, coisas que não vou aprender, por mais que tente, e há as que não quero, e me permito essa ignorância.

Outras coisas não aprendo por medo, como trocar lâmpadas. Ou por me faltar jeito, como troca de pneu. Acho que não é questão de força, mas de jeito mesmo e me permito não ser talhada para certo tipo de conhecimento. Como o relativo a computadores, no que salta a minha imperícia. E há outras coisas que apenas esqueci de saber como se faz por ter deixado de fazer, e o tempo desgastou a minha aptidão.

Olhos alheios podem criticar, não entender ou se surpreender. As pessoas são exigentes demais com o potencial que temos e impingem obrigação, que não temos, de saber tudo o que elas querem que saibamos e se admiram se dizemos: não sei. Ou se dizemos: sabia, mas esqueci. Tudo o que sabemos se revigora com o exercício, com a prática. Se não praticamos, o conhecimento fica guardado e não aflora de pronto. E vem a cobrança. E vem dor de cabeça. Aliás, que bom: a minha passou! Não por remédio, mas pelo prazer. O prazer espanta dor de cabeça, faz a vida melhor. Por isso, em alguns momentos, adio o aprendizado de qualquer coisa que ainda não sei para me dedicar ao prazer, e isso abre espaço para apenas viver feliz, sem compromisso com os outros e sem muitas expectativas a meu próprio respeito.

Adicionar comentário Domingo, 27 de Maio de 2007 às 11:30 Vera Pinheiro

Festa no coração

Vera Pinheiro
Este fim de semana é de festa no coração! Celebro, lotada de contentamento, as datas de nascimento de duas pessoas muito queridas: Nane (Djinane Silva) e Cirilo Braga. Ela é a sacerdotisa que conduz o grupo de estudos da Religião da Deusa do qual participo. É uma mulher bela, iluminada, muito sábia e que me leva a fazer descobertas cada vez mais profundas no caminho do Sagrado Feminino. Dedica-se ao nosso grupo, chamado “Arco-Íris Mágico”, com o seu coração inteiro, orienta com firmeza, conhecimento e amor e é, definitivamente, uma luz na minha vida. Ele é jornalista, tem a minha sincera admiração e está entre as pessoas que estimo muito. Leu criticamente os originais do meu primeiro livro e escreveu, com sua sensibilidade, a apresentação do “Parto de mim”, tornando-se meu grande amigo, mesmo morando longe, na cidade de São Carlos, SP. Nane, como eu, mora em Brasília, e ambos estão no meu coração.

Amigos são presentes do Poder Divino. A vida é mais bonita porque existem pessoas como Nane e Cirilo. Gosto de dizer do meu afeto pelas pessoas de forma ampla, explicitamente. É bom saber que gostam de nós e eu não economizo demonstrações de carinho porque também gosto disso. A amizade com homens e mulheres permite conhecer um pouco mais sobre esses dois universos tão ricos e diferentes, que tanto somam ao nosso aprendizado. Nane e Cirilo acresceram valor à minha vida quando nela ingressaram e me alegra muito que permaneçam. Eles são pessoas a quem confirmo a cada dia os laços de carinho e a quem desejo a maior felicidade não apenas quando fazem aniversário, mas sempre, para sempre, terna e eternamente, em todos os aspectos da existência.

Cirilo tem mais uma razão para comemorar neste fim de semana: o aniversário de um de seus filhos, Thales, na mesma data. Cronista inspirado, é autor de belíssima crônica que fala sobre a emoção vivida há 20 anos, exatamente no dia do aniversário dele. Originalmente, a crônica foi escrita em 1987, ano em que Thales nasceu. Nesta semana, foi reproduzida na coluna que assina em jornal de sua cidade. Quem é pai sabe dessas emoções que ele confessa na crônica abaixo.

Três Corações
Cirilo Braga

De mansinho vais chegando como o sol da manhã faz raiar o dia. Os movimentos na barriga da mãe mostram tua presença palpável. Não sei se querendo protestar ou ficar por aí mesmo.

Eu, aqui de fora, penso em mil coisas e até me julgo no direito de bolar o teu nome. O teu nome agora é tu simplesmente, porque um nome não se dá; se faz. Eu, aqui de fora, sou só imaginação e até me julgo no direito de sonhar com o teu rosto. O teu rosto é uma imagem que Deus dá à tua alma. E uma imagem não se ganha, se constrói.

Pai! Esta palavra sempre me deu a idéia de uma coisa forte, de um pilar que sustenta e ampara. Mas eu, com minhas tantas e tantas inseguranças, sou muito pouco e pequeno diante da grandeza dessa simples palavrinha de três letras que, eu penso, deverá ser uma das primeiras que teus lábios se moverão para pronunciar. E aí então acho que vou pedir para o outro pai, o pai do céu e dono da vida, que me ajude a ensinar-te os caminhos do bem e da verdade.

Ensinar-te, por exemplo, que o mais simples é o mais importante; que mais vale a pena ser do que ter. E que é preciso não acreditar na Rede Globo, que é preciso não temer a morte, é preciso não se deixar manipular, que é preciso não querer provar nada a ninguém. Assim tu serás como és. Mas tudo isso é muito penoso, irás ver, num mundo onde cada vez mais as pessoas são menos elas mesmas.

Eu não tenho capacidade de saber de que mundo tu vens e sequer de que outras vidas. Mas confesso que foi emocionante te ver na telinha do aparelho de ultrassom, dia desses. E ouvir o coração que bate acelerado, feito alguém que revê depois de muito tempo o grande amor de sua vida. Calma! Nossos três corações vão ter muito que pular doidos anos a fio.

Quando tu vieres não saberás quando é dia ou quando é noite. Crescendo, entretanto, aprenderás que depois de toda noite há um dia, depois de toda chuva um sol com arco-íris e depois de toda lágrima um sorriso. E tu és o meu dia, o meu sol, o meu arco-íris e o meu sorriso já. Que venhas correndo e depressa. Nunca nove meses pareceram tão longos, intermináveis. Será que o tempo parou?

Têm sido dias até de angústia. Embora eu tenha convicção de que aí onde você está é um ótimo lugar. Tua mãe está bonita te esperando. E tu estás em paz, sossegado, feliz. Acho que é por isso que todo mundo vive procurando paz, sossego, felicidade. Essas sensações são, afinal, sentidas ainda no ventre da mãe. Porque as pessoas nunca buscam o que nunca experimentaram e nem sentem saudade do que nunca viram.

Tu vens chegando e me trazes mil reflexões, me deixas místico como nenhum templo ou estátua de gesso consegue deixar. Existir é um milagre. Nem com mil máquinas o homem um dia vai conseguir dar vida ao que for. Vida, calor, emoção. Jamais criará alguém que chore e que ria como tu farás quando vieres à luz e depois muitas outras vezes, feito eu. Isso é vida. Chorar e rir, se emocionar e sentir. Esse é o grande milagre, que foge ao domínio do que é terreno e não vence o que é divino. Como é divina a sensação de te sentir a caminho e de poder, logo-logo chamar-te: Meu filho!

Adicionar comentário às 01:27 Vera Pinheiro

Micos…

Vera Pinheiro
Feliz dia! A manhã deste sábado está linda! Ensolarada, embora um pouco fria para meu gosto, coisa de 17 graus. Mas estou de camiseta de manga curta, que beleza! Não posso saber do frio que faz no Sul que me arrepio toda! Detesto andar apertada, com muita roupa. Isso me sufoca! Gosto de movimentos livres! Por isso, passava frio nos pampas e mais ainda agora, quando vou lá no inverno (ei, o inverno nem começou!), acostumada com o clima ameno de Brasília (menos na política, que sempre é muuuuuito quente!).

Também não gosto de dormir com muita coberta, mas é inevitável nessa época. Um lençolzinho sobre o corpo é gostoso, basta. Cobertor? Só “de orelha”. Os outros me dão alergia e não adianta ser anti-alérgico. Olhar para o cobertor é suficiente! Para partilhar a cama, portanto, tem de haver consenso quanto isso (e muito mais), senão não dá certo. Falo sobre isso em outro momento.

Hoje quero compartilhar um mico que paguei recentemente. Está acima, neste blog, no espaço “Crônica da semana” e na edição de fim de semana do jornal A Razão, de Santa Maria, RS, caderno de cultura. Aprendi a rir dos meus micos, mas nem sempre foi assim. Um pouco disso está em “Micos e lições“.

Adicionar comentário Sábado, 26 de Maio de 2007 às 10:32 Vera Pinheiro

Bergamota ao sol

Vera Pinheiro
Até onde o olhar alcança, o céu de Brasília é azul, mais belo do que sempre. Dizem que um céu assim é a recompensa por não ter não mar por perto. Quem precisa de um se a cabeça está sempre encoberta desse intenso azul?

Faz frio, reclamo. Como, sendo gaúcha? Gaúcha e da melhor cepa, sem modéstia, mas covarde uma barbaridade para qualquer temperatura abaixo de 15 graus, que já é muito frio para mim, confesso.

Quando vim para esta terra, ouvia muitas reclamações sobre o clima: é seco! Era o que eu precisava: sair da umidade, que me acentua as alergias. Curioso esse “r” no meio da palavra alergia, observa! Muda um “r” e está transformado em… alegria. Uma pequena mudança, um pulo do “r” sobre a letra “g” e pronto! Muda o humor da palavra.

Adoro o clima de Brasília! Não, não é o clima político. Com esse também convivo, mas falo da temperatura, da umidade (ou a falta dela), enfim, das condições meteorológicas desta cidade em que moro há 12 anos e pela qual tenho amor (e quando amo não gosto que falem mal…).

Moro num lugar que, quando faz frio, me lembra o Rio Grande do Sul, especialmente pela manhã, quando é cedinho. Bate uma saudade quando vejo os pinheirais surgindo das brumas da paisagem… E aquele sol morninho, com cara de feliz, acordando a manhã, me lembra algumas décadas atrás de hoje. Era menina e gostava de comer bergamota, que aqui chamam de mexerica, lagarteando ao sol.

Sol e bergamota, há muito tempo não junto esses dois prazeres… Mas hoje é sexta, dia de poder aquilo que, sob a chibata da rotina, não fazemos. Eu te empresto o sol da minha Brasília e tu descascas a bergamota, aceitas? Isso é ser folgada, sei. Pois é, como sabemos, o tempo e a vida mudam a gente, mas certos detalhes são nossos desde sempre e nunca vão embora. Adoro bergamota, especialmente se ela vem acompanhada de alguém para descascar. Vem…

Adicionar comentário Sexta, 25 de Maio de 2007 às 12:10 Vera Pinheiro

Biblioteca virtual sobre corrupção

Está disponível a Biblioteca Virtual sobre Corrupção (BVC) construída pela Controladoria-Geral da União (CGU) em parceria com o Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crimes (UNODC). A iniciativa tem por finalidade promover a pesquisa e a divulgação de informações sobre corrupção e assuntos ligados ao tema. Outra meta do banco de dados virtual é a de estimular o controle social e o exercício da cidadania por meio da difusão do conhecimento.

Lançada com um acervo de cerca de 500 documentos entre artigos, teses, notícias, eventos, apresentações e estudos científicos relacionados ao tema, a biblioteca inclui, ainda, textos de organismos internacionais. O enfoque do conteúdo, atualizado diariamente, é o da prevenção como estratégia de combate à corrupção.

O conjunto de obras é de domínio público ou obteve prévia autorização dos proprietários dos direitos autorais. E, embora o acesso seja livre e gratuito, não é permitido o uso, direto ou indireto, das publicações para fins comerciais ou que violem os direitos autorais. Nos últimos 15 dias, quase 900 usuários acessaram o portal e navegaram por mais de seis mil documentos. A Biblioteca Virtual está disponível no endereço http://bvc.cgu.gov.br.

A criação e manutenção da biblioteca virtual é uma das ações da Secretaria de Prevenção da Corrupção e Informações Estratégicas (SPCI), órgão da Controladoria-Geral da União. Ainda com o foco nos assuntos relacionados ao combate à corrupção no país, a SPCI desenvolve também convênios com universidades, parcerias com organizações da sociedade civil e a publicação da Revista da CGU.

A biblioteca também é aberta a contribuições de pesquisadores e interessados no assunto. Artigos, pesquisas, relatórios, monografias, dissertações, teses e outros materiais devem ser encaminhados para o endereço eletrônico bvc@cgu.gov.br, que serão apreciados pelo conselho editorial da biblioteca antes da disponibilização ao público. Caso o documento não seja de domínio público, deve ser enviado o Termo de Autorização (preenchido e assinado). O material será analisado e examinado por critérios que permitam dar ao usuário a confiabilidade do conteúdo publicado na biblioteca.

Alguns dos temas de interesse constantes do acervo da biblioteca são: abuso de poder, conflito de interesse, controle social, desvio de recursos públicos, direito administrativo disciplinar, enriquecimento ilícito, ética, fortalecimento da gestão, fraude, gestão de recursos públicos, governança, improbidade administrativa, integridade, lavagem de dinheiro, nepotismo, ouvidoria, técnicas de auditoria, tráfico de influência e transparência pública.

Fonte: Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República

Adicionar comentário às 12:10 Vera Pinheiro

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