A língua Já?!

Carro e intimidade

Terça, 29 de Maio de 2007 às 18:54 Vera Pinheiro  | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 532

Vera Pinheiro
Preciso dar uma faxina no meu carrinho. Tem de tudo um pouco e acusa a necessidade de vasculhar os cantos, debaixo dos bancos e no bagageiro. Carrego um mundo ali! Não posso me arriscar a mandar passar um aspirador, tantas coisinhas precisam ser recolhidas. Outro dia perdi um brinco, depois um broche e achei tudo semanas depois, coisa desse jeito desinquieto de ser. Faz muito tempo que não dou uma geral no meu tapetinho mágico. Acho tão masculino limpar carro, mas me aventuro, fazer o quê? Fica lindo, mas não dura muito. Homem faz isso melhor. Pelo menos essa a minha impressão.

No semáforo sempre aceito propaganda que me entregam e vou juntando, às vezes, sem olhar. Respeito quem está trabalhando. Só hoje me ofereceram promoção de troca de óleo e filtro, dois planos de saúde, vários cursos de tecnologia, oferta de carros seminovos e massagem redutora mais drenagem linfática. Que eu lembre, só isso. Muitas pessoas nem olham para quem oferta esses papéis, mas não rejeito, embora me mantenha bastante atenta ao movimento de quem chega à minha janela.

Enquanto não abre o sinal verde, fico com um olho no carro ao lado, observando as pessoas. Faz tempo que não vejo alguém falando ao celular, que bom. É infração e risco. Alguns motoristas têm o semblante aborrecido; outros parecem cheios de fastio. As mulheres aproveitam para retocar o batom ou ajeitar o cabelo. Os homens sempre parecem concentrados, ao menos de manhã cedo. Eu olho para os cabelos deles. Alguns parecem que não tomaram banho e outros que passaram horas em frente do espelho. E sonho com meio expediente, tardes livres, noites para mim. Não lembro de ter trabalhado só meio turno na vida! Deve ser bom.

Tenho a sensação de que pessoas mal-educadas no trânsito são insuportáveis no convívio próximo. Há aqueles que ultrapassam sem dar seta, outros que dão seta para um lado e vão para o outro, os que viram de inopino uma esquina e os que entram na contramão esperando que ninguém veja. O que eles fazem no ambiente de trabalho?, me pergunto.

Educação é uma coisa que devia ser aplicada em qualquer ambiente e com todas as pessoas. Muita gente passa reto, não cumprimenta quem quer que seja. Há os que fazem no banheiro coletivo o que não fariam em casa, um lambuzo! Pessoalmente, detesto compartilhar esse ambiente com outros. É espantoso escovar os dentes na frente de pessoas que não conhecemos, passar fio dental diante do espelho sob olhares alheios, e do mais nem falo! Se pudesse, evitaria.

Quando viajo sinto saudade da família, dos meus bichos, e sinto muita falta do meu banheiro! Pode até ser maior, melhor, mais bonito, mas jamais encontro em outro o que tenho no meu: o conforto da minha privacidade.

A intimidade é como uma saia curta. Mostramos o que todos podem ver, mas reservamos o privilégio da visão completa a quem merece. Nem é questão de merecimento, no caso de banheiro, que, aliás, faz estragos enormes no romantismo. Não é coisa para compartilhar, a menos em situações criativas, digamos assim.

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