Velho, idoso e antigo
Vera Pinheiro
Gosto de novidades, de muita coisa nova. Não tenho ranço contra a modernidade, pelo contrário, me beneficio dela, me reciclo e aprendo com ela. O que é novo me treina a capacidade de enfrentar desafios e me instiga a ânsia de conhecimento. Mas, devo confessar, tenho paixão pelo que é velho, idoso e antigo. Sabes aquele sapatinho que chora se a gente não usar? Pois é. Tão confortável, tão entrosado com os calos, até assume o moldelito do pé. Pé e sapato tornam-se uma coisa só! E aquele casaquinho que atravessa invernos conosco e que parece querer grudar-se ao corpo sempre que faz frio?
Imagens antigas tocam a minha sensibilidade. Fotos antigas, que maravilha! Guardo-as todas e adoro revê-las. Certa vez, na Expo Tchê, eu e meus filhos nos aventuramos numa foto produzida em preto e branco, com ambientação em outro século. Vestimos trajes de época e fizemos pose para o retrato. O resultado foi bem interessante. Apenas não gostei da minha cara séria, mas uma senhora daqueles tempos não se abria em risos como faço. Tinha comportamento mais pudico. Aí, me pego pensando o que dirão meus netos de mim, daqui a uns 30 anos, quando eu for uma velha senhora.
Daqui a 30 anos, terei 81. Serei idosa. Gosto muito de idosos, acho-os cheios de encanto e de beleza. São templos de sabedoria e vivência nem sempre reconhecidos, nem sempre respeitados. Acho que já sei como será a minha cara aos 81: sorridente, porque isso ninguém me tira! Ficaria feliz se fosse uma versão feminina de Ariano Suassuna. Que homem lindo! A idade, o humor, a sagacidade, os cabelos brancos que adornam aquela cabeça fantástica, tudo faz dele um homem belo. Adoro entrevistas dele, me comovo!
Envelhecemos à medida que o tempo passa. Ou nós passamos pelo tempo? Quanto mais vivemos, mais lembranças se acumulam. Que bom isso! Guardo lembranças não para viver de passado, mas para a certeza de que vivi. Há lembranças antigas que me trazem saudade e há lembranças recentes que jamais serão apagadas. Uma delas vivi nesta semana e conto na minha crônica do próximo final de semana. Escrevi “Meus velhos”. Falo do que é velho, idoso e antigo. E de envelhecer, algo que acho muito bonito.
A crônica estará neste blog (no espaço “Crônica da semana”, aí acima) e será publicada no jornal A Razão, de Santa Maria (RS), para onde me transportei em pensamento nesta semana. Faço isso sempre que vivo um momento feliz. Longe, mas sem perder vínculo com as minhas raízes.
Adicionar comentário Quinta, 14 de Junho de 2007 às 09:56 Vera Pinheiro