Arquivo de Julho de 2007
Vera Pinheiro
Feliz Natal! Próspero Ano Novo! Já dá para ensaiar as saudações de final de ano, porque julho acabou e daqui até dezembro (mês do meu aniversário, não esquece!) é um pulinho! Céus, eu não fiz muito do que gostaria e precisaria ter feito até aqui! “O tempo passa, o tempo voa…” e a gente cuida para que a vida ande “numa boa”.
Manhã fria, sol brilhante! Pagamento na conta! Férias chegando! Dá para reclamar? Essas férias serão de organizar coisas na minha casa, no meu computador, na minha vida. Não era bem o que eu queria, mas é o que preciso fazer. Às vezes, faço o que gosto; de outras, o que é necessário. Espero o namorado chegar. É bom namorar por temporada se a gente tem mais trabalho do que tempo livre. É meio complicado encaixar na rotina um tempo para namorar quando se passou boa parte da vida sozinha, por isso namoro de temporada é uma boa solução. E é um tempo de economizar na conta telefônica, que tem mais dígitos do que eu gostaria. Mas, enfim, tudo pelo prazer!
Minha geladeira está dando eco! Não fiz compras no período em que fiquei sozinha e os mantimentos estão acabando. Por isso, mantenho os sentimentos bons em estoque: para tê-los em abundância! Fazer compras em supermercado nunca foi o meu programa preferido, por isso, minha filha me auxilia nessa tarefa. E quando os supermercados resolvem mudar as coisas de lugar? Eu fico perdida, andando em círculos! Demoro mais do que seria razoável para uma boa dona de casa. Das filas, o que aprecio é ouvir as conversas das pessoas, observar os tipos humanos, o comportamento deles. Os homens me parecem tão pacientes nos supermercados… uma belezinha! Taí um momento em que me bate inveja de quem está acompanhada! Tanto para pagar a conta, que sempre me surpreende, como para empurrar o carrinho, especialmente se as rodinhas trancam. Os homens ficam lindos empurrando carrinho de compras… e pagando conta no supermercado!
Ontem, passei num deles para um abastecimento do básico e urgente para a minha cozinha. Entrei correndo e saí voando, como geralmente faço, estando sozinha. Na entrada, à porta, uma caixa enorme para recolher doações para uma campanha do agasalho. Sempre me pergunto: por que fazem campanha do agasalho no inverno? Demora para recolher donativos e distribuí-los à população carente. Por que não fazem campanha do agasalho no final da estação, antes que a gente guarde os abrigos de inverno? Será que ninguém pensa nisso?
Seria tão mais fácil separar roupas de inverno para doação antes de lavá-las e guardá-las de novo no armário. No início do tempo frio, a gente acha que pode precisar de tudo o que se tem, então não doa nada! No fim do inverno, queremos nos livrar de algumas peças, mas onde encontrar uma campanha de agasalho em atividade? As roupas quentes acabam voltando, outra vez, para o armário. Então, aquilo que não nos fará falta ficará guardado a espera do próximo inverno. Acho que poderíamos cultivar o espírito da formiguinha, que se previne para os tempos rudes, enquanto a cigarra canta.
Nesse tempo de férias, vou fazer algumas baixas no meu armário. Para que tanta roupa, se uso quase sempre as mesmas? As peças guardadas e sem uso há tempos só servem para estagnar energia. E para que tantos sapatos, não sendo eu uma centopéia? O guarda-roupa lotado só atrapalha quando procuro o que vestir, às pressas, na hora de sair. Feng Shui no armário, urgente! Programa de férias!
Também pretendo me livrar de alguns sentimentos que atravancam a livre circulação das minhas emoções. Algumas lembranças podem ser jogadas no esquecimento; outras, não. Algumas caixas de recordações devem encontrar o caminho do lixo; outras, não. Saber o que importa e o que precisa ser liberado é um desafio. A gente se apega demais a algumas coisas inúteis, pessoas que já foram embora, momentos que nunca mais se repetirão. Talvez, no fundo do coração, esperamos que ressurjam. Ter consciência de que ilusão não abastece a vida e manter o que ainda tem vida e é real desocupam espaço para que vivamos o mais que nos espera. O desapego do passado é bastante difícil, mas é o que liberta nossas asas para outros vôos em busca do que nos faz feliz.
Terça, 31 de Julho de 2007 às 09:01
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Preciso consertar o meu sono. Baguncei o relógio interno com a sesta de ontem à tarde. Dormi fora de hora mais do que o corpo está acostumado, fui para a cama tarde demais, acordei cedo demais, e estou como o dia, hoje, em Brasília: nublada! Por que não faço sesta apenas no sábado em vez de dormir de tarde quando é domingo? Assim, teria tempo de me recuperar no dia seguinte. Com o sono bagunçado, vou chegar no trabalho com olheiras até as bochechas e com cara de farra, sem ter feito uma! Daqui a dois dias entrarei de férias, ufa! É bom dividir as férias em dois períodos. Quando chega a metade do ano a gente já está cansada e precisa de um pit stop para se abastecer de energia.
Hoje cedo eu cuidava das flores e folhagens e pensava nos relacionamentos. As plantinhas se ressentem se não cuidamos delas, perdem o viço. Não cuidamos muito bem dos laços que nos unem às pessoas. Pensamos que eles se sustentam sem cuidado, que são fortes e grandes o bastante para sobreviverem a silêncios e descuidos. Acho que não é assim. Se esquecemos de cultivar pessoas, um dia elas vão silenciar. A amizade distante que apreciamos, mas jamais lembramos de estar com ela, seja por um gesto, uma mensagem, um carinho virtual, que seja, um dia esmorecerá. Pode não acabar, mas enfraquece e se torna protocolar, apenas. Em casa, entre pais e filhos, marido e mulher, entre namorados, há que se cultivar afeto, nutri-lo, renová-lo. Dizer espontaneamente que ama, que gosta bastante, que a outra pessoa importa.
Às vezes, ficamos apenas a espera da demonstração de carinho que vem do outro. Temos a dificuldade do primeiro passo. Se zangados, não sabemos voltar atrás, e tornamos o rancor maior do que o amor. Pensamos mais nas brigas do que nas boas razões para estar com a outra pessoa. Ocupamos mais espaço no coração com lembranças tristes do que com o perdão. O coração devia ter o peso de uma pluma, não de aço. Flutuaríamos sobre as lembranças amargas, não as teríamos sempre presentes, dificultando a caminhada sobre o mundo e atrapalhando as nossas relações. Devíamos ser como os bichos, que não têm memória de amarguras. Devíamos apenas saber as lições, mas sem guardar ressentimentos. Não devíamos ter vergonha de perdoar, nem medo. A vida seria um cultivo de amor, se fôssemos assim.
Vou fazer a minha parte, rever o jardim dos meus afetos, cuidar das minhas amizades. Um telefonema, um bilhete, alguma demonstração de afeto. Pequenos gestos fazem maravilhas pelos relacionamentos. Não quero me tornar igual a quem detesto. Não quero ser silêncio, se preciso de palavras. Não posso optar pela indiferença se é de carinho que eu gosto. Quero uma semana de plantar ternura. Com o cultivo de sentimentos ternos terei fartura na colheita de afagos ao meu coração. Não posso me queixar de não receber se não tenho dado. E vivas para São Francisco: “é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado”. As pessoas corromperam esse ensinamento, associando-o à política. Uma pena.
Vou começar o meu dia. A manhã está nublada, mas confio que o sol virá. Confio no amor e vou cultivá-lo.
Segunda, 30 de Julho de 2007 às 08:51
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Acho um luxo tirar uma sesta no fim de semana! É quando tenho a melhor sensação de que é sábado ou domingo. Pois dormi no final desta tarde, que beleza! E perdi o encerramento do Pan… Não gostei desta parte da sesta, queria ter visto o fim da festa. Agora à noite, fiquei a espera de que o Fantástico da Globo resumisse a cerimônia, que não vi por ter dormido.
Enquanto espero, trabalho no computador mantendo um ouvido na tevê. De vez em quando, se o assunto interessa, espio. Só mulher consegue essa proeza dos sentidos, né, não? Homem fixa o olho na televisão e não tem o que o tire de lá. Ou fica no computador e não ouve sequer berro esganiçado da gente. Ou escreve. Ou lê. Ou isso ou aquilo. Mulher, não. Mulher faz o jantar, está no computador, embala o bercinho do filho com o pé, põe creme no rosto, está com outro creme no cabelo, digita com cuidado para não estragar o esmalte da unha, cantarola a música que ouve com um ouvido no rádio, com o outro ouvido acompanha a televisão, pensa no que tem de fazer amanhã, pensa no sexo para dali a pouco, e ainda diz: o que foi, meu amor? ao menor grunhido do marido, esparramado no sofá.
O que está me deixando muito curiosa é a indecisão de Glória Maria com o colar sob o vestido preto. Bota e tira a cada quadro. Vai botar ou vai tirar, afinal? Desde que a moça quase perdeu a orelha com o peso do brinco, que caiu durante um dos programas, ela passou a usar um brinco comprido numa orelha só. Virou sua marca. Será que esse colar, que não vai nem fica, vai virar moda na tevê? Que coisa…
Que coisa mesmo é aquele moço do esporte da Globo, um meio carequinha. Esqueci o nome. Deve ser porque, quando ele aparece, só olho para ele (entre suspiros) e não olho nem escuto o nome do bichinho. É aquele moço do esporte do Bom Dia Brasil. Queria muito saber o nome da mãe dele para cumprimentá-la. Ela fez uma obra e tanto! Ai, ai…
Domingo, 29 de Julho de 2007 às 22:53
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Comemorei quando o blog chegou a 6 mil visitas. Festejei ao atingir 10 mil. Hoje, com 21 mil visitas, digo: obrigada, obrigada, muito obrigada. São visitas ao meu coração que, emocionado, agradece.
às 21:23
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
E a vida retoma seu ritmo. A filha voltou das férias e a casa recupera-se da ausência dela. De novo, espaço compartilhado (e roupas espalhadas, que me esforço para não juntar). Aprendi muito sobre mim nesses dias em que fiquei sozinha com os meus bichos. Foi uma oportunidade preciosa de encontro comigo. A gente precisaria ter mais tempo para esse contato com as próprias emoções, que propicia reavaliar como a vida está sendo conduzida, o que está demais, o que se tem de menos.
Muitas pessoas não sabem ou temem ficar sozinhas porque é inevitável que olhem para si mesmas e conversem consigo, quando estão sós. Algumas pessoas estão sempre com alguém para preencher o vazio interior. Outras se ocupam demais com tudo para não terem tempo de estar na própria companhia.
Aproveitei bem esses dias de férias de mãe para me dedicar a mim mesma. Fiz coisas que não tinha tempo de fazer, às voltas com encargos de família. Cultivei prazeres pessoais, abandonados em favor do interesse alheio. Reafirmei algumas coisas de que gosto muito e decidi abandonar outras que me imponho sem necessidade.
Aos sábados, uma pernambucana muito simpática, ativa e risonha faz faxina na minha casa. Ela é um mundo! Gosto de conversar com ela, de conhecer suas opiniões acerca da vida. Ontem, ela me dizia que, se fosse eu, jamais faria tarefas domésticas como faço, que teria sempre a mesa posta, as compras feitas por empregada e não colocaria as mãos no sabão em pó nem na cozinha. Viveria como madame! De tudo que falamos, isso ficou latejando no meu pensamento. Será que eu deixaria de fazer isso, podendo? A pensar.
Na realidade, penso que poderia deixar de fazer algumas coisas; outras, não. Ou poderia fazer menos algumas coisas para poder fazer mais outras coisas. A moça me pôs a pensar sobre o que posso fazer para administrar melhor o meu tempo.
Enquanto penso, coloco cores novas na minha vida, refaço o layout das páginas que escrevo. Dizem que, quando a gente quer mudar coisas que interferem nas nossas emoções, arrumam-se as gavetas e armários. É um preâmbulo das mudanças que se quer operar. Talvez a mudança que fiz no blog (novas cores e fotos ao pé da crônica da semana) sinalize que quero mudar algumas coisas em mim. Não sei se posso tudo o que quero, mas me embrenho em busca do que me importa. Cores novas no blog, mais prazer na vida. Isso eu já sei. Mãos à obra, pois.
às 09:31
Vera Pinheiro
NINHO VAZIO (*)
Vera Pinheiro
Há muito eu não ficava com a casa vazia, sem ninguém além de mim, por tanto tempo. Longe dos filhos, não tinha com quem conversar. Falava com os bichos para a boca não colar, e ocupava comigo aquelas horas todas minhas. Nesse tempo de solidão, vi que a minha vida quase não me pertence, mesmo tendo filhos criados. Ainda passo horas arrumando a casa, recolhendo livros espalhados, colocando as coisas nos lugares, tentando achar o controle remoto que passeia pelos cômodos e nunca está onde devia estar. E a pilha de roupas? Dias de folga para a máquina de lavar e para os meus braços, que carregam as trouxas para lá e de volta para cá. Parece que ali mora um batalhão, não uma família, tantas roupas a lavar. Dias de folga para mim e a inauguração do aprendizado de viver sozinha. Começo a reconhecer o meu ninho vazio, pois os filhos partem na direção de suas próprias vidas.
Passa na memória tudo o que aprendi. Manuais, conversas com outras mulheres, orientações de profissionais, artigos, livros, conselhos, nada explica com exatidão o que sentimos quando o ninho se esvazia. O silêncio se faz e a mulher-mãe é obrigada a voltar os olhos para si mesma e para o ninho, então, vazio. É uma situação que não se resolve com depoimento alheio, a gente precisa experimentar para saber.
A vida toda, passamos com a casa cheia. Construímos um lar com marido, filhos, papagaio, periquito, cães, gatos, experiências, alegrias, dores. Os nossos dias são lotados de presença. Temos um círculo humano em torno. Além da família, amigos nossos com os filhos deles, amigos dos filhos com as namoradas e outros amigos. Alegra-nos o movimento em casa, isso traz uma sensação de utilidade que dá sentido à vida. Sentimo-nos úteis porque necessárias ao bom andamento da estrutura familiar. Quando os filhos são pequenos e na adolescência deles, tudo gira em torno das nossas decisões e escolhas. Então, o tempo passa.
O homem que vive conosco já envelheceu, não é tão exigente, pede menos do que antes, quando precisava de assessoria da mulher para tudo funcionar bem na carreira dele. Agora está aposentado, não precisa de muito mais além de si mesmo. Os filhos tomaram autoridade e autonomia e já não querem que façamos tudo por eles. É a hora do inevitável olhar sobre a nossa vida e de responder perguntas que não se calam: o que fiz da minha vida até aqui? O que vou fazer de mim agora?
A sensação de que somos dispensáveis traz a percepção nítida de que o ninho familiar está vazio. Tudo já funciona bem sem nós. Nada precisa de nossa intervenção para se realizar. A família ganhou braços, pernas, vida própria. E a nossa vida, onde está?
A nossa vida está onde a colocamos. Se nos concentramos o tempo todo na vida do marido, quando ele vai embora, por morte ou abandono, perdemos o fio da existência e custamos a encontrar o próprio destino, até então apensado ao do homem. Se dedicamos todo nosso esforço, objetivos, sonhos e realizações à vida dos filhos, quando eles partem para viverem as suas vidas, perdemos o sentido do que é existir em nós mesmas. É como romper o elo que tínhamos conosco. Não sendo nós em nossa vida, queremos ser o que eles são, e descobrir que isso não é possível dói. É bom evitar esse equívoco enquanto todos estão conosco para não nos sentirmos desnecessárias, quase inúteis para eles, quando crescem e se vão ao mundo.
Quando o ninho se esvazia é hora da recompensa por tudo que fizemos. É o momento da paz e também da redescoberta de nós mesmas, do que queremos, do que podemos, do que somos. É hora de a mulher se voltar para si mesma sem pensar nas prioridades alheias, vindas dos filhos e do marido. Finalmente, vamos retomar a própria vida e aproveitá-la da melhor forma possível, com a sensação feliz de dever cumprido. Reencontramos nosso próprio tempo sem os compromissos e exigências da família. Podemos assumir nossas necessidades sem que alguém interrompa, pedindo algo com urgência, e nós atendendo sem reclamar espaço.
Enfim, a sós conosco, podemos estar inteiras e felizes, compreendendo que somos parte apenas, não o todo da família, e que não precisamos carregar o mundo sobre nossas costas. Nem tudo aos filhos nem tanto ao marido. Que sobre muito de nós para o amoroso retorno ao ninho. Vazio, sim, mas com muitas histórias e lições.
(*) Crônica publicada neste fim de semana (28 e 29 de julho de 2007) no jornal A Razão (www.arazao.com.br) de Santa Maria (RS).

Gui e Camilinha na casa dele. Eu, na minha, aprendo com o ninho vazio.
Sábado, 28 de Julho de 2007 às 07:22
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
As pessoas são instrumentos do nosso aprendizado. Por isso, alguns homens vêm para a nossa vida sem que estejamos na vida deles, feliz ou infelizmente, nunca sei.
Já fui muito impaciente nas minhas relações com os homens. Ganhei vida com o tempo e perdi a vontade de me esforçar para entendê-los. Passei a amá-los, e isso inclui todos, dos eternos aos circulantes eventuais, os que estão na minha vida para ficar e os que cruzam o meu caminho sem ânimo de permanência. Amo os do passado, porque odiá-los me desgasta, ainda que alguns mereçam. Amo quem está no meu presente e é importante para o meu bem-estar, embora me tire do prumo de vez em quando. Amo os transeuntes, aqueles que se incluem nas relações profissionais efêmeras e os que conquistaram minha confiança, os leais, amigos. É muito mais fácil amar um homem do que entendê-lo.
Ainda que eu tenha capacidade de sentir raiva, acho que é perda de tempo. Já senti muita raiva de alguns homens; tive decepções com outros, alguns me entristeceram profundamente. Até o dia em que percebi que esse movimento das minhas emoções se dava porque eu colocava nas mãos deles o meu bem-estar e a minha felicidade, no que queria que fossem para mim e comigo. A amargura vinha fácil, porque não correspondiam à expectativa que eu tinha a respeito deles. No fundo, eu os queria perfeitos. A imperfeição deles me aborrecia, desencantava, magoava, chateava, me estressava… e eu partia deles (se eles não saíssem, antes, de mim). Um dia, percebi que não existia a pessoa perfeita que eu procurava, que anjos não são desse plano e que príncipes só são legais nos contos da carochinha. É bem mais fácil conviver com homens da realidade, que têm imperfeições, limites, ansiedades, angústias como as minhas, porque, sendo assim, me desobrigam da perfeição que eu mesma não alcanço. E é mais generoso vê-los como eles são, sem cobrar que se coloquem no formato dos meus sonhos. Também eu não quero ser o sonho de ninguém, apenas uma feliz realidade.
Alguns tipos eu evitava e ainda detesto, como os que fogem do que sentem. Os que andam sempre à procura do nada, do mais, do melhor que nunca acham. Talvez estejam procurando a perfeição inexistente, como eu fazia. São os eternamente incapazes de tecer uma relação duradoura – ainda que pelo tempo que dure a emoção. Os indecisos me cansam e os covardes me desgostam, como aquele que não sabe romper relacionamentos e quer tempo, para o quê ainda não sei, e é possível que nunca vá descobrir esse mistério. Carente de ousadia emocional, ele não encontra coragem para dizer que já foi embora, que não vai voltar, para dizer adeus. Ocorre nele uma necessidade de manter o harém nutrido. Não fica, mas deixa a porta entreaberta, como se pudesse voltar. Não vai embora, pois não disse que tudo acabou. Deixa uma esperança ou, pelo menos, uma vontade ainda desperta no coração da gente. Odeio ilusões como essa. São banais demais, pouco inteligentes. Talvez ele aja assim por pensar que a gente fica cega de amor a ponto de perder o senso de preservação que manda a mulher cuidar de si mesma mais do que um homem o faria. Homem que aprisiona a mulher em laços que ele não sustenta deixa lições: a gente deve aprender a cortar a relação pelo próprio bem-estar e tirar dele a condição de homem importante na nossa vida. Ele não poderia suportar sobre o coração o peso de tamanho encargo.
Ganhei decepções nessa procura da perfeição masculina, fiquei sozinha por muito e muito tempo, mas isso já é coisa do passado. Acho que eu procurava alguém que fosse muito diferente de tudo que eu conhecia, fora dos padrões humanos. Somente muito tempo depois reconheci que nenhum homem era totalmente diferente de todos os que evitei. Como nenhum extraterreno apareceu, parei de procurar anjos e príncipes para me dedicar ao amor humano, com os pés no chão, ainda que a minha alma passeie entre sonhos e estrelas. Deixei de evitar pessoas, seres humanos como eu. Fiquei mais humana e compreensiva, a partir disso. Desde então, não evitei mais ninguém – descontados, evidentemente, os completamente loucos, os muito tensos, os puramente masoquistas e os absolutamente endividados. Com o resto dá pra conversar, ao menos.
Sexta, 27 de Julho de 2007 às 08:31
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
O exercício deste blog é a partilha do cotidiano, ainda que seja apenas um registro breve, geralmente apressado, como quem acena da janela ao trem que passa - uma memória da minha infância. É dividir a emoção diante das múltiplas paisagens que meus olhos contemplam. É encontrar tempo para dizer o que sinto, ainda que eu não saiba quem vai ler nem se vai gostar.
Escrever no blog já faz parte da minha rotina. É como dizer que amo. Preciso dizer o que não posso guardar no peito por ser grande demais para eu viver sozinha. Quando não escrevo, me falta o prazer de algo que me agrada muito. Como tomar café da manhã, algo essencial à boa disposição durante o dia. Posso até pular outras refeições, menos essa. Não gosto de deixar de lado o que me alegra, o que me dá prazer, o que lota a minha alma de contentamento. Escrever é parte disso.
A crônica desta semana é a ante-sala de um momento novo que vou viver. Meus filhos estão adultos e se encaminham para suas próprias vidas, longe de mim. Não se trata de distância física, embora isso seja uma possibilidade. Nem se trata de distância do coração, porque nossos laços de amor são muito fortes. Trata-se, isto sim, da minha desnecessidade de intervir no cotidiano deles. Toda mãe passa por isso, quando os filhos crescem e tomam rumo. Algumas atravessam serenamente esse momento novo; outras têm dificuldade de encarar a chamada “síndrome do ninho vazio”. É disso que falo na crônica que vou postar aqui no próximo sábado e publicar na minha coluna no jornal A Razão (www.razao.com.br), de Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
Quando os filhos deixam a casa dos pais, a mãe se ressente, mesmo que não admita isso sequer para si mesma. Até então, dedicou a sua vida para a vida dos filhos e não sabe o que fazer quando já não é necessária, do ponto de vista da administração da vida deles. Experimentei isso quando meu filho foi estudar fora. Quando ele volta e fica alguns dias comigo, vejo que ele precisa do meu amor, da minha compreensão, do melhor que há no meu coração. Mas não precisa que eu corra atrás das meias, que junte os tênis, que organize materialmente a vida dele. Ele sabe tomar conta de si mesmo e eu me deparo com a sensação de ser dispensável, no aspecto de que não preciso nutri-lo de outra coisa que não seja amor.
Experimento a sensação do ninho vazio quando minha filha viaja. A casa fica vazia e eu, com menos tarefas a cumprir. Sem ela em casa, ocupo o tempo vazio (de mãe) comigo mesma. E como rende! Faço coisas para mim, me coloco em prioridade, não tenho mais nada a fazer além do que é do meu interesse e da minha necessidade. Vejo o quanto sou necessária a mim mesma e observo que, envolvida nas tarefas maternais e domésticas, às vezes me esqueço de mim. Então, percebo que, quando o ninho se esvazia, é boa hora para o reencontro conosco.
Eu te convido a refletir comigo sobre o assunto neste sábado, aqui.
Quinta, 26 de Julho de 2007 às 05:49
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
O presente constrói o futuro, daí a necessidade de se transpor todas as barreiras que impedem ou dificultam a felicidade. A inevitável questão surge: o que estou preparando para o meu amanhã? Segue-se a isso uma série de incertezas e dúvidas, que brotam em meio às persistentes esperanças que cultivo. Finco os pés no chão e mantenho o coração nos sonhos, tentando equilibrar o que é vontade e o que é razoável esperar da vida.
Não me debruço sobre impossibilidades, pois quero continuar a busca do que suponho ser feliz para mim. Porém, não posso deixar de avaliar o que realmente é viável e o que é impossível obter, para não desabar de expectativas que estão além do meu alcance, como tantas vezes aconteceu. Não faço cálculos de quantas vezes ganhei ou perdi, do quanto fui feliz e da infelicidade que experimentei. Vivo com a serena vontade de que a vida me permita alcançar alegrias que sonho e que tenha compaixão de mim para acomodar dores que ainda não superei.
Reflexões e algumas angústias atravessaram a minha noite e fiquei, então, mergulhada em trabalho, que é meio de vida e, às vezes, fuga das minhas inquietudes. Quando sobrecarregada, o trabalho me fez desviar da ternura, e eu arrebentei onde devia apenas existir carinho. Já tive muitas perdas que lamento e talvez, se tivesse compreendido isso, poderia tê-las evitado a tempo.
É no silêncio da noite que as lembranças surgem. São como as corujas que visitam o meu quintal. Elas gritam, eu silencio. Elas voejam, eu me aquieto. Elas assustam os outros bichos, a saudade que sinto me assombra. Felizmente, amanhece. E cada dia que surge me renova. Esperanças se recobram com o sol da manhã e, mesmo que haja nuvens, há claridade. Apesar das angústias, a vida segue. Eu sigo. A felicidade ainda está aqui. Ela não se espanta quando relembro minhas dores. Nada corrompe a minha decisão de ser feliz. Mesmo que a noite me traga recordações, saudade e alguma lágrima pelo que perdi ou não pude ter.
Quarta, 25 de Julho de 2007 às 08:12
Vera Pinheiro
Publicações anteriores