Arquivo de Agosto de 2007
Vera Pinheiro
Filhas e filhos, quando ganham a estrada da vida, querem e precisam andar com suas próprias pernas, testar as lições maternas, exercitar-se na feitura da vida. Parecem dispensar as mães, mas têm o olhar voltado para elas, mesmo que nem sempre o digam, pois precisam afirmar a si mesmos que aprenderam bem o que lhes foi passado ao longo do tempo, para dar mostras das boas e eficazes lições que tiveram, para gerar nas mães o orgulho de que elas e eles fizeram um bom trabalho, para a certeza de que são indivíduos capazes, e são.
Consultam-nas no aperto e na insegurança, na dúvida e na dificuldade, mas faz parte do aprendizado deles libertar-se da consulta a cada tropeço, a cada dúvida. As mães acompanham à distância, querendo ofertar amparo e orientação a cada dificuldade, mas se recolhem, porque o exercício do que ensinaram é fundamental ao crescimento e amadurecimento dos filhos. Ficam com o coração nas mãos, torcendo para que tudo dê certo, buscando uma confirmação interna de que fizeram bem a sua parte, e se mantêm ao largo do cotidiano dos filhos para que eles se façam por si mesmos. E oram e oram e oram para que a caminhada deles seja sem os duros percalços que elas, mães, atravessaram não sem desassossego de alma.
Mães são sempre líderes da família, embora silenciosas; são livros de orações às vezes fechados, mas sempre na cabeceira da cama dos filhos; são oráculos nem sempre abertos para consulta, mas disponíveis em horas de angústia; são companheiras chamadas para compartilhar e comprovar façanhas e vitórias que os filhos alcançam, nem sempre para orientar-lhes os passos. Mães têm sempre o olhar amoroso na trilha dos filhos, mas não fazem a caminhada por eles, porque há uma consciência interna a dizer que é preciso deixá-los seguir sem interferir, como gostariam, para apascentar temores, para evitar erros e lamentos, mesmo que elas se consumam tantas vezes entre esperanças e conflitos.
ANGÚSTIAS
Mãe alguma devia se angustiar, sofrer nem se questionar sobre resultados. A obra materna, apesar das limitações humanas e do permanente aprendizado do espírito, é perfeita, profunda, grandiosa. Suas lições ganharão eternidade. Sua sabedoria se espalhará e a sua vida está na vida dos filhos e das filhas, e na vida dos filhos e das filhas dos seus filhos e filhas a mãe estará. Seus ensinamentos percorrerão gerações e gerações e gerações, até o infinito dos tempos.
É inevitável que toda mãe se cerque de ansiedade, tão própria do sentimento maternal. Às vezes, as mães bem que gostariam de puxar os filhos pelas mãos, ou pelos cabelos, à direção que julgam as mais certas. Mas os filhos aprenderam a escolher, como as mães ensinaram, e sabem que devem (e podem) retomar ao início se lá adiante perceberem isso como fundamental ao reencontro com seus propósitos. Eles voltarão ao princípio da caminhada quando se perderem em alguma encruzilhada para tentar recobrar certezas de que, enfim, estão a caminho do lugar que buscam. Talvez se percam, talvez demorem, talvez precisem começar tudo de novo até desfrutarem da paz do encontro com o que é meta, objetivo e razão para suas vidas.
Esse é o meu caminho, o da volta ao começo. E a vida sempre recomeça, mesmo quando se recua. Ao dar passinhos para trás, se está andando para frente com passos mais seguros e confiantes, e sem a vaidade de que somos detentoras da verdade. Aliás, a vaidade é uma palavra feminina, que nos desalinha a simplicidade e nos desvia do respeito ao outro. E as mães devem respeito aos filhos, do mesmo modo que ensinaram que merecem ser respeitadas.
PRECE
Sou mãe com todas as angústias e com o melhor amor. Às vezes, me sinto como no princípio, em que, tomando os filhos nos braços pela primeira vez, me sentia menor do que eles e temerosa de não saber tudo o que fosse necessário à vida deles. Só agora, quando eles me colocam no colo, tenho a sensação de que errei menos do que acertei. É quando agradeço à Mãe Maior, a Mãe de todas as mães, pedindo:
Ensina-me, Mestra e Mãe, o teu silêncio e o teu grito, e a hora de um e de outro, para que eu não me cale quando devo gritar e não grite quando preciso silenciar. Ensina-me a tua amorosa compreensão e a força da tua indignação, para que eu não sofra com o incompreensível nem me aquiete com o que for desprezível. Ensina-me a paz necessária e a guerrear, se for preciso. Ensina-me a compreender e a reformular, e quando devo me deter num ou me entregar a outro. Ensina-me atitudes, porque vontade me sobra. E me anima, se eu perder a esperança, se desistir da fé, se desanimar da busca. Ensina-me a nobreza e a humildade, para que eu saiba me impor sem sacrificar os outros e me curvar sem perder os meus valores. Ensina-me, porque tudo que sei é que, ainda e sempre, eu preciso aprender.
Sexta, 31 de Agosto de 2007 às 12:00
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Apaixonar-se é fantástico, né, não? Não é, não.
Conheço histórias e histórias de paixões que fazem muito mal e são bastante danosas à mulher. Estou cansada de tanto ver mulheres que, ao se apaixonarem, ficam insanas, a ponto de entregarem a sua identidade aos homens e de não saberem mais quem são, passando a ser o que os homens querem que elas sejam, não mais o que são.
Apaixonada, a mulher esquece de usar a razão e a sua capacidade de discernimento, ou simplesmente não quer usá-las para não perder o homem, e faz vistas grossas às imposições, caprichos e danos que ele faz sobre a vida dela. Mas, caramba, que vida é essa, subordinada à outra pessoa?
Perguntei à minha Mestra e amiga Mirella Faur, por que raios a mulher se submete a esse tipo de situação. “Vejo a causa, no geral, como um padrão feminino incutido e mantido nos níveis familiar, social, cultural de muita insegurança, complexo de inferioridade, co-dependência, medo de solidão, esperança de salvar ou ser salva”, disse ela.
Acho que tem razão, mas vou além. Tudo isso misturado faz a mulher se submeter ao homem e se deixa moldar por ele, perdendo o fio de própria vida. Já não é ela mesma, é aquilo que o homem a transforma. Não pensa, não questiona, não se rebela contra essa opressão inadmissível e vergonhosa, castradora e ignóbil.
Apaixonada, não quer desagradar o homem, teme o abandono, e, sobretudo, não quer ficar sozinha. Lá no fundo da mente, a voz recita um condicionamento: “ruim com ele, pior sem ele”. Com medo de enfrentar a vida sem ninguém além dela, adota atitudes que quebram a espinha da auto-apreciação, de tanto se curvar diante dele, e o trata como amo e senhor, como se estivesse em dívida de gratidão pelo amor que acha que ele lhe dá. Acha que é amor, mas não é. Isso é dominar, é coisificar o ser humano, é esmagar a sua auto-estima, é destruir a sua identidade. Mas, apaixonada e amedrontada, como perceber isso?
Além da paixão, essa coisa muito louca, a mulher se deixa enganar mais facilmente por um tirano esperto, um déspota arguto, um opressor gentil. A situação fica ainda mais difícil de romper se a cadeia em que esse homem enfia a mulher for confortável, cheirosa, bonita, mesmo que ela só tenha 15 minutos de sol por dia e durma com bola de chumbo nos pés todas as noites. Ela não se dá conta de que a prisão, por mais confortável que seja, nunca será igual à liberdade, mesmo que dura, quase cruel.
Ela sofre, quer a sua vida de volta, mas não sabe onde está a força de antes, a coragem de enfrentar a vida, que perdeu quando se apaixonou, talvez não pelo homem, mas pelo estranho conforto de não viver sozinha. Por isso, ela estendeu os dois bracinhos e deixou que o homem colocasse nos pulsos de sua vida o que chamei de “Algemas sutis”, título da crônica da semana, que estará neste blog no próximo sábado.
Quinta, 30 de Agosto de 2007 às 18:11
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
“Mulheres ousadas chegam mais longe”. Comecei a ler esse livro, de Lois P. Frankel, atraída pelo título, e identifiquei como conhecidos vários erros que as mulheres cometem e que atrapalham a carreira, como bem diz o subtítulo.
De fato, ser bem-sucedida é um grande aprendizado e exige uma enorme superação de condicionamentos que as mulheres assimilaram desde pequenininhas, quando nos ensinaram a não ser assertivas, mas boazinhas, a não reclamar direitos para evitar a pecha de complicadoras, a não discordar de ninguém para desviar de conflitos que desabonariam a nossa conduta perante os outros. Acabamos, com isso, aceitando posições inferiores no mundo do trabalho, salários menores que os dos homens, passamos por humilhações, discriminações e desrespeito, e o sucesso profissional efetivo se distanciou muito dos nossos sonhos.
Sem falar que em casa não existe divisão do trabalho, é a mulher quem se vira em dez para dar conta de tudo e de todos, mesmo quando ela está mais exausta do que o marido e é bem mais velha do que os filhos. Claro, há exceções para confirmar a regra. No trabalho, a mulher reproduz esse comportamento passivo e sobrecarregado de imposições que ela admite em casa.
As mulheres são modestas demais no trabalho. Recebem um elogio como se fosse uma migalha, um presentinho, não o reconhecimento justo de sua capacidade. Aceitam encargos que não satisfazem e fazem muito mais do que podem apenas pela dificuldade de dizer “não”. Calam-se quando deviam discordar. Não enfrentam oposições por medo de se “queimar” e para manter o emprego a qualquer custo. Têm uma postura humilde, tímida, e quando conseguem algum avanço quase se desculpam pela iniciativa.
Não ousam ser o que são, mas o que esperam que elas sejam. Deixam-se explorar. Desdobram-se em mil para cumprir tarefas que gostariam de rejeitar. Têm medo de serem substituídas por homens, então não se insurgem, nunca discordam, sempre acatam. São inseguras, não reconhecem suas qualidades, não as expõem. Perseguem uma perfeição que ninguém, além delas, pede. Tornam-se invisíveis, pela vergonha de sugerir, de tomar a frente em projetos e defendê-los, de ter idéias e levá-las adiante. E acham que o seu superior hierárquico, geralmente um homem, é uma divindade acima do bem e do mal, que sempre tem razão, não erra, não comete equívocos, por isso elas jamais mostram que estão certas e eles, não. Se fizessem isso descobririam que não seriam execradas por isso, e ganhariam o respeito pelo preparo e pela capacidade.
Isso tudo (e o mais que não disse) não li no livro, que abro antes de dormir. Vi essas coisas de perto, assisti com os meus olhos e com a minha experiência. Eu mesma, algumas vezes, me peguei em posturas que representavam um atraso na vida profissional e então mudei para melhor. A percepção do que a gente é, do que pode, do quanto é capaz, do que sabe, e até onde pode ir, encoraja. Não deixa a gente ser acanhada a ponto de não ir além do mínimo.
Antes de qualquer vitória profissional, precisamos vencer nossas próprias barreiras, aquelas que nos impedem de crescer, de ser bem-sucedida, de buscar o que achamos ser merecido. Tudo na vida funciona, basicamente, em cima de uma máxima: as pessoas nos tratam como nós queremos, voluntária ou inconscientemente. Daí para frente é um pulo para a realização pessoal, profissional, humana. Ninguém fará por nós o melhor que merecemos, precisamos ousar querer e buscar. Para isso, precisamos de consciência do próprio valor, da nossa capacidade, do nosso merecimento.
Nada de bom que a gente tem na vida é concessão. É direito ou é busca.
Quarta, 29 de Agosto de 2007 às 15:49
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Dentro de mim há uma árvore. Tenho um tempo de flores que enfeitam a vida, de frutos que matam a fome, de folhas que caem para me renovar a estampa, de sombra. Tenho minhas sombras, que ora abrigam outros, ora me servem de refúgio. E tenho raízes cravadas na terra, onde me abasteço, me nutro e encorajo.
Há em mim, fincada, uma rocha. Sou sólida, firme, quase rude. Resisto a águas que me batem com vigor, a intempéries que me surpreendem, ao castigo de dias severos. Sou forte, e preciso ser.
Mora em mim um cristal. Sou límpida, transparente, delicada. Se me quebrarem, não se colarão os meus cacos. Eu me espalharei em pedaços, mas em cada um deles ainda serei o que sou, porque em tudo de mim está a minha essência.
Cabe dentro de mim um oceano. Feito de lágrimas, feito de sangue, feito de águas de todas as experiências, das chuvas de muitas dores, dos orvalhos de aprendizados. Capaz de encantar e de atemorizar a um só tempo, e isso seduz e espanta. E gero conflitos, se a profundidade não é compreendida.
Há dentro de mim um grande sol. Renasço vibrante, me refaço, e isso é coisa de todos os dias. Brilho, ofusco, queimo. Mas também aqueço, ilumino.
A lua mora dentro de mim. Com todas as faces, com todas as fases. Com segredos, com mensagens. Sou todos os meus ciclos. Fim e começo, reconstrução, ressurgimento.
Moram todos os ventos dentro de mim. Sou tempestade e brisa. Furacão e aragem. Aura. Sopro de esperança, que aspiro e respiro.
Há muitas estrelas dentro de mim. Sou a minha própria constelação num céu que inventei e onde alguns passeiam.
O fogo mora dentro de mim. Sou chama. Fogueira. Brasas, clarões. Calor e luz. Incinero minhas angústias. Renovo a energia. Eu me revigoro com tudo que acontece.
A terra está dentro de mim. Ela é a Mãe, sou filha dela. Útero, amparo, acolhimento.
A vida inteira cabe dentro de mim. Sou do todo uma parte. Que vibra, que sofre, que vive. Sou uma mulher de todas as ternuras, com todas as inquietudes, com a melhor coragem e a mais intensa força.
Sou o meu infinito e os meus limites. A corda que amarra e a espada que liberta. O animal. A pessoa. O ser. Eu sou todo o meu ser e assim haverá de ser sempre, sempre…não importa quanto eu precise lutar por isso.
Terça, 28 de Agosto de 2007 às 15:39
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Entre o “sim”, do início, e o “não”, do final, uma história de amor começa, se completa e se exaure. Depois que acaba, vem um momento algo tragicômico, entre o drama e o riso, entre o absurdo e o compreensível. Um vazio que fica, um nada que toma conta da parte amorosa da vida, uma tristeza por não haver desfecho digno do que se viveu a dois. E todo desfecho é menos bonito do que a gente gostaria, do que a história mereceria. Final feliz? Que final é feliz? É no curso do amor que as pessoas são felizes, não quando o amor acaba, quando o relacionamento se esgota. Nesse caso, o final feliz se reserva e é possível para quem sabe recomeçar, não para quem estaciona na dor e faz disso o seu modo de vida.
Minhas histórias de amor nunca foram serenas. Não foram poças d´água, foram mares bravios, profundos, onde desaguaram histórias de outros “rios que passaram em minha vida”. E não foram poucos os que amei, os que perdi, os que me deixaram e os que deixei nesse torvelinho de emoções em torno do amor.
Às vezes, me tenho por desistente. Juro que não quero mais, nunca mais, me relacionar com alguém, que a solidão é a melhor das companhias. Depois, resisto a isso e insisto por pura crença no outro, por acreditar no sentimento, por gostar de amar, mesmo que o coração resulte chamuscado, dolorido, quebrado. Ao menos uma certeza, em meio aos conflitos do coração: se não tivesse amado tanto, eu seria menos humana. Compreenderia menos a mim e o que se passa no universo alheio.
O amor dobra a gente, torce, molda, ajusta. Ninguém consegue amar sendo inteiramente o que é, fazendo absolutamente tudo o que quer. Quem ama precisa se adequar, se render ao outro, ao que ele é, ao que ele quer. Não se pode impor a própria vontade. No máximo, se reivindica respeito e espera que o outro cumpra. Essa maleabilidade, essa flexibilidade faz duradouras as relações. E a falta disso faz as minhas relações serem curtas, embora intensas.
A vida me moldou em ferro. Precisa de muito fogo para me dobrar, moldar, ajustar. Ou de muita ternura e compreensão. Quem haverá de me amar assim?
Segunda, 27 de Agosto de 2007 às 10:01
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Como eu disse ontem, nada como um dia depois do outro e uma noite (de bom sono) no meio para a gente se recompor dos trancos que leva. Nada do que se vive ocorre sem sentido, tudo tem uma razão de ser, uma explicação, uma lição, um aprendizado. Às vezes, o Poder Divino, que me guia, faz as coisas acontecerem de um jeito forte, meio no empurrão, como quem tira esparadrapo de um braço cheio de pêlos. Se for de um jeito macio, devagarzinho, dói muito mais do que arrancar de uma só vez. A gente dá um grito, mas passa a dor. Aliás, tudo passa. Demora um pouco ou não demora, mas passa.
Sou metade pessoa, metade bicho. Não sou meiguinha o tempo todo nem sou zangada o tempo todo. Sou as minhas emoções intensas e sinceras. Não gosto de dissimular, de disfarçar e, muito menos, de passar pelas situações pela superfície. Mergulho nelas à profundidade, porque assim posso extrair delas a riqueza que paira no seu lugar mais longínquo. E ali recolho tesouros preciosos de aprendizado, que me ensinam muito a viver.
Conheço tipos humanos que parecem jamais sair da linearidade de seu comportamento, como se andassem em linha reta, sem curvas de humor, sem oscilações de atitudes, que agem sem emoções, sem entrega, sempre previsíveis. São os que eu temo. Prefiro pessoas frontais, que se mostram inteiramente, que se revelam exatamente como são. São mais fáceis de conhecer e de lidar, e me surpreendem (e decepcionam) menos do que aquelas outras. A gente nunca sabe quando aquelas, aparentemente sempre calmas, sossegadas e serenas, podem agir de um jeito que possa nos machucar, e nunca estamos preparados para as suas reações. Aliás, elas parecem que nunca reagem a nada. São as pessoas que raciocinam mais do que se emocionam. E o raciocínio pode ser mais ferino do que uma emoção espontânea, sincera, puramente humana.
Bueno, vou para mais um dia! O amanhecer me mostra que a vida recomeça e que a gente deve se refazer, se reconstruir, apesar de tudo que magoa, chateia, aborrece ou assusta. A vida é muito mais do que isso, felizmente. E cada momento nos constrói, se temos capacidade de superação e vontade de viver de um jeito feliz. Eu tenho, por isso eternamente me construo.
às 07:52
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Sabes um bicho que fica furioso quando está enjaulado, preso? Estou assim de ontem para cá. Muito furiosa! Muuuuito mesmo! Por isso, demorei a vir ao blog. Fiquei andando de um lado para outro na cela das minhas emoções, me debatendo entre a raiva, a fúria e a indignação. Algumas coisas não vou entender nunca! Não vou admitir nunca! Vou me rebelar sempre!
Não quero falar sobre os motivos de estar assim. Só consigo escrever sobre as dores quando elas entram no processo de cura. E porque estou furiosa ainda, não posso escrever sobre as causas nem avaliar as conseqüências. Sou tão transparente quando escrevo que não disfarço, e não sei fazer diferente. Acho mesmo que nem quero! Quero ser fiel a mim mesma sempre, sempre. E viver de frente para as minhas emoções. Quero sempre ser sincera com o que sinto e vivo, mesmo que ninguém compreenda.
Apesar de achar que esses sentimentos que tomam conta do meu ser – e com fortes razões – não são bons, eu os acolho para que, assim, eles possam ir depressa de mim. Não adianta negar os sentimentos, precisa-se vivê-los em toda a sua extensão para que passem rápido, para que sumam logo do coração. E haverão de sumir! Preciso me conceder esse tempo de acomodação das minhas emoções, que ferem, machucam, me enjaulam.
De outro lado (sempre há o outro lado de tudo que se vive, seja bom ou nem tanto), coisas boas acontecem. “Parto de Mim” está em Minas Gerais. Já vou dar o endereço no item (acima) “Meu livro”. Assim que parar de andar como Tio Patinhas, em círculo, bufando como estou!
Não tenho tempo de trabalhar o meu livro. Precisaria de alguém que tomasse conta dessa área da minha vida, mas onde encontrar quem se disponha a tal? Preciso de um empresário urgente! Certa vez, uma pessoa se ofereceu para isso, mas conversava demais e trabalhava de menos. E me aprontou algumas situações que eu adoraria que não tivessem acontecido. Não deu certo.
Lancei “Parto de Mim” há mais de ano e meio. Pode parecer incrível, mas somente na última sexta-feira, já noite e ainda no trabalho, entreguei um exemplar para o Vice-Presidente da República José Alencar, meu chefe. O momento teve foto, palavras boas dele sobre o meu trabalho e sobre o livro. Eu gosto muito dele, de verdade! Fiquei feliz, mas percebi que poderia ter feito isso há muito tempo. Não fiz porque, quando estou trabalhando, esqueço de tudo o mais que faz parte da minha vida pessoal. Estou inteiramente ali, como estou inteira em tudo o que faço, com toda a alma, de todo coração.
Vai passar, vai passar. Daqui a pouco, eu me recupero! Nada como um dia depois do outro e uma noite no meio. Não uma noite insone, como a passada. A vida se encarrega de acomodar as coisas para que elas sejam como devem ser. Tudo que acontece vem para o nosso aprendizado e crescimento espiritual, não duvido disso.
Mas cansa, ah, como cansa! No dia em que eu deixar de me insurgir contra atitudes indignas terei perdido a minha dignidade. Botem em mim uma camisa de força, me tranquem, porque eu terei abandonado a minha capacidade de me revoltar contra aquilo que é injusto, grave e nojento. E se eu concordar com isso, terei desertado de mim, coisa que jamais quero fazer! Porque eu me amo… e sou correspondida!
Domingo, 26 de Agosto de 2007 às 18:21
Vera Pinheiro
PERDAS E GANHOS (*)
Vera Pinheiro
Nós perdemos e ganhamos ao longo do tempo e da vida. Por sermos orgulhosos demais e agradecidos de menos, damos mais valor às perdas do que aos ganhos, e mais lamentamos o que não temos do que nos alegramos com o que conquistamos.
Perdemos pessoas. Elas partem, morrem, nos abandonam, voltam para si mesmas. Sofremos às entranhas toda a dor da ausência. Questionamos razões que expliquem o distanciamento. Não entendemos por que a vida nos separou de quem amamos tanto.
Perdemos cargos, empregos, bens. Revoltamo-nos contra o patrão, o governo, os colegas, a concorrência, o mercado. Queremos saber por que não foi nossa a escolha de deixar o trabalho, por que outra pessoa decidiu o nosso destino profissional quando nós é que deveríamos saber a hora melhor para trocar de endereço, de lugar e de atividade.
Perdemos oportunidades, chances, ocasiões. Rebelamo-nos conosco por não termos agido com a precisão necessária, na hora certa, e por não termos medido os riscos com segurança para avançar na coragem e tomar uma decisão acertada e sem titubeios.
Então, choramos, esperando que as lágrimas lavem o coração das amarguras pelo que enfrentamos, dos arrependimentos pelo que vivemos e das frustrações pelo que deixamos de viver.
Mas será que todas as perdas são, realmente, perdas? No momento em que tomamos contato com uma situação, que nos parece adversa e contrária aos nossos sonhos e expectativas de vida, não avaliamos com isenção e clareza todos os contornos que ela tem. Estamos chorando demais e não vemos o que há além das perdas e os ganhos que possamos ter. Concentramos demais a nossa atenção na dor e não conseguimos ver que aquele momento, apesar de sua aparência rude, pode determinar um rumo melhor para os nossos dias.
Quando a pessoa amada nos deixa por sua própria vontade, não há necessidade de execrá-la. Não precisa ser banida da nossa história, aliás, nem adianta. Aquela pessoa, mesmo que não nos queira, sempre fará parte de nós, de algum modo. A menos que não seja amor o vínculo que nos uniu a ela e, sim, algum sentimento descartável. A menos que tudo o que foi vivido tenha sido reles, superficial, sem entrega. Nesse caso, se converterá não em saudade, mas em um nome a mais no currículo amoroso, que, convenhamos, é pouco para quem prefere viver um grande amor, mesmo que ele não tenha o final esperado. Mas pode ser um final feliz, sim.
Pode ser feliz a perda de alguém que se ama. Não há emoções contraditórias nisso, mas aprendizado. A gente sofre porque perdeu, mas fica feliz com as lições que advêm da dor. E a dor ensina, sabemos disso. É justo o contentamento pelo que vivemos de bom com aquela pessoa.
As chances perdidas não voltarão, é certo. Mas, quando outra oportunidade surgir, vai nos encontrar mais atentos e corajosos, dispostos a lutar pelo que queremos e sem tantas angústias pelas incertezas. Essa é a lição que fica daquilo que não soubemos aproveitar. Na próxima vez, estaremos mais preparados e maduros.
A mudança de um emprego, quando perdido, pode descortinar um novo modo de vida, com perspectivas de crescimento mais amplas ou, ao menos, diferentes. Há pessoas que têm medo de mudar e não fazem nada que ameace a segurança de um determinado tipo de vida, mesmo estando insatisfeitas, assim como não se arriscam a exonerar do convívio alguém que vive ao lado, mesmo que a presença dessa pessoa não seja um sinônimo de felicidade. E, assim, vão colecionando frustrações por medo de agir, paralisadas em situações nada satisfatórias, porém confortáveis. Quando a mudança se impõe por outras vias, sem iniciativa delas, reclamam, choram, sofrem. Deviam agradecer porque a vida fez o que não tinham coragem de fazer e porque podem começar um tempo novo, mais feliz, com realizações que alegrem o coração.
Sempre podemos encontrar algo positivo em tudo o que vivemos. Ganhar ou perder são circunstâncias de quem está vivo. O que fazer com isso é que vai mostrar quem está disposto a ser feliz e quem tem predisposição para reclamar do que acontece, sem tentar ver o lado bom de tudo, que, felizmente, existe.
(*) Crônica publicada na edição deste fim de semana, 25 e 26 de agosto, no jornal A Razão (www.arazo.com.br) , de Santa Maria, RS.
Sábado, 25 de Agosto de 2007 às 01:33
Vera Pinheiro
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