A tragicomicidade do fim
Vera Pinheiro
Entre o “sim”, do início, e o “não”, do final, uma história de amor começa, se completa e se exaure. Depois que acaba, vem um momento algo tragicômico, entre o drama e o riso, entre o absurdo e o compreensível. Um vazio que fica, um nada que toma conta da parte amorosa da vida, uma tristeza por não haver desfecho digno do que se viveu a dois. E todo desfecho é menos bonito do que a gente gostaria, do que a história mereceria. Final feliz? Que final é feliz? É no curso do amor que as pessoas são felizes, não quando o amor acaba, quando o relacionamento se esgota. Nesse caso, o final feliz se reserva e é possível para quem sabe recomeçar, não para quem estaciona na dor e faz disso o seu modo de vida.
Minhas histórias de amor nunca foram serenas. Não foram poças d´água, foram mares bravios, profundos, onde desaguaram histórias de outros “rios que passaram em minha vida”. E não foram poucos os que amei, os que perdi, os que me deixaram e os que deixei nesse torvelinho de emoções em torno do amor.
Às vezes, me tenho por desistente. Juro que não quero mais, nunca mais, me relacionar com alguém, que a solidão é a melhor das companhias. Depois, resisto a isso e insisto por pura crença no outro, por acreditar no sentimento, por gostar de amar, mesmo que o coração resulte chamuscado, dolorido, quebrado. Ao menos uma certeza, em meio aos conflitos do coração: se não tivesse amado tanto, eu seria menos humana. Compreenderia menos a mim e o que se passa no universo alheio.
O amor dobra a gente, torce, molda, ajusta. Ninguém consegue amar sendo inteiramente o que é, fazendo absolutamente tudo o que quer. Quem ama precisa se adequar, se render ao outro, ao que ele é, ao que ele quer. Não se pode impor a própria vontade. No máximo, se reivindica respeito e espera que o outro cumpra. Essa maleabilidade, essa flexibilidade faz duradouras as relações. E a falta disso faz as minhas relações serem curtas, embora intensas.
A vida me moldou em ferro. Precisa de muito fogo para me dobrar, moldar, ajustar. Ou de muita ternura e compreensão. Quem haverá de me amar assim?
Adicionar comentário Segunda, 27 de Agosto de 2007 às 10:01 Vera Pinheiro