Arquivo de 27 de Agosto de 2007

A tragicomicidade do fim

Vera Pinheiro
Entre o “sim”, do início, e o “não”, do final, uma história de amor começa, se completa e se exaure. Depois que acaba, vem um momento algo tragicômico, entre o drama e o riso, entre o absurdo e o compreensível. Um vazio que fica, um nada que toma conta da parte amorosa da vida, uma tristeza por não haver desfecho digno do que se viveu a dois. E todo desfecho é menos bonito do que a gente gostaria, do que a história mereceria. Final feliz? Que final é feliz? É no curso do amor que as pessoas são felizes, não quando o amor acaba, quando o relacionamento se esgota. Nesse caso, o final feliz se reserva e é possível para quem sabe recomeçar, não para quem estaciona na dor e faz disso o seu modo de vida.

Minhas histórias de amor nunca foram serenas. Não foram poças d´água, foram mares bravios, profundos, onde desaguaram histórias de outros “rios que passaram em minha vida”. E não foram poucos os que amei, os que perdi, os que me deixaram e os que deixei nesse torvelinho de emoções em torno do amor.

Às vezes, me tenho por desistente. Juro que não quero mais, nunca mais, me relacionar com alguém, que a solidão é a melhor das companhias. Depois, resisto a isso e insisto por pura crença no outro, por acreditar no sentimento, por gostar de amar, mesmo que o coração resulte chamuscado, dolorido, quebrado. Ao menos uma certeza, em meio aos conflitos do coração: se não tivesse amado tanto, eu seria menos humana. Compreenderia menos a mim e o que se passa no universo alheio.

O amor dobra a gente, torce, molda, ajusta. Ninguém consegue amar sendo inteiramente o que é, fazendo absolutamente tudo o que quer. Quem ama precisa se adequar, se render ao outro, ao que ele é, ao que ele quer. Não se pode impor a própria vontade. No máximo, se reivindica respeito e espera que o outro cumpra. Essa maleabilidade, essa flexibilidade faz duradouras as relações. E a falta disso faz as minhas relações serem curtas, embora intensas.

A vida me moldou em ferro. Precisa de muito fogo para me dobrar, moldar, ajustar. Ou de muita ternura e compreensão. Quem haverá de me amar assim?

Adicionar comentário Segunda, 27 de Agosto de 2007 às 10:01 Vera Pinheiro

Amanhecer

Vera Pinheiro
Como eu disse ontem, nada como um dia depois do outro e uma noite (de bom sono) no meio para a gente se recompor dos trancos que leva. Nada do que se vive ocorre sem sentido, tudo tem uma razão de ser, uma explicação, uma lição, um aprendizado. Às vezes, o Poder Divino, que me guia, faz as coisas acontecerem de um jeito forte, meio no empurrão, como quem tira esparadrapo de um braço cheio de pêlos. Se for de um jeito macio, devagarzinho, dói muito mais do que arrancar de uma só vez. A gente dá um grito, mas passa a dor. Aliás, tudo passa. Demora um pouco ou não demora, mas passa.

Sou metade pessoa, metade bicho. Não sou meiguinha o tempo todo nem sou zangada o tempo todo. Sou as minhas emoções intensas e sinceras. Não gosto de dissimular, de disfarçar e, muito menos, de passar pelas situações pela superfície. Mergulho nelas à profundidade, porque assim posso extrair delas a riqueza que paira no seu lugar mais longínquo. E ali recolho tesouros preciosos de aprendizado, que me ensinam muito a viver.

Conheço tipos humanos que parecem jamais sair da linearidade de seu comportamento, como se andassem em linha reta, sem curvas de humor, sem oscilações de atitudes, que agem sem emoções, sem entrega, sempre previsíveis. São os que eu temo. Prefiro pessoas frontais, que se mostram inteiramente, que se revelam exatamente como são. São mais fáceis de conhecer e de lidar, e me surpreendem (e decepcionam) menos do que aquelas outras. A gente nunca sabe quando aquelas, aparentemente sempre calmas, sossegadas e serenas, podem agir de um jeito que possa nos machucar, e nunca estamos preparados para as suas reações. Aliás, elas parecem que nunca reagem a nada. São as pessoas que raciocinam mais do que se emocionam. E o raciocínio pode ser mais ferino do que uma emoção espontânea, sincera, puramente humana.

Bueno, vou para mais um dia! O amanhecer me mostra que a vida recomeça e que a gente deve se refazer, se reconstruir, apesar de tudo que magoa, chateia, aborrece ou assusta. A vida é muito mais do que isso, felizmente. E cada momento nos constrói, se temos capacidade de superação e vontade de viver de um jeito feliz. Eu tenho, por isso eternamente me construo.

Adicionar comentário às 07:52 Vera Pinheiro


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