Lembranças da virgindade
Sexta, 28 de Setembro de 2007 às 12:29 Vera Pinheiro | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 849
Vera Pinheiro
Quando eu era uma guriazinha e morava nos pampas do Rio Grande do Sul, ouvia as pessoas comentarem: “Fulano fez mal para a moça e por isso eles vão casar”. Não conseguia entender o que a afirmação significava e, quietinha, eu me perguntava por que uma mulher se casaria com alguém que lhe tivesse feito mal. Não ousava tirar minhas dúvidas e perguntar a quem quer que fosse, porque, naqueles idos, criança não se metia em conversa de adultos. Se fosse “intrometida” ganhava rapidinho um “cala a boca”, era mandada para o quarto ou, no mínimo, empurrada a brincar do lado de fora da casa, onde não pudesse ouvir os mais velhos conversando sobre assuntos proibidos aos pequenos. Sexo era um assunto proibido “na prática e na gramática”. Conversar não podia, praticar só depois do casamento.
Anos mais tarde, me contaram que “fazer mal” era desvirginar uma mulher. Sempre quietinha, me perguntava se “tirar” (parece peça de objeto) a virgindade de alguém seria um mal e quando seria um mal, especialmente porque os relatos que, à espreita, eu ouvia, tinham como personagens principais pessoas que se amavam, eram namorados ou noivos. E me dava impressão de que “fazer mal à moça” apressava o casamento. “Fez mal”, casa. Coisa mais complicada para a cabecinha de uma menina em questionamentos e sem respostas. Casar já era uma coisa amedrontadora, mais ainda quando passavam a idéia de que era obrigatório o casamento com alguém que fizesse “mal”. E depois do casamento, aquele “mal” se transformaria em “bem”? Nunca me explicaram isso.
Cresci me perguntando que importância teria a virgindade e por que as mulheres que deixavam de ser “virgens” deixavam também de ser “moças”. As pessoas mais velhas diziam: “Fulana não é mais moça”, e eu olhava para aquela que era alvo dos comentários e não deixava de pensar: “por que ela não é mais moça?! Ela é tão moça…”. No caso, ela era jovem, sim, mas não “moça”, tida e havida como “impura”. Depois de casada, não sendo mais “moça”, seriam as mulheres menos puras? Quantas perguntas silenciosas e sem compreensão.
Essas e outras lembranças de menina estão passeando pela minha memória desde ontem, quando escrevi a crônica da semana para o jornal A Razão, de Santa Maria (RS) e que postarei neste blog no mesmo dia da publicação impressa, sábado.
Quando era menina, uma guriazinha (como dizem nos pampas), além de ouvir a conversa dos mais velhos e de me encher de questionamentos, eu sonhava com um príncipe encantado, com “Um amor incomum”. Esse é o título da crônica da semana, que poderá ser lida amanhã, aqui no blog.
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1 Comentário Faça seu próprio
1. Amynthas da Macedônia Texieira | 30 de Setembro de 2007 às 16:01
Vera, sua crônica -excelente- aborda um infantil questionamento, próprio da nossa cultura.
Também na minha terra, no Triângulo Mineiro, não somente a “vítima” ficava inexoravelmente estigmatizada. Também aquele que, não tendo sido o “autor”, se dignasse, com um casamento sempre censurado, a deletar a impureza da coitada.
Um beijo - Amynthas
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