Arquivo de 18 de Outubro de 2007

Banheiro coletivo

Vera Pinheiro
O horário de almoço devia ser intervalo entre duas jornadas e espaço para alimentação e descanso… com uma boa sesta depois (coisa booooooaaaaa!). Porém, no mais das vezes, é tempo de resolver a vida. Ontem, almocei no restaurante do trabalho com uma colega e depois saí à rua para tratar de assuntos particulares. Antes, claro, aquela passadinha no banheiro.

Nunca gostei de banheiros coletivos. Esse lugar de privacidade máxima devia ter uma placa enorme na porta e sete chaves. Sobretudo, devia ser usado individualmente sempre, sempre. É o tipo de coisa que não gosto de compartilhar. Algumas pessoas usam banheiro coletivo como se estivessem em suas casas e obrigam os outros a dividir cheiros, barulho e hábitos que deviam se restringir a mais absoluta intimidade. Detesto ver alguém passando fio dental com o bocão aberto ou escovando os dentes e a baba escorrendo. Por isso mesmo, espero que não tenha ninguém no local para fazer a minha higiene. Por não gostar da cena, não imponho a outros que me assistam nessa situação, até mesmo em casa e no meu banheiro, onde apenas encosto a porta, mas ai de quem ousar abri-la se estou na minha mais profunda intimidade.

Ontem, como o tempo não era muito e tinha coisas a fazer, estava resignada a encarar a multidão do banheiro coletivo. Uma pessoa, nesse lugar, já é uma multidão. Como nem sempre a gente pode fazer o que quer, deixei de lado o gosto pessoal e caminhei decidida rumo ao banheiro, já pensando no que faria ao sair dali. Com a bolsa numa mão e a nécessaire na outra, entrei firme e resoluta num dos banheiros externos, esperando que o movimento fosse menor do que nos localizados no interior do prédio onde trabalho. Abri a porta e fiquei paralisada! Não dei passo à frente e também não recuei. Fiquei ali, parada, com cara de “e agora?!”.

Homens sempre aparecem na hora certa para nos tirar de situações-limite. Deve ser por conta da ancestral postura de guerreiros, sempre prontos a socorrer os desamparados. Era como eu me sentia: desamparada no vão da porta, com um pé dentro e outro, do lado de fora. Não sabia se olhava para frente ou se virava para trás, se olhava para quem estava diante de mim ou se torcia o pescoço para ver o rosto de quem falava comigo. Uma voz bonita, aliás. Máscula, gutural, forte. Não fiz nem uma coisa nem outra até ouvir a frase que confirmava a minha suspeita: “errou de porta”. Eu tinha mesmo entrado no banheiro masculino. Quase entrei, na verdade. Fiquei, como disse, com um pé dentro e outro fora, enquanto um homem de boca aberta olhava para mim e outro falava às minhas costas. O que estava boquiaberto escovava os dentes, apenas isso. E o que vinha por trás me sinalizava, gentilmente, o engano de rumo.

“Ah, é…” foi o máximo que balbuciei, vermelha como um pimentão! Ato contínuo, dei um pulo à direita, em direção à outra porta, onde estava inscrito em letras de bom tamanho: “sanitário feminino”, que eu não li. Deve ser por isso, para não se ler, que colocam aqueles bonequinhos que representam homem e mulher nos banheiros coletivos. São úteis à pessoas distraídas como eu.

Adicionar comentário Quinta, 18 de Outubro de 2007 às 05:48 Vera Pinheiro


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