Arquivo de Janeiro de 2008

Nós e os outros

Vera Pinheiro
Queres saber se uma atitude tua pode ferir alguém? Coloca-te no lugar do outro.

Queres antever se a tua ação ou reação não será mal-compreendida? Imagina o que farias, estando no lugar do outro, ao recebê-la.

Queres conhecer da alegria que pretendes oferecer? Basta que te coloques no lugar do outro.

Colocar-se no lugar do outro é tentar saber do que mais existe, além do próprio umbigo. É ter consideração pelo que o outro pensa e respeito pelo que ele é, mesmo que seja o nosso avesso, e isso não garante certeza sobre quem está certo, se a gente ou o outro.

A um passo de uma atitude, todos devíamos parar e pensar: como o outro se sentiria se eu fizesse isso? Ele se magoaria com minhas palavras? Ficaria triste com o meu gesto? Aborrecido comigo? Chateado, ao menos? Eu me importo com isso ou o que o outro sente me é totalmente indiferente? E, sobretudo, devíamos questionar: Como eu me sentiria se fizessem isso comigo? Como eu reagiria se me dissessem o que eu disse? O que eu faria com o que fiz?

Para a gente compreender que errou, passou dos limites, pisou na bola, feriu, magoou e por que quer ser visto pelas costas, nada mais eficaz do que o outro, atingido, sugerir pensar: quero que te coloques no meu lugar.

Se estivesses no meu lugar, tu farias o que fizeste comigo? Dirias o que me disseste? Tu me feririas, se estivesses no meu lugar? Será que, enfim, me compreenderias?

Se fosses tu, estando no meu lugar, agirias de forma diferente da que escolhi para agir? E como me tratarias, se estivesses no meu lugar e fosses como eu?

Por um instante, sem a pressa que nos ajuda a cometer equívocos nos relacionamentos, coloquemo-nos no lugar do outro. Foi o que fiz, escrevendo a “crônica da semana”, que será postada neste blog e publicada no jornal A Razão (Santa Maria / RS) no próximo sábado, com o título de “No lugar do outro”.

No lugar do outro, eu me vejo sob a perspectiva dele, por isso mais o compreendo. Em compreendendo, posso relevar muito do que hoje não suporto. E ainda evito repetir erros ou inventar novos.

3 comentários Quinta, 31 de Janeiro de 2008 às 14:57 Vera Pinheiro

Confiança

Vera Pinheiro
Se me perguntarem “queres que eu te ame ou que confie em ti?”, tendo a responder sim à segunda opção. Amar é mais fácil do que confiar, e falo por todas as experiências que esse mais que cinqüentenário coração já atravessou não sem sustos, dores e várias frustrações.

Algumas pessoas, afinal, não me amam, mas confiam em mim. Acho que isso explica as mensagens postadas no espaço “Conversa íntima” deste blog. Tu já leste? Há pessoas que me escrevem pedindo aconselhamento para as suas relações e eu me sinto tremendamente responsável por tudo o que vou dizer, e isso é diferente do que sinto ao escrever aqui todos os dias, de alma livre e peito aberto, para quem quiser ler, e que pode se identificar comigo ou não. Quando me dirijo a uma única pessoa, é mais difícil. Ela espera que eu tenha a resposta adequada para o que vive, o que nem sempre tenho. E mesmo se tivesse, que direito tenho de achar que a minha opinião é a mais certa e de entregar palavras como receita de bolo que dá certo se a gente usar todos os ingredientes e cumprir direito todas as etapas?

Viver não é como uma receita de bolo, de pavê nem de pudim. Hoje mesmo eu recebi as receitas de Rosana Braga, que me visitou com o marido, meu caro amigo Cirilo, e fez delícias na minha cozinha. Ela fez, não eu. Quem garante que, usando a fórmula dela, eu possa fazer o que ela fez e dar tudo certo, com o mesmo sabor que ela alcançou? Nem na cozinha, tampouco na vida e na complexidade dos relacionamentos. E a gente sabe: é a quituteira quem dá o ponto! Nem sempre a mesma receita funciona para todos os que a experimentam. Daí, essa angústia de não saber tudo e dos limites que há em dizer tão-somente o que penso ser certo, e que funciona para mim, mulher já calejada.

Porém, fiel às minhas origens de gaúcha, “dou um boi para não entrar na briga e uma boiada para não sair”. Enfrento o risco de errar, mas não deixo sem palavra quem a procura em mim. Às vezes, demoro a responder, mas prefiro fazê-lo apenas quando estou convicta do que quero dizer. E fico torcendo, claro, para que as palavras tenham sentido e boa acolhida na vida de quem confia em mim e no que digo. Não dou conselho, não presto orientações nem consultoria, apenas digo o que eu faria se estivesse na situação que me apresentam. Reconheço que, não raro, dou um caminho de pedras, não de nuvens, e que vou à ferida com a ponta de uma faca afiada, sem anestesia, e talvez esperem que eu dê apenas um aconchego, mas não me arrependo disso. Foi assim que aprendi a superar dificuldades e a enfrentar desafios sem perder o rumo. Foi assim que me tornei madura e forte sem perder o riso. Cara a cara com os problemas, sem achar que eles são maiores do que sou e sem desprezar o seu tamanho.

Hoje eu conversava por e-mail com um antigo e querido amigo meu, Adalberto Meller, um homem de grande história. Ele comentava comigo sobre o impacto dos meus escritos no coração das pessoas e eu dizia que, antes de escrever, vivencio o mesmo tranco. Antes e durante, depois passa. Há uma vivência preexistente à crônica, que ao ser revivida geralmente angustia porque me faz pensar, avaliar, analisar e experimentar a força e a forma das palavras. Já disse muitas vezes que não invento os fatos, pois a vida é muito mais criativa do que posso ser, mas encarar uma situação e recortar dela um aprendizado dói e muito. Escrever sobre vivências não apenas na teoria também dói. Escrever às vezes dói, mas também cura e me dá muito prazer. Por isso estou aqui todos os dias. E sempre vale a pena, por mais dura que a pena seja.

Adicionar comentário Quarta, 30 de Janeiro de 2008 às 22:27 Vera Pinheiro

Segunda chance

Vera Pinheiro
É quase fim de janeiro, a semana está no meio, já vem o carnaval e o feriadão se anuncia. De botas, poncho e pala, enfrento esse verão chuvoso e frio, que me traz lembranças do inverno nos pampas do Sul. Tenho dormido sob cobertas fortes e já não lembro de quando suei na cama em Brasília, onde o clima é seco e, quando chove, faz frio demais para o meu gosto. Daqui a pouco vem a Páscoa, o meu aniversário de novo e Feliz Natal! Mais um ano se terá findado. Enquanto isso, nesta manhã nublada, penso se devemos dar mais chances às pessoas e de quantas novas oportunidades precisarei para me refazer diante dos erros de convivência.

Todos merecem uma segunda chance, dizem. Mas uma terceira, uma quarta, também? Cabe o infinito de chances a quem se quer bem, passando a mão sobre os erros repetidos que as pessoas cometem? Minha mãe, quando fazia reprimendas e eu me desculpava, dizia, olhando no fundo dos meus olhos: “não te tornes freguesa de caderno”. Ela dava como exemplo a pessoa que pede desculpas, é desculpada, e volta a cometer o mesmo erro. Para me corrigir, ela usava lições do cotidiano, aprendidas no açougue de meu pai, que vendia carne aos fregueses em toscas anotações de caderno, numa negociação baseada, sobretudo, em confiança, que é fundamental às relações comerciais, afetivas, profissionais e de amizade. Os fregueses de caderno, que não sei se sobreviveram aos cartões de crédito e aos cheques pré-datados, compravam sem dinheiro e pagavam no fim do mês. Zeravam a conta e começavam tudo de novo. Assim também os relacionamentos.

Se cuidássemos mais de como agimos, não precisaríamos nos desculpar tanto. Confiamos demais no afeto do outro, nos importamos pouco com ele e cometemos erros iguais, quase sempre. Uma vez perdoados, esquecemos do erro e o repetimos tantas vezes que eles passam a integrar nosso modo de ser. Isso acontece muito com grosserias: a pessoa faz uma, a gente reclama, ela se desculpa. Depois, a pessoa já sabe que não gostamos daquilo, mas não evita a situação. Porém, se antecipa à nossa reclamação e logo se desculpa. A gente até acha bonitinha a iniciativa e deixa passar. E chega um dia em que o consenso se faz: ah, ela é grosseira mesmo, e já não há pedido de desculpas como não há perdão. O outro é o que é, e ninguém mais discute o assunto.

Cuidado, zelo, desvelo. Isso devia fazer parte do nosso dia-a-dia com os outros. Não precisaríamos pedir tantas desculpas, não forçaríamos o outro a perdoar, erraríamos menos. O convívio seria muito melhor e mais bonito.

Adicionar comentário às 07:42 Vera Pinheiro

Inesquecível

Vera Pinheiro
Na véspera do meu retorno ao trabalho, estou sem sono e quase congelada! Para uma gaúcha de boa cepa, sou friorenta demaaaais! Acho que ainda não saíram do corpo o frio e a chuva do fim de semana no mato, quando praticamente conquistei carteira de motorista em Rallye, vencedora no teste de dirigir no barro sem ficar atolada. Falando nisso, hoje à tarde é que percebi a sujeira do carro até a altura dos vidros, uma barbaridade de lama! A parte feliz é que valeu muito a coragem de enfrentar o desafio pelo tanto de inesquecível que vivi.

Há pouco pensava nas pessoas inesquecíveis da minha vida. Por que alguém se torna inesquecível? Sou um ser humano de memória seletiva, que guarda a parte boa e faz de um tudo para esquecer a “nem tanto”. Por isso, inesquecível é quem me faz feliz. Os que me ferem ou magoam conquistam rapidamente um passaporte para o esquecimento. Com o tempo, aprendi a isolar lembranças de quem me causou dor e a erguer, na memória afetiva, um monumento a quem me deu alegria.

Dos homens que amei, só lembro os que me deixaram lembranças boas. Os outros nada merecem além da minha indiferença. E repara que não me referi aos que não me amaram como os amei. Alguns não me amaram, mas ainda assim guardo recordações felizes deles. Dos amigos sempre lembro o melhor. Nem tudo é perfeito e da perfeição estamos longe. Novos ou antigos, amigos inesquecíveis são os que me compreendem, mesmo que não me amem. Compreender é um jeito de amar.

Os que me ensinaram algo jamais se afastam da memória do meu coração, pois se eternizaram no meu aprendizado e fazem parte da minha história. Lembro com saudade de alguns professores de várias épocas, desde o tempo em que eu usava meias três quartos e a saia enroladinha na cintura para aparecerem os joelhos, e não mais que os joelhos eu mostrava. Só fiz mais quando me emancipei da opinião alheia e desnudei corpo, alma e coração.

Algumas pessoas se tornaram mestres em minha vida para muito além da condição de professores e eu, de aluna. É o caso de Elony Martins, que hoje assina o nome com o título honorífico de “vó de Valentina”. Ela foi minha professora no curso de Direito na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM / RS), onde me formei em 1990, olha só o tempão que isso é! O curso de Jornalismo é mais antigo ainda. A formatura foi em 1978. Oh, céus! Lá se foram 30 anos!!!

Elony é uma mulher elegantérrima até hoje, nos seus floridos 60 e alguns. Sempre foi! Quando ela entrava na sala de aula, a passos suaves e com um sorriso no olhar, as alunas reparavam logo no traje sempre impecável. É o tipo de mulher que veste bem qualquer roupa, tudo parece feito sob medida para ela. Inteligente a ponto de a turma querer ser, quando crescesse, como ela. E, claro, era muito exigente nas provas, apesar de toda a simpatia. Lembro que não havia alegria maior que “tirar um 10 com Elony”. Era a suprema glória alcançar nota 10 numa prova, e a gente se esforçava para saber tudo de Direito Constitucional, especialidade dela. Aliás, tão gabaritada no assunto, ela prestou assessoria à Assembléia Constituinte. Escapam-me os detalhes desse feito, mas jamais a honra de ter sido monitora por dois anos na disciplina que ela ministrava. Eu me achava um máximo por ser monitora de Elony Martins!!!

Mãe do médico Neto, sogra de Vivian e avó de Valentina, Elony está sempre em busca de novos desafios, inventando alguma coisa. Todo ano, no seu aniversário, ela diz: “acho que agora vou largar os cadernos”. Bobagem, o ano termina e ela já marca outras aulas e aceita o desafio de preparar novas turmas. Ainda bem, pois “quando Deus nos dá algum talento e enquanto temos condições para compartilhar com o outro, não temos o direito de nos negarmos a fazê-lo por egoísmo ou acomodação (preguiça mesmo)”. É o que ela me ensina neste meu momento de pré-aposentadoria, uma fase em que estou totalmente sem planos de vôo.

Elony mora em Porto Alegre (RS) desde 1992, quando se aposentou, mas não parou. Nem podia! Logo foi procurada pela Escola do Ministério Público para lecionar no Curso de Preparação para Concurso. Em três anos, estava lecionando em seis instituições e trabalhando, de segunda a segunda, para preparar as carreiras da Magistratura, Ministério Público, Delegado Estadual e Federal, e Procurador do Estado. Logo depois, o CEJUR (Centro de Estudos Jurídicos), instituição das mais conceituadas, propôs exclusividade e hoje ela se dedica à Escola do Ministério Público com os Cursos de Preparação para a Carreira e de Extensão (isto que havia feito o propósito de diminuir o ritmo!!!). Enquanto isso, ela escreve obras jurídicas!!! Haja fôlego!

Fiquei sabendo disso tudo quando a reencontrei via internet e graças às crônicas que publico no jornal A Razão, da nossa Santa Maria. Ela ainda tem o mesmo viço e a elegância de sempre. E continua a mulher maravilhosa que conheci.

Hoje é dia do aniversário dela para eu homenageá-la? Não é. Apenas quero dizer do meu amor e da minha gratidão por essa grande professora e para isso não espero data especial. Estou pensando nas pessoas inesquecíveis da minha vida nesta madrugada insone. E o nome de Elony Martins aparece em letras fulgurantes por ser inesquecível e sempre, terna e eternamente, minha amada mestra.

Elony Martins - Elony Martins
A avó de Valentina

Adicionar comentário Terça, 29 de Janeiro de 2008 às 02:50 Vera Pinheiro

No mato

Vera Pinheiro
Por três dias, de sexta a domingo, estive no mato. Não posso relatar a vivência espiritual grandiosa, significativa e transformadora que tive, por isso compartilho tão-somente a ida e a vinda. É um lugar belíssimo e pleno de energia, situado a muitos quilômetros de Brasília.

“Perdida” como sou, enfrentar estrada sozinha é sempre um desafio para mim. Estava preocupada com a chuva, com a lama que deixa o chão como sabão. Numa hora dessas queria ter um jipe ou um 4x4, mas fui mesmo com carrinho um ponto zero, valente como a dona.

Tinha informações de que a estrada estava perigosa e de que devia ficar muito atenta, e assim me mantive. Quando a gente sabe do risco, fica com a atenção máxima no que está fazendo, e assim foi. Deve ser por isso que, quando desprevenida, me magoam. É o mesmo que lidar com pessoas: sabendo como elas verdadeiramente são, podemos nos relacionar melhor com elas e nos machucamos menos. Triste é quando a gente imagina (ou sonha) que são de um jeito e elas nos surpreendem negativamente. Essa é outra história que não posso relatar, e dela não falo por estar doendo. Preciso, antes, acomodar a dor e curá-la. Ao tomar contato com essa história, tão logo retornei, levei um choque, mas (como tudo que é “nem tanto”, sempre tem um lado bom) também serviu para me trazer de volta à realidade, depois de três dias de isolamento, sem celular, televisão, rádio, computador e internet. Eu dispensaria a aterrisagem da forma como se deu, quando ainda meu espírito bailava leve como uma pluma pelas vivências que tive, mas isso me pôs em contato com verdades que não enxergava e que a Grande Mãe me trouxe. Não é em vão pedir todos os dias que Ela aumente a minha visão.

Vou pular essa parte. De volta à estrada, portanto. Fiz o percurso de asfalto em boa velocidade e orava para encontrar o trecho de chão batido em bom estado. Assim foi, e comemorei com minha filha, por telefone. Ela, preocupada, aguardava notícias. Foi então que relaxei e… me perdi, claro. Não é a primeira nem a segunda vez que vou a esse lugar, cujo mapa está na minha cabeça, mas foi eu descontrair e errei o rumo. Peguei uma estradinha à direita quando devia seguir pela esquerda. Dois quilômetros adiante, percebi o erro. Parei o carro e desci para pedir informações a uma jovem mulher, acompanhada de cinco crianças… e de três cachorros enormes! Voltei correndo para o carro e ela se aproximou para me dizer que não sabia informar. Vi uma placa com os dizeres: “diminua a velocidade, aprecie a Natureza”. Bem, fiz isso, mas não poderia dirigir no barro em mais que segunda marcha.

Fiz o retorno, pensando: “De novo, de novo! Recomeçar!” E assim não tenho feito ao longo da vida? Quando voltei à encruzilhada, vi a placa gigantesca que me indicaria aonde eu devia ir. Ah, não é possível… Como não a vi? A vida tem muito disso: as verdades estão escancaradas diante de nossos olhos, mas não vemos e pegamos outro caminho. É ou não é?

Sã e salva, cheguei ao lugar e fui recebida por uma das amigas (irmãs do coração e do espírito, para dizer mais delas), que bradou: “A Vera não se perdeu desta vez!!!”. Cheguei, mas me perdi de novo. E tudo virou riso. A minha estupidez geográfica não deu trégua ainda.

Choveu muito por três dias, mas não pensei no retorno até pegar a estrada de novo. Afinal, não adianta sofrer por antecipação e porque sou confiante na mão divina que me guia. Chovia quando entrei, resoluta, no carrinho um ponto zero. Eu me sentia como se cavalgasse um puro-sangue, com as mãos firmes na direção!!! O chão estava como um sabão molhado, mas não senti medo. Mal podia ver por onde andava e, a certa altura, retornei e pedi informação. “A senhora está certa, é só seguir adiante”. Às vezes, a gente sabe que está certa, mas desconfia da própria intuição. Nesse caso, alguém nos confirma o caminho.

É tão bom voltar ao lar, doce lar, e encontrar o abraço acolhedor de Camila, falar com Gui, ver meus bichos, plantas, árvores e frutos. Tudo em casa estava como deixei, mas me sentia diferente, isso não posso descrever. Minha filha fez um chá, tomei um banho quente e conversamos por horas. Deitei cedo e dormi sob um lençol, um edredon, uma colcha grossa e um cobertor. Ainda é janeiro e verão, e esta segunda-feira, o meu último dia de férias.

2 comentários Segunda, 28 de Janeiro de 2008 às 08:43 Vera Pinheiro

Os noivos

Vera Pinheiro
Noivos de aliança no dedo! Dois jovens pares de noivos foram meus convidados para jantar na quinta-feira passada: Milena Castro de Albuquerque Barros e Marcelo Teixeira Vinhaes, minha filha Camila e Leandro Coelho Ferreira. Fui para a beira do fogão e fiz um macarrão caprichado, enquanto eles conversavam animadamente. Gosto de fazer isso para os meus amigos e para os amigos dos filhos. Fico na cozinha por horas e não me aborreço nem canso. É claro que preciso, além dos ingredientes e de bom fogo, de algum sossego, senão fico atarantada feito uma barata tonta, andando daqui pra lá e de lá pra cá. Sou até boa no ofício, mas cozinhar requer paz para que a alquimia dos alimentos se faça. Ah, enquanto cozinho, coloco boa música para ouvir, isso faz parte do ritual.

“Não vai dar trabalho?”. Todo mundo me pergunta isso quando estou na cozinha. De duas, uma: ou não convenço como cozinheira ou não consigo transparecer o prazer que cozinhar me dá. Talvez eu pareça ocupada e preocupada demais, quem sabe é isso. Ora, amados e amadas, estou naquela fase de me poupar: evito o que só me dá trabalho e não prazer, mas entendo a pergunta como uma gentileza. Fiquem todos os convidados serenos e tranqüilos: adoro que venham à nossa casa e, enquanto cozinho, penso. Sempre rola uma crônica e só por isso já valeria, mas é do meu agrado estar com pessoas que amo e servi-las, oferecendo o que penso ser o meu melhor.

Marcelo não come cebola. Detesta mesmo! Saber disso me fez buscar outro sabor para a comida. Nada demais quanto ao molho, basta usar o tipo peneirado. Estou quase boa nessas alternativas e, afinal, cozinhar exercita a criatividade. Não sei por que tanta gente odeia a cozinha e prefere um restaurante quando é tão prazeroso receber visitas em casa.

É tão bom ver jovens como eles, cheios de sonhos, mas sem perder o contato com a realidade. Não são aborrecidos, têm boa conversa e são pessoas suaves e gentis, que me deixam à vontade. Não dão nenhum trabalho, apenas alegria. Quando se reúnem em torno da mesa, não se importam em se submeter ao risco de uma nova receita minha, que se der errada a gente chama uma pizza por telefone e o assunto está resolvido. A gente devia ser como esses jovens: não são complicados, sabem apreciar as coisas boas e simples, e dão a sensação de que a gente é um máximo no que faz, a julgar pelo sorriso deles, pelo abraço caloroso e pelas horas e horas de conversa boa. Um brinde à vida e a eles!

4 comentários Domingo, 27 de Janeiro de 2008 às 00:14 Vera Pinheiro

Crônica da semana (*)

SINCERIDADE
Vera Pinheiro

Definida como “qualidade de sincero, franqueza, lealdade, lhaneza, lisura e boa-fé”, a sinceridade é virtude das mais difíceis de exercitar no cotidiano das relações interpessoais. Tenho me perguntado até onde podemos ser sinceros, quem realmente suporta sinceridade, e se podemos praticar essa grande qualidade sem que ela vire pelo avesso e se transforme em grave defeito.

Por eu ser sincera, muitos fugiram de mim assustados com o que a minha sinceridade impõe que eu faça, diga, sinta e expresse. Já a confundiram com reação intempestiva e pensaram que mudo mais de humor do que o clima, de sol à chuva. Sinceridade não tem a ver com humor, mas com amor. Só podemos ser absolutamente sinceros com quem amamos e nos ama com a mesma intensidade, com igual tamanho, sem medo de que o sentimento e o relacionamento fiquem sob risco.

Já consegui parar a tempo de evitar uma catástrofe nas ligações de amizade, afetivas e profissionais. São frações de segundo antes de revidar uma palavra, de responder como o outro mereceria, de entrar em confronto, de desabar, de desabafar, de dizer um palavrão e virar as costas para nunca mais voltar ao convívio. Esses momentos de contenção são bastante exigentes: silencio o que gostaria de dizer, mas a palavra, a emoção e a atitude ficam sufocadas, e causam uma reviravolta interior. Depois me arrependo de não ter sido tão sincera quanto gosto e acho que deva ser, como tenho direito e por obrigação.

Nem sempre, porém, podemos nos desnudar e deixar fluir o que sentimos, até por autopreservação, para não nos tornarmos vulneráveis, reféns do outro. Se não temos domínio sobre quem quer que seja, podemos, isto sim, puxar as rédeas do nosso cavalo íntimo e dominá-lo com firmeza antes que atropele alguém, ainda que mereça. Com isso, treinamos nós mesmos e nos tornamos mais fortes, porque o silêncio escraviza o outro, que não sabe o que pensamos dele. Não há vingança melhor do que o silêncio. Não raro, é resposta que surpreende, especialmente quem nos conhece o suficiente para saber que a situação é adequada para reação com força igual ou maior que a ofensa ou a mágoa.

Certos momentos nos obrigam a calar o que sentimos e a pressão social nos faz sacrificar impulsos de reagir com toda a sinceridade do nosso ser. Eu me calo, se acho que devo, mas, a seguir, preciso pacificar o coração para não haver em mim uma explosão silenciosa, que me agride. São dois momentos, então: o de silenciar e o de recobrar a paz. No meio disso, questionamentos acerca da minha sinceridade, que, investigada, revela a impossibilidade de ser totalmente sincera com quem não tem preparo para compreender e aceitar, não sabe discernir se expresso sinceridade ou se escancaro destempero, e não me ama.

Com pesado custo, agarro palavras rudes ainda na garganta, e, mais tarde, reconheço que, por vezes, manifestar tudo o que sinto não contribui para o aprendizado do outro. Conter meus impulsos me ensina autocontrole e me robustece. Quando domino o que poderia causar maior aborrecimento, eu sei de mim, do quanto posso extravasar e do que, por força das circunstâncias, devo conter. Assim, aprendo sobre meus limites, que precisam respeitar os limites alheios, sua ignorância, seu conhecimento ainda incipiente sobre a vida.

Sinceridade é faca de dois gumes. Requer habilidade para lidar com ela, pois pode ferir alguém e também nos machucar. Diferencia-se de falta de educação, grosseria e maus tratos. Precisa ter direção certa como a do arqueiro que não erra o alvo. Tem medida exata, não pode ser exagerada a ponto de chocar ou constranger, e não deve ser negada. Do que jamais podemos nos desviar é da sinceridade conosco, com o que vivemos e sentimos, pois é necessário assumir inteiramente nossos sentimentos e emoções, mesmo que não expostos. Manifestamos plena sinceridade quando o relacionamento tem base no amor e na confiança. Não sendo assim, e em situações fora do nosso controle, silenciar é alternativa digna. Afinal, podemos controlar somente a nós mesmos e devemos aprender antes de ensinar os outros.
(*) Crônica publicada no jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria, RS, edição de 26 e 27 de janeiro de 2008.

6 comentários Sábado, 26 de Janeiro de 2008 às 03:55 Vera Pinheiro

O lindo

Vera Pinheiro
Ele é o homem que meus olhos tocam antes de dormir e cuja imagem fica registrada na minha memória visual antes que adormeça. É ele quem me dá boa noite antes de eu me enfiar sob as cobertas e me deseja bons sonhos, e os tenho. Vejo-o todos os dias, exceto quando ele viaja (ou eu). Lindo, ele é lindo, mas isso é só um detalhe. É inteligente, brilhante, culto, gentil, educado e, não bastasse tudo isso e mais um pouco, é muito simpático. Tem uma voz… ah, eu adoro uma voz… Mas não importa a voz, e, sim, as palavras. Quando ele fala, sempre me acrescenta algo novo. Sei um pouco mais de tudo quando ele fala, e o faz com firmeza, exalando confiança… e se pode confiar no que diz. É um excelente profissional e boa gente.

Ele não é totalmente lindo? Roberto Cabrini é assim como descrevo.

Mulheres, não me botem inveja!!! Assistam o Jornal da Noite, que ele apresenta na Band, como eu faço. Além de um noticiário sério, apresentado com estilo, tem aquele “Boa noite e bons sonhos” que Cabrini diz ao final do programa com um sorriso que faz a gente ajoelhar… rsrsrs.

Pois ontem o lindo me ligou. Falo dele desse jeito porque é meu amigo, e dos mais queridos. Conheço-o há anos e acompanho seu trabalho com o entusiasmo dos grandes amigos: vibrando por todas as conquistas e vitórias que o outro alcança! É o caso.

Cabrini me contou ontem que, em breve, estréia um programa de reportagens na Band, ainda sem nome. Adorei a notícia, que pedi para compartilhar! Será um espaço onde, estou certa disso, ele vai mostrar toda a sua competência como grande repórter que é. Fiquei muito feliz com ele! Parabéns desde já, meu querido. Estarei na frente da telinha como superfã!

Não é novidade que, além de amiga, sou fã de Roberto Cabrini. No meu perfil do orkut está: não durmo sem o “Boa noite e bons sonhos” dele. O que eu não sabia é que ele sabia que havia colocado isso. Ontem me agradeceu. Sim, ele também está no orkut, espaço, aliás, do qual ando ausente desde que entrei de recesso e férias. É incrível, mas não tive tempo.

Tempo, ah, o tempo… Sempre deve sobrar algum para compartir a mesa com amigos. Ontem à noite, recebi um jovem casal de amigos de minha filha, mais o noivo dela. Mas essa história fica para domingo.

Adicionar comentário Sexta, 25 de Janeiro de 2008 às 09:11 Vera Pinheiro

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