Crônica da semana (*)
OUTRO JEITO DE AMAR
Vera Pinheiro
Creio firmemente no poder do amor, na força que ele tem, nos efeitos positivos que traz para nossas vidas. No entanto, reconheço que, por maior que seja nosso esforço, não conseguimos amar todas as pessoas. Algumas são mesmo insuportáveis, difíceis, antipáticas, más. Por mais que tentemos exercitar o amor que, por princípio divino ou por orientação religiosa, devíamos dar a todos, fala mais alto nossa condição humana, e é muito árduo dobrá-la em favor do amor por todas as pessoas, independente do modo como são e agem.
Não conseguimos amar, do fundo do coração, todas as pessoas. Amamos muito algumas e amamos bem menos outras. E há aquelas que não conseguimos amar, embora convivamos com elas, consigamos suportá-las e com elas não tenhamos conflitos. Mesmo que não cheguemos ao extremo do ódio, percebemos estar muito distantes de amar todos, absolutamente todos.
No cotidiano com as pessoas, algumas nos são totalmente indiferentes, não sentimos nada por elas, seja bom ou “nem tanto”. Desde que não nos atinjam, não nos perturbem, não nos agridam, não nos incomodem, caminhamos ao lado delas sem gostar nem deixar de gostar delas. Não sentimos coisa alguma, são inexistentes para nós. Se, no entanto, fazem algo que cutuca nossos brios, mudamos com elas e passamos a dar nomes à relação: são detestáveis, aborrecidas, chatas.
Se, do contrário, tocam nossa sensibilidade e, de algum modo, fazem algo que nos agrada, ainda que não seja essa a intenção delas, também se modifica nosso sentimento, e passamos da indiferença ao carinho, à ternura, à amizade, a certa consideração em relação a elas. Amá-las ainda está muito distante, mas já conquistaram algum significado para nós e ultrapassamos a barreira do “nada” que sentíamos por elas. Já têm, portanto, alguma importância, por menor que seja.
Amar todas as pessoas passa pela capacidade de nos amarmos inteiramente, por nos vermos – e todos – como seres concebidos pela vontade divina. Isso exige uma longa caminhada humana e espiritual, que cada um realiza no seu ritmo e com as vivências que atravessa. Entretanto, apesar de não conseguirmos amar todas as pessoas, podemos fazer algo que está ao alcance de todos nós, e independe da educação, do nível intelectual, das experiências de vida: a gentileza.
Ser gentil custa menos esforço do que podemos pensar. Ser gentil como propósito do nosso relacionamento com todos os seres: humanos, inanimados, visíveis e ocultos. Ser gentil com a Natureza, até mesmo com os passos que damos sobre a terra em que pisamos. Ser gentil com a vida, com tudo e todos que nela estão.
A gentileza é uma expressão do amor e um jeito de amar que está além das manifestações amorosas que conhecemos e que são, digamos, convencionais aos humanos. Ser gentil é a forma mais simples de amar, pode ser aplicada a todos e usada sem contra-indicação, além de ser verdadeiro antídoto contra mal-educados, deselegantes, raivosos e mal-amados. Podemos ser gentil até mesmo com quem não nos dá o tratamento que gostaríamos, com aquele que nos ofende, com quem nos magoa, com a pessoa cujo atendimento está aquém da qualidade que merecemos, com os ignorantes, os chatos e os mal-humorados de plantão.
Quando somos gentis, estamos a caminho do amor mais inteiro e profundo, o amor universal por todos os seres das nossas relações. Se não conseguimos amar – e alguns, de fato, fazem tudo para não serem amados, quando não provocam nossa ira e atiçam nossa irritação – ao menos, sejamos gentis, apesar de tudo. Sejamos gentis, apenas isso. A vida toda muda a partir disso.
A gentileza é uma forma profundamente bela de conviver. É um jeito de amar que traz recompensa positiva, porque ninguém fica indiferente a uma gentileza, inclusive os que não acreditam no amor. Pisa gentilmente sobre a terra e teus passos serão suaves. Trata todos com gentileza e a vida te responderá do mesmo modo.
Duvidas? Experimenta. Foi o que fiz. Por isso, a vida e as pessoas são tão gentis comigo.
(*) Crônica publicada no jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria, RS, edição de 12 e 13 de janeiro de 2008.
Adicionar comentário Sábado, 12 de Janeiro de 2008 às 06:19 Vera Pinheiro