Arquivo de Fevereiro de 2008

Uns e outros

Vera Pinheiro
“Eu quero ter um milhão de amigos…”. A música de Roberto e Erasmo vem à mente junto com o que escrevi ontem para o jornal A Razão (Santa Maria, RS). A crônica da semana, porém, não fala de amigos, trata dos inimigos, e precisamos conviver bem com uns e outros. Alguém pode dizer que não tem um inimigo, mesmo que não goste de dar esse nome a ele? É um tanto pretensioso afirmar que não se tem nenhum inimigo, pois nem Jesus conseguiu essa proeza.

Tendo um inimigo, é melhor saber lidar com ele! Tenho cá um jeito próprio de conviver com os meus e falo sobre isso no meu escrito. Aos inimigos, tudo! Por que isso? A resposta está na “crônica da semana”, que vou postar aqui amanhã.

Quem se dá ao trabalho de ser inimigo, na maioria das vezes, é uma pessoa que se ocupa mais conosco do que com ele mesmo. Pensa mais no que temos do que naquilo que ele pode conseguir para si, briga com a nossa felicidade em vez de construir a sua, e tem um prazer absurdo em nos combater. Não tenta fazer a sua vida, quer destruir a nossa. Usa todos os meios para impedir nosso crescimento, não porque possamos atrapalhar a vida dele, mas porque simplesmente se incomoda com nossas vitórias. Ofende-se com a nossa felicidade e faz tudo para impedi-la.

Ter inimigos não significa que sejamos, nós, inimigos. A inimizade é muito trabalhosa e não vale a pena, mas precisamos nos defender dela, isso sim, e não deixar que essa semente negativa crie raízes em nossos corações.

Quem é feliz não tem tempo nem vontade de se dedicar a inimizades. Está tão iluminado de alegria que não há espaço em si para abrigar sentimentos ruins. Isso, no entanto, não impede de ter inimigos, e às vezes é justamente o motivo de tê-los. Quem é feliz se ocupa da felicidade, não só para fortalecê-la como também para compartilhá-la com o mundo em volta.

Quando um inimigo se apresenta, olho bem no fundo dos olhos dele para reconhecer suas razões de ser como é. Depois, me compadeço e, a seguir, deixo-o. Afinal, a vida é mais, bem mais que ele. Ocupo-me com ele para que não faça de mim o que eu não quero ser, e procuro amá-lo em gratidão pelo crescimento espiritual que me alcança. Sendo feliz, eu me protejo deles, porque a treva não chega onde há luz. Felicidade é uma luz insuportável para inimigos visíveis e invisíveis…

Adicionar comentário Sexta, 29 de Fevereiro de 2008 às 07:59 Vera Pinheiro

Dois lados

Vera Pinheiro
Seria ótimo sair do serviço direto para casa, mas sempre tem uma passadinha aqui, outra lá, e a noite chega quando ainda estou a caminho. Por isso, aos sábados e domingos me alegro muito porque é possível apreciar o pôr-do-sol sem fazer nada. Pão fresquinho é uma delícia, não fosse ter de enfrentar fila na padaria. Então, querendo chegar mais cedo depois de um dia cheio, ontem passei no supermercado e peguei um pão sovado, já embalado, em vez dos cacetinhos de que gosto mais. Ops, cacetinho é como se chama pão francês no Rio Grande do Sul. Cá por essas bandas de Brasília não se usa essa palavra, que tem outro sentido. Pedir um cacetinho no balcão da padaria pode ser mal interpretado.

Entrei na fila rápida, aquelas em que se entra tendo menos de 10 produtos, e já estava de saída, quando uma amiga, noutra fila, me chamou. Abraços, beijos, saudade. É uma amiga das mais queridas, com quem vivo programando uma saída, um bate-papo, mas nunca sobra tempo, mais por ela que por mim. Desde que se casou, está com a agenda cheia do marido, além de seu trabalho e de outros compromissos. Quando só namorava, tinha tempo para as amigas, mas acho que isso não acontece apenas com ela. Homens ocupam espaço mesmo… para não dizer que são espaçosos e que querem todo o nosso tempo livre para eles.

“Ah, que saudade do tempo em que morava sozinha…”, disse-me ela em risos, enquanto colocava os produtos de dois carrinhos sobre a mesa do caixa. Um olhar no preço, outro na conversa (mulheres fazem isso, coisa que homens não sabem, senão se perdem no que estão fazendo). Trilhões de produtos só para um casal… e ela sozinha no supermercado, coisa que eu não faria. Cadê o homem para carregar as sacolinhas?!?! Nem vou falar em pagar a conta para não parecer que sou sovina…

Casamento muda mesmo a rotina feminina. A gente acaba vivendo em função dele, por mais que evite. O dia já está ocupado com serviço, e o tempo que sobrar é dele. E tem um curso aqui e outro acolá, aulas de dança, academia, a religião, mais a manicure, o cabeleireiro, a massagem, e tudo isso é importante. Não sobra tempo mesmo para um happy hour com as amigas. “Benhê, fica em casa que hoje vou tomar um chope com as amigas”. Não dá pra dizer isso. Ou dá (não sendo um aniversário, por exemplo), sem que ele faça bico?

Conversamos rapidamente, pois eu queria ir para casa e ela, para o marido. “Ah, que inveja”, disse a minha amiga, olhando para a única sacolinha que eu tinha em mão. “Isso é não ter marido”, retruquei em risos. Não sei por quanto tempo ela ainda deve ter ficado no supermercado, mas, apesar das queixas, pareceu-me estar feliz, e está. Afinal, marido ocupa espaço em nossa vida, às vezes é muito chato, mas tem lá suas vantagens. São os dois lados de uma convivência a dois: tem a parte boa e a nem tanto, sempre. É mais ou menos como dizia meu pai, um açougueiro: “quem come a carne, rói o osso”.

Adicionar comentário Quinta, 28 de Fevereiro de 2008 às 07:38 Vera Pinheiro

A janela

Vera Pinheiro
Acordei pontualmente às seis da manhã com o único despertador ativo nesta casa: o meu corpo descansado depois de oito horas regulamentares de sono. Não dizem que à medida que envelhecemos dormimos menos? Não é o meu caso. Quando mais jovem, dormia o mínimo possível, estava sempre ocupada demais, queria ter tempo para tudo e tinha a pretensão de estender o dia para além das horas. Depois que envelheci passei a tratar mais do meu sono, e reconheci o direito de dormir mais e a obrigação de cuidar melhor de mim, de minhas necessidades e das vontades do corpo e do espírito.

Esta noite acordei com a chuva. É muito bom ouvir a chuva e dormir de novo. Ao acordar, sentia frio. Para uma gaúcha, sou friorenta demais da conta, podia ter mais resistência a temperaturas menores que 20 graus, mas não sou assim. Pensei que ainda chovesse, por isso demorei a abrir a janela. Fiz minhas preces diante do altarzinho que está dentro de casa, não no grande altar da natureza. Alonguei o espírito e me espichei bastante para ativar o corpo.

Não demorei muito a abrir a janela, e fiz isso antes que os gatos miassem pedindo para entrar (de noite eles foram passear por aí) e que os cachorros uivassem na porta (eles não latem de manhã cedo, choramingam diante da porta para horror dos vizinhos). Para minha surpresa, o dia está claro, não há muitas nuvens no céu e não venta. A temperatura do lado de fora de casa está amena, é um convite para sair para fora.

Assim acontece conosco depois de um grande sofrimento de amor. Nós nos fechamos dentro de nossa casa interior, cerramos portas, não abrimos janelas e nos escondemos em nós mesmos, sem olhos para ver o que há do lado de fora da dor. Passa o tempo e chega o dia em que uma força interna nos impulsiona contra os cadeados emocionais, pegamos as chaves que estavam no mesmo lugar, à espera de nossa vontade de abrir a casa, e saímos de nós. Surpresa!!! Há vida, há sol, há amor. A felicidade só esperava que abríssemos a janela e que ousássemos sair pela porta.

Sentimos alguma tristeza pela sensação de que perdemos tempo, enquanto trancafiados na dor, mas isso é dispensável. Tudo tem seu tempo e o ritmo de vivenciar a dor depende do processo interno de cada um.

Não precisamos ficar tristes pelo tempo que demorou a travessia da dor. Importa que, enfim, estamos de volta à vida e ao amor. Daí para frente é caminhar feliz.

Adicionar comentário Quarta, 27 de Fevereiro de 2008 às 07:05 Vera Pinheiro

Trilha sonora

Vera Pinheiro
“No meu tempo”… cruzes!… Pois, então, no tempo em que eu namorava de mãos dadas no sofá da sala (às quartas-feiras, aos sábados e domingos), sob o olhar atento de mamãe atrás da cortina transparente, quando a gente terminava o namoro costumava devolver tudo o que se havia recebido (menos os beijos e os amassos raros, claro).

Acho isso uma ignorância deste tamanho!!! Por que devolver todos os presentes que, se presume, foram dados com carinho? Mas não, por mais que se gostasse dos presentes ganhos do então ex-namorado, a gente botava tudo numa caixinha e devolvia. Se não restasse um fio de raiva, até se fechava a caixa com um laço bem bonito. Os long-plays (não havia CD) a gente devolvia embrulhadinhos; os anéis e aliança, se houvesse e não tivesse sido jogada fora no meio de uma briga, eram devolvidos na embalagem original. Ficavam os dedos, ainda bem!

Incluídos no pacote, as pétalas de rosas esmaecidas e guardadas dentro de algum livro, o vidro vazio de perfume, o papelzinho de bala saboreada na sessão da tarde do cinema em meio a um beijo apressado, o pedacinho do ingresso de teatro, todos os bilhetes, cartas, fotografias impressas (não havia e-mail nem foto digital naqueles tempos). A tampinha de refrigerante, o saquinho da pipoca, os cartões natalinos, tudo era devolvido. Afinal, antes da ruptura do namoro eram lindas recordações, depois viravam entulho. E se a gente não devolvesse, a mãe cobrava fazer isso, por questão de honra! “Acabou, está acabado. Nada de recordações, devolve tudo!”.

No entanto, algumas lembranças não se apagam, por mais que devolvamos todos os presentes. Na memória e no coração se guardam as recordações de tudo o que vivemos no plano dos sentimentos. Então, é bobagem a devolução dos presentes, por mais que isso represente desapego material. Se não houver saudade, tampouco amor, a gente joga tudo no lixo, evita o desgaste da devolução e, aliás, não precisa devolver o que foi recebido. Se ao menos restar carinho, se guardarão presentes e lembranças.

Por que falo disso no meio de uma terça-feira deste fevereiro nublado? Porque hoje ouvi várias músicas que ganhei de alguém muito querido. A história terminou, mas não devolvi o presente. O CD faz parte da trilha sonora de um trecho da minha vida, do qual ele faz parte. Como diria Roberto Carlos, na canção “Detalhes”: “Não adianta nem tentar/ Me esquecer/ Durante muito tempo/ Em sua vida/ Eu vou viver…Detalhes tão pequenos/ De nós dois/ São coisas muito grandes/ Pra esquecer/ E a toda hora vão estar presentes/ Você vai ver…”

Ele não é nem está, mas durante muito tempo em minha vida vai viver… e suspeito que isso seja para sempre.

3 comentários Terça, 26 de Fevereiro de 2008 às 13:45 Vera Pinheiro

O depois

Vera Pinheiro
Depois do temporal da noite de ontem, o dia amanhece sereno como se nada tivesse acontecido. Nem parece que cheguei em casa com o coração aos pulos, dando graças por voltar inteira depois de atravessar um aguaceiro, sob raios e trovões, enfrentando um trânsito lento e perigoso. Era quase um dilúvio, sem exagero!

Isso me lembra algumas fases que a gente atravessa. Na hora é um susto! Parece que não terá fim, que a tempestade vai durar para sempre. Depois passa, e vem a bonança, a tão esperada tranqüilidade.

Um momento de dor parece que não vai ter fim, e pensamos que, depois dele, nossa vida não vai se recobrar, e nada será como antes. Não é mesmo, mas sobrevivemos e nos tornamos mais fortes quando superamos uma dor profunda com coragem.

Uma perda que causa sofrimento cria um vazio, e naquele instante parece que não haverá um depois em paz. Mas a vida segue, nós seguimos, e o depois é uma aprendizagem.

Um sonho desfeito parece que vai nos incapacitar para outros desejos. Porém, sendo otimistas e perseverantes, voltamos a sonhar de novo e não descremos das possibilidades de realizar outros sonhos. O depois é feito de renovação do ânimo.

Tempos de dificuldades parecem ser eternos! Precisamos de firmeza para reorganizar a vida e passar por isso sem perdermos mais do que já foi perdido. Mais adiante, podemos comemorar a vitória sobre o próprio medo.

“O quê que eu faço agora?”. Nas horas rudes, saber o que se pode fazer é continuar a caminhada sem medo do depois. É construir o depois agora, sem deixar a amargura tomar conta nem se derrotar pela angústia.

O depois é o passo do amanhã e depende do que fazemos hoje. Nem tudo é como esperamos. Às vezes, precisamos redefinir a estrada, pegar atalhos ou ir por um caminho mais longo, porém seguro. Nem tudo é fácil como gostaríamos. Porém, se do lado de fora há tempestade, em nosso interior precisa haver confiança, fé, bravura.

Olho para fora e repenso a existência. O dia alterna momentos de claridade e tempos de escuridão, e tudo é vida. Festejo o sol e me banho de sua luz. Faço uma imersão em mim quando a lua vem. A chuva lava a natureza e chora as nossas dores. Nada hoje é igual ao que foi ontem, tudo se movimenta e nos ensina.

Tenhamos olhos e corações abertos ao aprendizado. Acolhamos as histórias que a vida traz para nosso crescimento. Nada é eterno, tudo passa. Por isso, desfrutemos com prazer a felicidade e atravessemos com ânimo cada passo de nossa caminhada agora. O depois ainda não chegou, mas quando chegar também vai passar, seja bom ou nem tanto.

Adicionar comentário às 08:01 Vera Pinheiro

Vingança

Vera Pinheiro
Para mim, a melhor vingança contra um amor perdido é ser feliz de novo. É não se deixar morrer em lembranças, é superar a dor e viver com alegria.

Hoje me concedi um luxo: almoçar em casa (ah, os meus saborosos legumes…). Enfrentei uma chuva forte, porém passageira (como alguns amores) e na volta ouvia Chico Buarque cantando “Olhos nos olhos”. Cantei junto, dizendo nos versos da canção um recado para quem esteve no coração e hoje está do lado de fora.

A letra, para relembrar, é assim:

Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme
Quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer

Olhos nos olhos
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando
Me pego cantando sem mais nem porque

E tantas águas rolaram
Tantos homens me amaram bem mais e melhor que você

Quando talvez precisar de mim
Você sabe que a casa é sempre sua, venha, sim

Olhos nos olhos
Quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz

Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando
Me pego cantando sem mais nem porque

E tantas águas rolaram
Tantos homens me amaram bem mais e melhor que você

Quando talvez precisar me mim
Voce sabe que a casa é sempre sua, venha, sim

Olhos nos olhos
Quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz

2 comentários Segunda, 25 de Fevereiro de 2008 às 15:27 Vera Pinheiro

Nova paixão

Vera Pinheiro
Com o dedão da mão direita enfaixado e parecendo uma batata, escrevo devagarzinho, acariciando o teclado… e errando muito! O que fazia em minutos hoje demora o triplo de tempo (daí o meu atraso), e a mão esquerda entrou em ação para fazer o que a outra temporariamente não pode. É engraçado usar a mão esquerda para tudo, dá um cansaço no músculo do braço, mas não é tão difícil, apenas tenho de pensar os gestos – e não seria esse um recado da vida para mim? De todo modo, estou aproveitando a situação para ativar o lado esquerdo. Deve haver proveito nisso.

Então, o meu escrito hoje é um sussurro, pois escrevo noutro ritmo… e com o dedão, que cuidava do espaço entre as palavras, suspenso. Dói o dedo, mas não posso deixar de escrever, mesmo errando e em marcha lente, pois preciso contar da minha nova paixão! Desde que essa paixão começou, não posso ficar sem.

Estou apaixonada por legumes!!! Não entendo: como demorei tanto tempo para encher a mesa de legumes?! Até há pouco eu não era dada a comer legumes em grande quantidade, talvez porque nos restaurantes self service (e a necessidade de comer fora todos os dias) eles não têm sabor, são insossos, têm gosto de nada misturado com qualquer coisa. Mas quando experimentei na minha cozinha a coisa mudou totalmente!!! Que maravilhaaaaaaaaa!

É uma alimentação saudável e de baixo custo, um espetáculo! Minha mesa agora é lotada de batata, berinjela, espinafre, cenoura, pepino, couve-flor, brócolis (amo brócolis!), beterraba, tomate, abobrinha, vagem, lentilha, pimentão, rabanete, chuchu (sim, até ele!!!), repolho, rúcula, agrião, enfim, tudo (de A a Z) que tiver na prateleira de hortaliças do supermercado, incluindo os temperinhos, claro. Já não me demoro olhando outros produtos, encontro ali quase tudo para uma boa refeição que, além de saborosa, não pesa, dispensa aquela sensação de preguiça depois do almoço.

E sabes de uma coisa? Senti uma saudade enorme de ir à feira. Não falo das feiras grandes como a Ceasa, mas daquelas da minha rua, quando eu era uma mocinha. Os feirantes chegavam de madrugada e a rua se inundava do cheiro de quitanda. A gente ia bem cedinho comprar legumes (!!!), saladas e frutas, e antes de chegar o meio-dia eles já tinham ido embora. Voltavam na semana seguinte, em dias certos, e eram quase amigos. Não nos chamavam pelo nome, mas de “freguesa”, e sorriam sempre. Não havia feirante de cara feia.

Minha mãe cansou de recomendar que comêssemos hortaliças. Na verdade, ela costumava impor isso e se a gente fazia bico ela cortava logo: “vais comer o que quiseres na tua casa”. Sob a saia dela, eu tinha a mais absoluta certeza de quem era a dona da casa, ela não deixava dúvidas sobre isso. Botava na mesa o que achava que devia e reclamar não se podia.

Pois olha o que a vida faz: levei três décadas para aprender o que minha mãe dizia. O mundo dá voltas e voltas, mas um dia a gente aprende. Mamita estava coberta de razão: hortaliças são mesmo tudo de bom! Em minha casa, então, tudo é ainda melhor: hortaliças, amor e uma boa mão na cozinha… pra quê mais?

Adicionar comentário às 12:27 Vera Pinheiro

Dodói

Vera Pinheiro
Estou “catando milho” no teclado do computador por estar dodói. Eu me meti numa briga de cachorros e quem saiu ferida fui eu. Bem feito! Humanos não deviam interferir nas desavenças animais. Os bichos se estranharam, tentei apartar e deu nisso.

Para a raça Poodle, os meus animaizinhos parecem pittbuls. Qualquer semelhança com a dona não deve ser mera coincidência.

Quero dengo…rsrsrs. Uma mordida dos meus bichinhos dói pra cachorro!!! Caraca!

Sim, estão todos vacinados, cuido da saúde deles. Ainda estou curando uma mordida que levei há meses numa unha e hoje um deles quase arrancou um dedo da minha mão direita, sem exagero! Vou fazer uma CPI doméstica para apurar responsabilidades. E aqui tudo não termina em pizza… no máximo, tudo acaba em ossinhos caninos! Qual deles terá começado a briga? Lucky é invocado, por qualquer coisa ele avança. Buddy é temperamental, basta um nada e ele morde. Os filhos deles, Placky e Billy são tranqüilos, e ficam de fora das brigas dos mais velhos.

Tanta coisa por fazer e eu, imobilizada. Escrevo com a mão latejando… troco as letras…corrijo o que escrevo várias vezes.

No mais das vezes, a gente não percebe a importância dos dez dedos, até que se machuque um deles. Assim também na vida: muito dela a gente só valoriza quando perde.

Lucky & Buddy - Lucky & Buddy
Os pais são zangados…

Placky &  Billy - Placky & Billy
Os filhos são sossegados…

Adicionar comentário Domingo, 24 de Fevereiro de 2008 às 15:47 Vera Pinheiro

E o prêmio vai para…

Vera Pinheiro
Hoje, a Academia de Hollywood mostrará ao mundo desde o Teatro Kodak, de Los Angeles, os vencedores do Prêmio Oscar 2008 de cinema. Cá comigo, penso que todos nós devíamos ser premiados na academia quase cinematográfica da vida.

Merecemos um prêmio toda vez que sobrevivemos às dificuldades para ganhar o pão, quando enfrentamos um trabalho rude e pessoas que nos detestam sem nos perdemos de nós mesmos nem nos tornarmos iguais aos que detestamos.

Merecemos ser premiados quando levantamos de uma paixão que nos arrasou, à perda de um amor, à solidão que perpassa a vida. Quando não sucumbimos diante das dificuldades, das tristezas, dos problemas. Quando ousamos seguir em frente mesmo que tudo nos puxe para trás ou tente nos petrificar no mesmo lugar.

Se conseguimos superar as agruras sem nos tornarmos amargurados, merecemos ser premiados. Se não desistimos de nossos sonhos, apesar de tudo o que nos impele a isso, se não nos entregamos à derrota sem um último e derradeiro esforço pela vitória, merecemos, igualmente, ser premiados.

Quando sorrimos apesar das dores e oferecemos algo bom a todos, inclusive os desafetos, devíamos ser premiados. Se não nos trancafiamos em nós mesmos, apesar de todas as decepções em relação aos outros, merecemos ser premiados.

Se entendemos a vida e a amamos, se nos relacionamos de forma positiva com a maioria, se não deixamos que a tristeza seja maior que a alegria, a ansiedade maior que a confiança, a fé maior do que a dúvida, devíamos receber um prêmio.

Se não perdemos a fé na vida, se confiamos em nós e não nos deixamos arrasar pelas críticas nem nos permitimos ser vaidosos pelos elogios, merecemos um prêmio.

Não somos premiados por atitudes com essas e tantas outras do nosso cotidiano, mas há uma compensação muito bonita: a própria consciência. E não há galardão melhor que esse.

Adicionar comentário às 12:02 Vera Pinheiro

Crônica da semana (*)

IDADE ADULTA
Vera Pinheiro

Ser uma pessoa adulta dá muito trabalho. Estamos na maior exuberância física, em plena juventude, mas não somos mais mocinhas nem jovenzinhos. A fase adulta traz comprometimento com o próprio ser, responsabilidades, decisões a tomar, escolhas a fazer, e muitas cobranças sobre o comportamento.

Todo mundo espera de nós atitudes coerentes com a idade. Se somos adultos e agimos de modo tolo, criticam impiedosamente e nos jogam na cara que estamos errados e que devíamos acertar, porque, afinal, somos pessoas adultas. Se nos permitimos alguma infantilidade, reclamam o nosso crescimento e nos lembram, a todo momento, que devemos nos conscientizar disso. É a fase mais dura da existência, a idade adulta.

Na infância, nos corrigem e nos perdoam. Acreditam que temos a vida toda pela frente para o aprendizado da vida e confiam que aprenderemos tudo, por isso nos ensinam com paciência. Na adolescência, nos relevam. Compreendem nossas chatices, os aborrecimentos que causamos e nossos questionamentos, que parecem não ter fim. Estamos aprendendo e, por isso, os outros são benevolentes com nossos desacertos.

Enquanto muito jovens, nos dão chance de aprender e não nos cobram demais. Mas é passar dos vinte e uns e a chibata cai em cima. “És uma pessoa adulta! Como ages assim? Isso não pode, aquilo não deve, isso não está certo, aquilo outro não se admite”. O mundo nos impõe acertar sempre, mesmo que nossa cabeça esteja lotada de dúvidas e incertezas. Um erro, por menor que seja, ganha peso enorme, e ninguém perdoa! Acham que adulto não pode errar, pois não é mais criança. Dizem que a gente precisa saber o que quer, pois já passou da idade de ser um adolescente conflitado e cheio de perguntas. Insistem que temos de definir o que querer da vida, decidir tudo com precisão cirúrgica, conciliar todos os interesses sem perturbação nem titubeios, não ter angústia sobre coisa alguma. Instituem que, nessa idade, não podemos chorar no colo da mamãe e que devemos saber o que fazer da própria vida, do dinheiro, da carreira. Aliás, na fase adulta precisamos ter vida própria, dinheiro e carreira, e tudo funcionando bem!

Nessa altura da vida, na idade adulta, exigem-nos ter um amor, saber do amor e sofrer pouco por amor. Todos impõem que adulto precisa saber o que fazer das dores, ser alguém bem-resolvido, ter respostas para todos os problemas, e, de preferência, não ter problemas. Afinal, é um ser adulto! Não podemos nos arrebentar chorando como fazíamos quando crianças nem nos revoltarmos como um adolescente. Ser adulto – cobram-nos – é fase de soluções, não de soluços.

Por essas e outras é que podemos ficar aliviados quando ultrapassamos a idade adulta e nos tornamos mais velhinhos. A gente já não olha tanto para fora, tem o olhar voltado para si, para os próprios interesses e vontades, não se importa tanto com as cobranças alheias, ri e chora com liberdade, supera os erros, sabe que não é nenhum exemplo de perfeição, não desiste de aprender, e conquista uma bússola interior para se guiar nas direções do universo.

Quando a gente é mais do que adulto, dizem que se entrou na “melhor idade”, que não sei exatamente quando começa. O corpo já não responde como antes, há algumas limitações, rugas, cabelos brancos, flacidez, calos nos pés e no coração. Em compensação, a alma está mais vicejante do que nunca! Os outros já não caem de chibata emocional em cima de nós, porque erguemos a mão com vigor e dizemos: “Basta!”. E sorrimos depois, porque recobrar o riso é nossa vingança contra quem nos fez chorar.

Nós nos tornamos exuberantes depois da idade adulta! Não consultamos tanto os outros, sabemos exatamente quando agradamos e quando somos desagradáveis, e temos ousadia para não querer algumas situações, para fugir delas, rejeitá-las ou, se for preciso, enfrentá-las de peito aberto. Afinal, perdemos o medo de quase tudo, nos arriscamos a errar, sobrevivemos às perdas, e vencemos nossos próprios desafios, pois vencer os outros não nos importa. Por isso tudo e mais um pouco, não há que se temer o envelhecimento. É muito melhor que ser adulto, menos angustiante que ser adolescente e muito mais divertido do que ser criança.
(*) Crônica publicada no jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria, RS, edição de 23 e 24 de fevereiro de 2008.

Adicionar comentário Sábado, 23 de Fevereiro de 2008 às 06:56 Vera Pinheiro

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