Arquivo de Março de 2008
Vera Pinheiro
Quantas coisas fazemos por obrigação e quantas por prazer? Como se divide o nosso cotidiano: em tarefas que se cumprem apenas porque são necessárias ou extraímos delas alguma alegria? Costumamos desempenhar com prazer o que precisamos fazer ou tão-somente fazemos o que deve ser feito e não conseguimos escapar disso? Nosso tempo está mais ocupado com atividades obrigatórias do que com as de puro deleite? Se for assim, está na hora de revisarmos a agenda de compromissos.
Muitas vezes, começamos uma amizade e tudo vai bem até que começam as cobranças e a invasão ao que nos diz respeito. A pessoa quer nos arrastar para lugares que não gostamos de freqüentar e nos empurra a conviver com quem não tem nada a ver conosco por achar que precisamos disso e nos critica se preferimos outro estilo de vida. Para sermos gentis, concordamos até rompermos com isso, e a amizade se fere.
Arrumamos um namorado e tudo está perfeito, no princípio. Ele adora o que fazemos até que passa a nos analisar desde o nascimento para nos reformar por completo, se lançando a uma operação de mudança, que pensa ser o que queremos em nossa vida. Das roupas ao pensamento, quer nos modificar e o namoro morre.
Vamos a festas que não gostamos para não recusar convites. O que deveria ser prazer se tornou obrigação e odiamos a ressaca do dia seguinte. Mantemos relacionamentos que não acrescentam ou que podam a liberdade de ser como somos. Embrenhamo-nos em uma atividade apenas para mudar a rotina e ela se torna um verdadeiro serviço.
Então, chega o dia em que avaliamos os nossos dias e percebemos que estamos completamente enrolados em encargos sufocantes, em amizades superficiais, em relações amorosas que não têm qualidade. Entramos dentro de nós e fechamos a porta para processar o balanço do que se tornou a nossa vida. Depois de um tempo, saímos dali quase esquecidos por quem nos chamou e não atendemos. Quando voltamos aos outros, muitos não nos querem de volta, pois não gostam do nosso formato novo, mais voltado para as próprias necessidades do que para fazer o que eles querem.
E daí? Daí que começamos tudo de novo, sabendo que conviver não implica ser massacrado pela opinião alheia, mas aceitar e ser aceito. E nos tornamos seletivos, abrindo mais espaço para o prazer sem deixar de cumprir as obrigações.
Domingo, 30 de Março de 2008 às 09:31
Vera Pinheiro
O QUE DIZEMOS
Vera Pinheiro
Uma palavra deveria ter o peso de uma oração: não se pronuncia em vão, sem vontade e convicção. Não deveríamos dizer o que, no fundo, não queremos e não é verdadeiro. Teríamos menos arrependimentos, magoaríamos menos o outro, não criaríamos tantas ilusões e não perderíamos tempo, tentando enganar todos e nós mesmos.
Se fôssemos responsáveis pelo que dizemos, não falaríamos “te amo” como quem diz “bom dia” a qualquer pessoa que cruza conosco, mesmo sem a conhecer ou apenas por gentileza. Não diríamos “te odeio”, exagerando raiva que não é grande e logo passa. Não argumentaríamos com excesso, pouparíamos desgostos, encurtaríamos discussões intermináveis e sem necessidade.
Se pensássemos antes de dizer qualquer coisa, não ofenderíamos as pessoas, não as criticaríamos com tanta agudeza, não cobraríamos sua postura, que não é errada, é só diferente da nossa. Se cuidássemos do que dizemos, não aumentaríamos os fatos, não reproduziríamos fofocas, não cultivaríamos maledicências que perturbam a vida alheia.
Se levássemos a sério tudo o que dizemos, não afirmaríamos o de que não temos certeza, não garantiríamos o que não podemos cumprir, não assumiríamos compromissos além de nossas posses, faríamos menos promessas e os discursos não seriam vazios. As palavras teriam credibilidade, não gerariam frustração, e se traduzissem fielmente nosso pensamento, não elogiaríamos o de que, na realidade, não gostamos. Perdoaríamos de verdade, desculpar não seria mero disfarce para dar trégua a um combate. Esgotaríamos todos os recursos até o entendimento, dispensaríamos conchavos, juntos encontraríamos soluções para os problemas. Teríamos satisfação em responder e não nos angustiariam perguntas que preferiríamos evitar.
Se não ouvíssemos palavras mentirosas, não desconfiaríamos tanto. O que dissessem de maravilhoso sobre nós pareceria justo, o que não fosse bom seria entendido como alerta, e não nos aborreceríamos se alguém nos contrariasse, contestasse ou chamasse a atenção.
Se nunca tivéssemos mentido, não ficaríamos temerosos de que os outros mintam, nos enganem ou trapaceiem. Não saberíamos o que é isso, e, assim, não haveria incertezas e presunções sobre pessoas e acontecimentos. Se não conhecêssemos a falsidade, não teríamos razão para duvidar, para não crer no que o outro diz, para nos desesperançarmos da sinceridade. Se pudéssemos acreditar em tudo o que ouvimos, não desanimaríamos da confiança e não acumularíamos decepções.
Se fôssemos mais generosos, diríamos com mais freqüência que gostamos das pessoas e admitiríamos as virtudes delas que são ausentes em nós. Não teríamos medo do que poderiam fazer com aquilo que disséssemos e todos mereceriam nossas confidências. Não temeríamos ser sinceros, se pudéssemos confiar sem risco de desilusões. Não quereríamos sempre ter razão, daríamos chance à vitória dos outros sobre o que pensamos sem nos sentirmos diminuídos ou perdedores.
Se praticássemos livremente a franqueza, não nos preocuparia a chance de sermos mal-interpretados, expressaríamos nossos sentimentos com total intimidade e não haveria desentendimentos e rupturas que trazem sofrimento. Poderíamos dizer para todos tudo o que pensamos e não nos criticariam ou rejeitariam por isso. Seríamos compreendidos, e haveria aceitação em vez de julgamento, boa vontade no lugar da irritação. Não nos rotulariam de impertinentes quando discordamos, pois entenderiam que consenso não é feito de opiniões iguais, mas pelo acordo de idéias. Concordaríamos em avaliar as razões dos outros, depois de exercitarmos nossa liberdade de expressão.
Já que não podemos mudar o modo como os outros se comportam e se relacionam, façamos bem a nossa parte: não vamos exagerar, diminuir ou negar o que sentimos nem fingir, mentir e falsear nossas atitudes. Pode ser que isso não importe a ninguém, mas, ao menos, poderemos desfrutar de paz na consciência, um bem inestimável, que nem todos alcançam.
(*) Crônica publicada no jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria, RS, edição de 29 e 30 de março de 2008.
Sábado, 29 de Março de 2008 às 04:13
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Temos dois olhos, dois ouvidos e uma boca, mas falamos mais do que vemos e ouvimos. Falamos demais, muito além do que deveríamos, perdemos o controle sobre as palavras e, não podendo recuperá-las, quando causam estrago em nossas vidas, nos arrependemos. A intimidade com as pessoas piora a situação. Dizemos o que vem à mente, não filtramos as palavras, cultuamos o direito à truculência verbal e reivindicamos compreensão. No fundo, confiamos demais no perdão alheio. Acreditamos que sempre seremos desculpados e que, se nos amarem, vão passar por cima de nossas grosserias.
As palavras traduzem nosso verdadeiro sentimento ou dizemos coisas somente para magoar o outro, sabendo que tudo o que dissermos o afetará? Falamos sempre a verdade ou exageramos na mensagem para agradar o outro e para aquietá-lo, já que elogios geralmente calam a boca? Fazemos críticas na medida exata ou aumentamos tudo para irritar o outro, não para corrigi-lo? Falamos tudo o que pensamos ou temos medo da repercussão das nossas palavras e o efeito delas sobre o outro? Avaliamos as conseqüências do que dizemos ou acreditamos que, no final das contas, fica o dito pelo não-dito e tudo bem?
Falamos a verdade sempre ou apenas de vez em quando e para determinadas pessoas? Assumimos o que dizemos ou preferimos fazer o discurso que o outro espera ouvir? Mentimos com que freqüência e por quê? Como usamos as palavras e quanto elas revelam de nós?
Confiamos no que os outros dizem? Podemos acreditar em tudo o que ouvimos? Tudo o que dizemos pode ser levado a sério? Temos realmente compromisso com as palavras que proferimos?
Quantas indagações para uma sexta-feira em que dormi só um pouquinho… Acho que estou com ressaca de palavras: as que disse e me arrependi; as que gostaria de ter dito, mas não pude; as que me disseram e não esqueci; as que adoraria ter ouvido e não ouvi.
“O que dizemos” é o título da crônica da semana, que poderá ser lida amanhã aqui no blog e no jornal A Razão (Santa Maria, RS). Como sempre, o que escrevi expressa o meu momento, e não aprendi a fazer diferente. Aliás, acho mesmo que não quero, afinal, não posso pensar uma coisa e escrever outra, como muitos fazem. Palavras são sagradas para mim, eu vivo delas. São a minha sustentação, o jeito como desabafo, a minha entrega, como me apresento e sou.
Podem não gostar do que eu digo, mas jamais me condenar por não ser sincera. Reconheço, porém, que ainda tenho um longo aprendizado quanto à forma: tudo pode ser dito, depende de como se diz tudo. Muitas vezes, as pessoas não aceitam as palavras que dizemos não porque discordam delas, mas porque tivemos a coragem de dizê-las. Muito do que calamos é pelo medo do que farão com o que for dito e grande parte de nossas desconfianças em relação ao que nos é dito se deve a palavras que ouvimos.
Não foi difícil fazer esta crônica, pois estava trancada na garganta, e foi um exercício de linguagem interessante escrevê-la toda no Pretérito Imperfeito do Subjuntivo e no Futuro do Pretérito. Rapidinho, de pronto, lembras de que tempos verbais são esses? Vivência de escrita parecida com esta só em “Gramática do desamor”, que está no meu livro. Aprendi a conjugar verbos, sim. O amor, ainda não, mas continuo tentando.
Sexta, 28 de Março de 2008 às 07:04
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Uma das mulheres mais ciumentas que conheço tem o marido mais “galinha” que conheço. Sério! Eles são casados há muito, muito tempo, e as histórias de ciúmes dela são tão antigas quanto as traições dele. Ela faz “marcação cerrada”, cuida os horários, vasculha o celular, quer saber quem são as amigas, as colegas de trabalho, as conhecidas que ele cumprimenta em locais públicos. Ser mulher e amiga dele, meu caso, é um verdadeiro risco! As amigas se cuidam mesmo para evitar que, por qualquer bobagem, ela desconfie da amizade – e é amizade mesmo – e dê um beliscão nele ou arme um barraco.
O cara é uma pessoa ótima, inteligente, bom amigo, daqueles com quem a gente pode contar se um dia precisar. Amigo fiel, sim, mas um baita “traíra” com a mulher. Confiável como profissional e como amigo, mas um verdadeiro safado com a esposa. Ah, as contradições do ser humano… Quem quiser ser amiga dele, convivendo mais de perto, passa pelo crivo dela ou não pode chegar perto. Se chegar perto, não pode tocar nem abraçar. Beijinhos? Nem pensar, porque ela pula na jugular no ato!
Depois de anos de convivência e nenhuma prova em contrário, ela aceita as amigas dele e confidencia: “se um dia ele me trair, eu mato!”. Não diz que larga, mas garante que mata o homem… e ninguém pergunta o que ela faria com “a outra”. Bem, se ela realmente matasse as amantes que ele teve na vida, faria uma chacina, meia cidade estaria morta, porque não foram poucas, e todo mundo sabe disso, menos ela.
Certa vez, perguntei a ele como fazia para safar-se bem e nunca ter sido pego em flagrante. Contou-me as técnicas que usa e eu aprendi como o homem faz para não ser descoberto. É bem verdade que, para ajudá-lo, ele tem a maior cara de inocente, quase como a de um santo! Ninguém diria que ali está um traidor de primeira linha, a menos que olhe bem nos seus olhos, que dizem tudo! E as amigas de verdade, claro, passam longe desse risco por amor à própria vida. Ele é adorável, mas não vale a pena se enroscar num perigo desses.
Lembrei dessa história ao ler um estudo, divulgado no site do UOL, com o título “Ciúme excessivo leva à traição”, que diz o seguinte:
A notícia é triste para quem não suporta a idéia de flagrar o parceiro em outros braços: quanto maior o ciúme, maior a chance de ser traído. É o que mostra a tese de mestrado do psicólogo Thiago Almeida, do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), que teve como objetivo avaliar a relação entre o ciúme e a infidelidade.
O pesquisador entrevistou 45 casais paulistanos heterossexuais, de diferentes idades e classes sociais, com pelo menos seis meses de relacionamento. Em dois momentos, os participantes responderam questionários sobre comportamentos relacionados à infidelidade, como sair com alguém enquanto a namorada viajava, ou atender ao paquera no celular e fingir para o namorado que era só uma amiga. “Ser infiel significa quebrar qualquer compromisso pré-estabelecido entre os parceiros”, esclarece o psicólogo.
O comportamento que teve maior impacto negativo sobre os relacionamentos, de acordo com a pesquisa, foi o flerte pela Internet. “Sempre haverá novos meios para as pessoas se comunicarem, mas as pessoas têm uma incapacidade muito grande de se adaptar a essa realidade”, acredita.
O estudo de Almeida não teve o propósito de apurar quem é mais ciumento ou traidor, mas confirmou que o homem tende a ser mais infiel. Estatísticas internacionais sugerem que 60% dos homens e 90% das mulheres mantêm os pés no sapato. Mas elas não são bobas. “As mulheres estão mais atentas ao comportamento do parceiro do que o inverso e camuflam melhor a própria infidelidade”, observa.
Os resultados comprovam a hipótese da “profecia auto-realizadora”, citada por estudiosos, segundo a qual o ciúme excessivo é capaz de desencadear o comportamento infiel do parceiro. A explicação é que os conflitos constantes minam a qualidade do relacionamento, fazendo com que o temor se concretize. “Toda vez que a pessoa chama atenção da outra por ter olhado para alguém, ela a encoraja a olhar”, diz o psicólogo. Como quase sempre, a sabedoria popular se justifica: “Quem procura, acha”.
O que eu não disse ainda é que o tal amigo meu tem uma fórmula infalível para descartar mulheres que se interessam por ele, mas que ele não quer. Ele usa um argumento batido, que não magoa e que o deixa confortável: “Minha mulher é muito ciumenta…”.
Quinta, 27 de Março de 2008 às 08:09
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Eu também vi a final do Big Brother 8. Confesso que me surpreendeu o resultado porque, do jeito como a torcida de Gys estava animada, pensei que a cajuína venceria. Não torcia por ela, já disse, porque aquele confinamento em si mesma me cansou bastante. Porém, no último dia de programa, devo reconhecer que ela mudou a cara, estava até simpática. Que pena uma moça tão bonita ficar fechada em si mesma e tão pouco receptiva aos outros, mas enfim, cada um na sua e respeito por todos.
Agora, fico pensando: como a gente é cruel com os outros! Vai saber as razões do outro para ser como é… A gente não está na pele dele, não vive a vida dele, não teve as experiências, dores e mágoas que ele atravessou, mas… julga-o e quer mudá-lo, transformá-lo, para poder aceitá-lo. Por que é tão difícil compreender o outro? Talvez tenhamos dificuldade em aceitar a nós mesmos e, assim, somos impiedosos com os outros como somos conosco.
Aceitação é algo que devíamos praticar todos os dias na frente do espelho. Não a ponto de ignorar os próprios defeitos e achar que é o “soldadinho do passo certo” e os outros, os errados. Não ao exagero de querer se impor a todos como se fosse o dono da razão sempre. Não ao cúmulo de jamais avaliar suas ações, reações, comportamento e o modo de se relacionar com todos. Aceitação é amar a si mesmo, mantendo-se consciente de suas virtudes, qualidades, defeitos e limitações. “Tipo assim”: eu me amo, me aceito, me reconheço, me conheço, e mudo o que for preciso e possível… se achar que devo, claro. Por mim, não por imposição dos outros ou por medo da não-aceitação ou de rejeição. Até porque – a gente sabe – mudar sem convicção própria, apenas para agradar a opinião alheia, não tem sentido, não dura e não convence ninguém.
Quarta, 26 de Março de 2008 às 14:41
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
O sumiço do nosso cãozinho Billy, ontem, nos fez pensar no drama das famílias que têm um membro desaparecido. Colocamo-nos, Camila e eu, a pensar na dor terrível que deve ser isso! Imaginamos o sofrimento imensurável que as pessoas enfrentam quando um filho não volta para casa, quando um idoso desaparece da vista dos seus familiares, quando uma criança se perde na multidão.
Constatamos que não damos atenção às pequenas fotografias que vêm impressas na conta de luz com a imagem de pessoas desaparecidas e que não acreditamos nas mensagens que recebemos, via e-mail, pedindo divulgação da mensagem. Não checamos o endereço e o telefone fornecidos para ver se é um caso verdadeiro, às vezes nem lemos as informações, pensando tratar-se de vírus, e muitas são mesmo, por isso, são imediatamente descartadas. Algumas são trotes, e ninguém mais acredita, logo, vão direto para a lixeira do computador.
Hoje cedo, pesquisei na internet, via Google, a palavra ”desaparecidos” e surgiram vários sites. Um deles é o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas – CNPD (http://www.cnpd.org.br), que fornece informações específicas sobre pessoas desaparecidas em todo o território nacional e presta orientações, no item “onde procurar”, sobre como agir em situação como essa.
Visitei rapidamente o site www.desaparecidos.com.br, que tem nomes e fotos de desaparecidos em todos os estados brasileiros e uma lista de pessoas que foram encontradas.
Procurei sites no Distrito Federal para saber o que acontece em Brasília, onde moro, e no Rio Grande do Sul, o meu estado. A Secretaria da Segurança Pública do RS tem um site (http://www.desaparecidos.rs.gov.br) que mostra fotos e dados sobre 165 pessoas (crianças, adultos e idosos) desaparecidas em várias cidades gaúchas, além de uma lista de pessoas que foram encontradas, indicando o DEIC - Departamento de Investigações Criminais - para alguma informação a respeito.
Tentei o link que acredito ser do Ministério da Justiça (http://www.desaparecidos.mj.gov.br/Desaparecidos), mas deu erro e não pude entrar.
Isso é uma pequena amostra do que existe na internet sobre o assunto, mas o que costumamos fazer? Se não temos notícia de que alguém próximo vivencia esse drama simplesmente damos de ombro, não nos envolvemos com o problema da comunidade onde vivemos e, tampouco, de alguém que não conhecemos. Não praticamos a solidariedade porque achamos não ter nada a ver com isso, a menos que aconteça conosco – e que Deus nos livre disso!
Um mínimo de compaixão é o que todos precisamos para sermos solidários. Interessar-se pelo outro é compartilhar a sua dor e, podendo, prestar alguma ajuda. Se não pudermos fazer algo concreto, ao menos com uma palavra, uma oração, um pouquinho de solidariedade e interesse. Minha prece hoje foi pelas famílias dos desaparecidos. O problema é muito maior do que se pode imaginar, está além dos noticiários, que não veiculam esse tipo de informação todos os dias, e de seriados de televisão. Ao tomar contato com essa dor alheia, mudou a minha indiferença.
Agora, não tem nada a ver com o que eu dizia sobre desaparecimento de pessoas: um poema antigo, em espanhol, fala de perdas de amor pelas quais sofremos muito. Desconheço a autoria. Curiosamente, eu o reencontrei num site sobre desaparecidos. Acho bem interessante o jeito de dizer isso ao outro, mesmo que ele não saiba:
Al perderte yo a ti, tú y yo hemos perdido.
Yo porque tú eras lo que yo más amaba
y tú porque yo era el que te amaba más.
Pero de nosotros dos, tú pierdes más que yo;
porque yo podre amar a otros como te amaba a ti,
pero a ti no te amarán como te amaba yo.
Terça, 25 de Março de 2008 às 08:00
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Só quem tem animais de estimação pode entender o que eu senti hoje e que é o motivo da minha ausência do blog hoje. Não pude vir no horário de (quase) sempre, de manhã cedinho. Dormi pouco esta noite, três horas apenas. Perdi o sono sem razão aparente. Vi um filme para passar o tempo e dormi de novo às 4h. Às seis e meia, ouvi os latidos dos cãezinhos, mas não à porta, como sempre. Os latidos vinham de longe e tinha a impressão de que estavam no fundo do quintal. Levantei e levei um susto! O portão estava escancarado! Saí à rua de camisola, nem me dei conta disso. Três dos meus quatro cães brincavam na rua e um deles estava sumido.
Chamei minha filha, botamos os três bichos no carro e saímos pelas ruas próximas de casa, gritando por Billy, o sumido. Camila me acompanhou na busca e eu já pensava onde haveria um megafone ou um carro de som para alugar, de modo a dar o alarme em todas as casas. Andamos por todas as ruas e… nada!
Precisava ir para o trabalho e ainda tinha de tirar a camisola. Já me imaginava entrando em casa alheia vestida (?) daquele jeito, caso visse o meu bicho em uma delas, mas a causa era nobre e o tempo, curto. Explicações ficariam para depois e da saia justa, se houvesse, eu me livraria. Não dava tempo de voltar para dentro de casa e trocar de roupa e, no susto, isso ficaria para depois.
Perguntamos para todas as pessoas que encontramos pelas ruas se não teriam visto um filhote Poodle bem branquinho. Domésticas chegando às casas, peões de obra se instalando no serviço, mulheres passeando com cachorrinhos, homens fazendo Cooper… ninguém que andasse pelas ruas desde às 6h havia visto o Billy.
Biiiillyyyyyyyyyyyyyyy!!!
Au-au! Au-au! Au-au!
Biiiillyyyyyyyyyyyyyyy!!!
Au-au! Au-au! Au-au!
Era eu gritando por uma janela do carro e Camila pela outra. Nossos gritos eram intercalados com os latidos do pai dele, Buddy, do tio Lucky e do irmão Placky. Uma sinfonia de gritos e latidos dentro do carro que ninguém merece de manhã cedo, mas não nos apedrejaram por isso. Pelo contrário, encontramos muita solidariedade, inclusive da cachorrada, que parecia responder ao nosso chamado, como se dissesse: “Aqui não está!”. Era latido por todos os lados, mas nenhum que se parecesse com o grito esganiçado do pequeno Billy.
Com o coração partido, abandonei as buscas. É o tipo de situação que não justifica atraso no serviço. Sente a cena: “Chefe, cheguei tarde porque um dos meus cachorrinhos sumiu”. E o “quico”? Nessas horas, a profissional precisa falar mais alto que a mãe canina. Camila, entretanto, não se deu por vencida e saiu com Buddy ao lado e revezou a caminhada com Lucky, poupando apenas o outro filhotinho, Placky, irmão de Billy.
A caminho do trabalho, eu carregava o coração na mão e pedia a bênção do retorno do nosso bicho, enquanto pensava que havia dito à minha filha da minha confiança no Poder Divino e na Senhora dos Animais. Ela, entretanto, chorava muito e chorou até encontrar o Billy, e depois chorou exatamente por isso. Chorava, mas caminhava, e isso é uma lição: choramos, sim, mas continuamos em frente. Ninguém adivinharia que o animal havia sumido se não fizéssemos todo esse alarde. “Sumiu…buááá”, não. Sumiu…buááá, sim, mas vamos procurar. Eu não conseguia chorar, estava preocupada demais para chorar, pensava apenas em procurar o bicho.
Na metade da manhã, o telefone toca na minha mesa e era Camila me dizendo que Billy já estava em casa. A danadinha primeiro resolveu tudo e só depois me deu a notícia. Eu estava com outras pessoas, que, claro, não sabiam do acontecido e não podia fazer um alarido. Só pude responder, contida: “Que bom, obrigada pela notícia”. Na primeira brecha, peguei o celular e escapei da sala para comemorar com ela. Ufa, tudo em paz e a família animal, enfim, reunida. Para nosso alívio, uma família acolheu o Billy e avisou que estava com ele. No intervalo do almoço é claro que fui com minha filha agradecer pela hospedagem carinhosa e pelos cuidados. A mulher, encantada com o cãozinho, chorou ao lembrar do bicho dela, também Poodle, que morreu. Ela sabe quanto dói a perda de um animal e se apressou em devolvê-lo à sua família de estimação, nós, no caso. Abençoada seja ela, abençoada somos nós. Para uma segunda-feira foi emoção demais…
Segunda, 24 de Março de 2008 às 18:37
Vera Pinheiro