A verdade
Vera Pinheiro
Ontem não tive humor para falar do Dia da Mentira. A data não me agrada. Mentiras não me agradam nem de brincadeirinha. Quando eu era criança, detestava as pegadinhas que aplicavam e me aborreci com elas pelo resto da vida. Prefiro a verdade sempre e já quebrei muito a cara por conta disso, porque nem todos estão preparados para ouvi-la e alguns não querem mesmo saber dela, preferem a fantasia, não a realidade como ela é.
A verdade é que, por mais preparados que sejamos, nós vivemos a ilusão, e não escapei disso. Não porque fechasse os olhos, mas por acreditar que ninguém mentiria, que tudo o que me dissessem era verdadeiro. Afinal, a gente julga os outros por si mesmo. A mentira que mais me doeu foi alguém, que eu amava muito, ter dito que também me amava na mesma medida, do mesmo tamanho, exatamente como eu amava. Era um “te amo” para lá e um “te amo” para cá que parecia conto da carochinha, lindíssimo! Pois era apenas um conto da carochinha mesmo. Bonito, mas nada além disso. Quando o romance virou um nada, sofri, me desiludi, me esgotei em lágrimas. Tanto chorei que não vi outras pessoas que passavam pela minha vida. Fiquei enclausurada em minha dor por anos, a espera de um retorno que não aconteceu e do consolo que nunca chegou.
Muitas luas se passaram até que acordei do conto de fadas que vivi sozinha. Ao abrir de novo a janela do coração, olhei para o mundo e vi que ele continuava rodando, apesar da minha frustração. A vida seguia e eu estava atrasada para o meu encontro com a felicidade, e já devia tê-la incorporado aos meus dias, mesmo estando sozinha. Todos os sentimentos se resumiam ao passado, onde me tranquei em luto, chorando a perda e a desilusão por ter acreditado no que não era verdade.
Mas teria sido tudo uma mentira? Depois de muitos anos de choro, penso que nem sempre a mentira é como parece. A gente quer que o amor seja inteiro e por toda vida. Às vezes, ele não é uma mentira, mas é uma verdade que dura pouco tempo, menos do que a gente gostaria. Aprendi, então, o valor de cada momento bom no instante em que ele acontece. Se passar, e passa, não pode se transformar em eterna saudade, daquelas que impedem a gente de viver e de ser feliz de novo.
1 comentário Quarta, 2 de Abril de 2008 às 08:22 Vera Pinheiro