Castigo
Vera Pinheiro
Coisa chata é vizinha metida na vida alheia, né, não? Pois eu preciso abandonar essa mania de me meter na vida dos cachorros dos vizinhos… A vida dos humanos eu não cuido. Podem chegar e sair a qualquer hora que não fico bisbilhotando. Sou tão voltada para o meu próprio canto que, certo dia, o vizinho que morava em frente se mudou e eu não vi. Só percebi quando, à noite, chegando em casa, percebi as luzes apagadas e pensei que estavam viajando.
Já com os bichos… a coisa é bem diferente! Não resisti quando o bichano de um vizinho se enroscou nas minhas pernas e parecia estar faminto. Peguei um pratinho de ração e dei para ele, que comeu vorazmente. Agora não sei o que fazer com ele, pois todas as noites vem miar no meu portão.
Sabes quando a gente tem filho pequeno? O filho de outra chora e a gente fica atenta. Mais ou menos como toque de celular. Um toca e já olhamos o nosso.
Recém tinha entrado na garagem e ainda não tinha tirado o salto, quando ouvi um cachorro latindo do lado de fora. Os meus quatro estavam do portão para dentro, então espiei para ver o que acontecia na rua. O choro canino vinha de uma casa a poucos metros da minha. Um poodle preto, lindo, choramingava no portão da casa da vizinha, e pulava na grade, como se pedisse para entrar.
Oh, coitadinho! Vai ver a dona dele entrou com o carro e não percebeu que ele ficou de fora, quando fechou o portão. Vou socorrer!
- Vizinhaaaaaaaa! Vizinhaaaaaaaa!
Nada. As luzes da casa estavam acesas e do portão eu podia ver o movimento das pessoas.
Ah, acho que não estou boa de grito. Vou chamar minha filha para gritar comigo.
- Sério, mãe?! Pobre do cãozinho. A vizinha deve ter chegado cansada, nem percebeu que ele não entrou. Eu te ajudo, vamos lá.
Atravessamos a rua e, as duas, aos gritos, em frente ao portão da outra.
- Vizinhaaaaaaaa! Vizinhaaaaaaaa!
Um quarteirão para cima e para baixo, um quarteirão para todos os lados, nossos gritos podiam ser ouvidos sem qualquer dificuldade.
- Será que aconteceu alguma coisa com a coitada?! Ela não ouve a gente…
Eu olhava para Camila e ela olhava para mim. Quanto mais desconfiadas com o que poderia ter sucedido e que explicasse os ouvidos moucos da vizinha, mais gritávamos, já pulando mais que o cachorrinho. Ele latia e pulava. Nós, já roucas, continuávamos aos pulos. Quem passasse na rua, àquela hora, não imagino o que pensaria de nós.
Finalmente, a janela se abriu e a mulher botou a cabeça para fora.
- Vizinha, tudo bem aí? Seu cãozinho ficou para o lado de fora…
- Ele está de castigo e vai ficar aí!
Ainda bem que já tinha escurecido. A nossa cara estava roxa de grito e de vergonha. Quem mandou se meter com a vida do cachorro alheio?
1 comentário Quinta, 3 de Abril de 2008 às 11:18 Vera Pinheiro