Arquivo de 4 de Abril de 2008

Incompreensão

Vera Pinheiro
Solidão tem vantagens e desvantagens. Ela é aquilo que a transformamos. Pode ser muito ruim se não fizermos nada além de nos queixarmos dela e pode ser produtiva se a aproveitarmos como espaço para autoconhecimento e para circularmos livremente em nossa própria vida. Independe de estarmos com pessoas, pois às vezes nos sentimos muito sozinhos mesmo acompanhados.

Muitos não entendem como é possível uma mulher levar a vida sem ter um namorado ou um marido. Um amante, que seja. Um “ficante”, ao menos. Algumas pessoas acham que todo o encanto da existência se resume nisso e não conseguem se sentir felizes se estiverem sozinhas. Por isso, pulam de um amor para outro, renovam constantemente pares e paixões e têm sempre alguém ao lado. Outras, e não são poucas, criticam quem não tem pessoa além de si mesma e acham que só pode ser defeito de fabricação, pois na opinião delas “é impossível ser feliz sozinho”, como diz uma música.

Será mesmo assim? Todas as mulheres estão destinadas a se relacionar amorosamente? Todas nós precisamos de um homem como complemento? Nossa felicidade depende disso?

Cada um sabe de si, de suas necessidades e vontades. Da minha parte, mais me aborrecem os questionamentos que fazem a respeito da minha solidão do que a própria, com quem me entendo relativamente bem. É verdade que, às vezes, eu e minha solidão temos algumas crises de incertezas, mas isso se deve à minha incompreensão a respeito dela, quando me mostra facetas que representam aprendizados nem sempre fáceis e serenos. O cúmulo da solidão é quando preciso trocar lâmpadas, do que tenho medo. No mais, me viro bem.

Fico realmente chateada quando me enchem de perguntas: “Estás sozinha ainda?!”. O “ainda” me incomoda, pois parece que as pessoas dizem de alguma incompetência para me desempenhar no amor, e não é nada disso. A quem eu preciso provar alguma coisa quanto a isso senão a mim mesma?

“Como assim, já terminaste aquele namoro?!”. O acréscimo desse “já” me dá agonia, porque o meu tempo meço eu, e para isso levo em conta todas as minhas experiências, sejam bem-sucedidas ou fracassadas. Os intervalos entre um namoro e outro dependem muito do quanto o último foi bom ou não, e disso só eu sei.

“Por que acabou o relacionamento?!”. Não entendo a surpresa e a indagação! Preciso ter respostas para tudo? Quem disse que estou disposta a um rosário de lamentações e a fazer confidências? Se quisesse contar, não precisaria que me perguntassem, iria direto ao ponto, como faço com quem tenho intimidade.

Mais insuportável ainda é quando misturam todos os meus sentimentos e tentam me explicar sem ter argumentos. Muitas vezes, quando discuto, brigo, reivindico e me posiciono sobre um assunto colam em mim uma tarja: “Ah, tu és muito solitária… És assim porque estás sozinha há muito tempo”. Do que mesmo a gente estava falando? Uma coisa não tem nada a ver com a outra!

Por essas e outras, a crônica desta semana é “Solteira, sim, e daí?” e poderá ser lida neste sábado aqui no blog e no jornal A Razão, de Santa Maria, RS (www.arazao.com.br). O título é uma boa resposta quando perguntam se a gente está sem par.

Adicionar comentário Sexta, 4 de Abril de 2008 às 05:44 Vera Pinheiro


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