Crônica da semana (*)
SOLTEIRA, SIM, E DAÍ?
Vera Pinheiro
Como tudo na vida, ser solteira tem um lado bom e outro nem tanto, prazeres e agruras, facilidades e complicações. Não é difícil viver sem um par constante, não compartilhar os dias com alguém e ter relacionamentos que se alternam com as estações do ano. Difícil é conviver com a desconfiança de que, por sermos sozinhas, não somos pessoas boas, confiáveis e amorosas; enfrentar perguntas a respeito do nosso celibato e resistir a cobranças sobre a qualidade da vida que levamos.
Tudo vai bem: emprego seguro, situação financeira equilibrada, viagem nas férias. “Que graça tem viajar sozinha?! De que adianta ter dinheiro se não tem um homem ao lado?”. Muitos não entendem que solteiras podem ser bem-resolvidas e que, por razões que lhe pertencem, não estão dispostas a dividir seus interesses, querem ser donas do seu tempo, não compartir seu espaço, não pedir opinião alheia e manter sua independência amorosa e material.
Se nos viram com um namorado e depois observam que circulamos sem companhia, querem saber: “E aquele, onde está?”. Se dizemos, simplesmente, que não estamos mais com ele, emendam a pergunta: “Mas o que foi que aconteceu?!”. Não estamos dispostas a fazer um relatório nem a confidenciar detalhes de nossa vida com todos e, muito menos, com qualquer um. Então, tomamos uma respiração profunda e dizemos: “Acabou, só isso”. Tentamos, em vão, encerrar o assunto, porque a curiosidade alheia não tem limites, sempre querem saber mais. “Mas e daí, me conta!”. Olhamos para o tempo e desviamos o assunto: “Vai chover, não vai?”. Ou corremos para o banheiro, antes de sucumbirmos ao ímpeto de proferir um desaforo.
Aliás, nossas reações precisam ser muito bem pensadas. Se estamos solteiras, sem paixões, amados ou transeuntes em nossas relações, e discordamos de uma opinião, não pensam que estamos defendendo os próprios direitos. Já dizem logo: “É uma mal-amada e infeliz”. O rótulo é inscrito em nossas testas, mesmo que uma coisa não tenha nada a ver com a outra. Nossa postura é avaliada a partir de nossos pares, e isso é uma injustiça, pois, afinal, um homem nunca foi garantia de felicidade nem significa realização. Pode ser que nossos objetivos não incluam um casamento e que nossos esforços se concentrem em outras metas. É apenas isso, mas os teimosos implicam com a solidão que não compreendem.
Se não nos enquadramos num modelo de beleza tipo exportação, acham que o problema é esse. “Feia desse jeito, não pode mesmo arrumar alguém”. E quem disse que só as bonitas vivem acompanhadas? Se somos lindas, mas estamos sós, acham que deve ser defeito de caráter, que somos chatas, insuportáveis, e que não sabemos nos relacionar com os outros. Não pensam na possibilidade de que não estejamos a fim de histórias sem fundamento e que nos cansamos de pessoas que não nos acrescentam. Pode ser que ainda queiramos, sim, alguém, mas não temos pressa nem precisamos nos agarrar ao primeiro que aparece.
Sair em grupo é um verdadeiro teste de confiança! As amigas inseguras afastam os seus homens da nossa companhia. Não percebem que somos fiéis às amizades e que não temos intenção de trair quem quer que seja, até porque isso é muito trabalhoso. Sozinhas, percebemos melhor a qualidade das pessoas e evitamos todo tipo de embaraço para o nosso lado. Sabendo o que queremos, não entramos em disputas que não valem a pena. Mas quem convence as amigas disso? Muitas nos tornam o que não somos: mulheres fatais, a que nenhum homem resiste. Ah, se fosse assim… Talvez não estivéssemos sozinhas e, muito provavelmente, não escolheríamos os namorados das amigas, porque uma boa amizade é mais difícil do que encontrar um namorado.
E por falar em conquista, é impossível esquecer que estamos sozinhas. Abrimos uma revista e lá estão mil conselhos para turbinar a relação e como manter um homem cativo ao nosso lado. Vamos à internet e não dá outra! “Quer namorar? Seu par perfeito está a um clique”, como se isso fosse fácil. “Como conquistar um homem”, sem que estejamos interessadas nisso. Então, da próxima vez que me perguntarem, não vou titubear: “Estou solteira, sim, e daí?”. Talvez perca alguns amigos, mas não a paz, pois esta, sim, me é essencial.
(*) Crônica publicada no jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria, RS, edição de 5 e 6 de abril 2008.
Adicionar comentário Sábado, 5 de Abril de 2008 às 05:54 Vera Pinheiro