Os guardados
Vera Pinheiro
Às vezes, me aborreço com os meus guardados, que ocupam espaço demasiado, e sinto vontade de me desfazer de tudo o que representa apenas lembranças e saudade. De vez em quando, gostaria de começar histórias novas sem vínculo com o que já vivi, mas não pode ser assim. Tudo tem um elo com o ontem, mesmo que a gente não perceba ou não queira admitir. As experiências não são desconectadas, nós somos o todo de nossa vida, desde o princípio.
Para mim, representa um verdadeiro sacrifício rasgar papéis, apagar mensagens, cortar ligações com fatos e pessoas, mas reconheço a necessidade de refazer a energia que fica estagnada quando não há continuidade, se é apenas passado, que não volta mais. Por isso, de vez em quando, faço uma limpeza em meus guardados e tento não me agarrar à saudade, especialmente se ela representa dor.
Mas o que seria de mim sem minhas lembranças e sem os meus guardados, que me contam de novo o que não quero esquecer por ter sido feliz?
Nesta semana, dei graças aos céus porque minha amiga Zilar Ana Viero Giuliato guardou uma foto minha por décadas! Vê aí abaixo: estou com o filho dela, Giuliano, na garupa do meu cavalo, que não era meu, aliás, mas emprestado. Hoje, Giuliano não é mais esse gurizinho louro, já é homem feito, claro!
Fiquei muito emocionada quando recebi este presente, que compartilho aqui. Ah, como eu era bonitinha!!! E o quê que o tempo faz com a gente…rsrsrsrs. Não sei que idade eu tinha nesse retrato e, por mais que me esforçasse, não lembrei, mas, pelo tamanho do salto da minha bota, já não era uma criança. É… faz muito tempo que eu uso salto alto e gosto de roupa preta.
Por essas e outras, não me desfaço dos guardados. Se a lembrança é boa, sempre é bom lembrar. Essa imagem me remeteu, em passeio pela memória, ao Rio Grande do Sul e a um prazer inesquecível: cavalgar. Ah, que saudade feliz disso!
É curioso como a vida nos fala. Faz bastante tempo que Zilar disse que enviaria foto minha com o filho dela. Muitas luas se passaram e justamente agora, quando estou num processo de mexida nos guardados e querendo jogar fora muita coisa, ela faz este resgate de um momento feliz do meu passado.
Ok, vida, eu me rendo e compreendo: nem tudo merece ser esquecido e jogado fora da lembrança.
Amada Zilar, muitíssimo obrigada pela foto! Amei, amei! Beijinhos mil para ti e para Giuliano.
Eu e Giuliano… tão lindos, né?
Zilar refrescou a minha memória em mensagem que me enviou, contando que essa foto com Giuliano foi tirada em um fim de semana que passei em Vista Alegre (RS), na casa dos pais de Zilar e ela, que mora em Porto Alegre, também estava lá. Segundo ela, na época, eu já trabalhava em rádio. Putz, eu era mesmo uma menina quando entrei na lida da comunicação!
O Giuliano hoje é Juiz de Direito. Já trabalhou em Dom Pedrito, em Pelotas e atualmente está em Passo Fundo. Vê só como é o mundo: carreguei na garupa do cavalo um futuro Juiz de Direito!
Obrigada, Zilar! Adorei tudo!
Quanto a este post, o meu amigo Cirilo Braga, jornalista dos mais inspirados, disse algo que acalmou meu coração: “Sobre guardados, acho que atualmente as pessoas deixaram de lado essa preocupação; com o apelo da era digital, nada se guarda, tão menos as lembranças. As pessoas atualmente evitam recordar o que seja, mesmo as coisas boas. Como se a vida pudesse recomeçar a cada minuto, sem um antes”. Obrigada, amigo! Estás coberto de razão!
1 comentário Quinta, 10 de Abril de 2008 às 04:13 Vera Pinheiro