Ah, o amor…
Vera Pinheiro
O amor é lindo, concordo. Minha discordância é quanto a associação dele com o aprisionamento de quem ama e com o que muitas pessoas fazem consigo mesmas, quando estão amando. Há quem se transforme numa sucursal do amado, impressionante! Algumas se tornam parte do outro e parecem coladas à vida dele. Chegam a esquecer da própria vida, do que querem e do que são. Verdadeiros apêndices, anexos da pessoa amada, não lembram mais de si.
Ontem, eu conversava sobre isso com um homem inteligente, bonito e com idade não se pode ver no rosto, pois aparenta menos. Aliás, ele figura entre as minhas fotos, mas não vou dizer quem é.
Discutíamos o amor, seus encontros e desencontros, e sobre os prazeres e as agruras da arte de conviver com alguém. Conheço-o há alguns anos, mas me surpreendi quando afirmou que ama de um jeito tão desprendido que a felicidade da pessoa amada importa mais a ele do que a própria felicidade, e ama tanto e a tal ponto, que não se importaria se a pessoa amada o deixasse para ser feliz com outro. Ele não tem razão para mentir para mim ou para enfeitar sua opinião, por isso até acredito que pense mesmo assim. É um romântico, esse meu amigo. E eu, nada desprendida, admito.
A felicidade da pessoa que amo é importante para mim também, claro. Mas não coloco a felicidade dela acima da minha. Eu me amo o bastante para me querer feliz, e por minha conta, sem depender do outro. Não quero dar peso aos ombros de ninguém, e ninguém tem de me fazer feliz. Eu quero me sentir feliz por minha vida, e somar a felicidade que sinto com a felicidade do outro. E não me entreguem um fardo desses, que eu recuso!
Por isso, por mais lindinho que seja o homem, se colocar minhas mãos entre as dele e fizer olhinhos de apaixonado para dizer, sussurrando: “Eu não vivo sem você”… eu saio pulando num pé só, porta afora! Cruz credo! Não quero um peso desses! Se houver uma música ao fundo, eu taco o dedão e desligo o som. Se não achar o “stop”, puxo o fio da tomada! Se não achar a tomada, tampo os ouvidos ou grito até perder a voz!
Se o maravilhoso me agarrar pela cintura e disser: “Você é a razão do meu existir”… eu retruco! “Não messsssssmo!”. Talvez emende um “sinto muito”, já dizendo “tiau” lá da porta. Se for dito entre os lençóis, é provável que eu não espere me vestir. Junto as peças, faço a trouxa e já estou do lado de fora!
Já pensaste na dureza que é alguém transferir para nós a responsabilidade de sua felicidade? É um encargo pesado demais!
Já observaste que há homens e mulheres que se mudam para a vida da pessoa amada e se esquecem de viver as suas vidas? “Amor e independência” combinam bem, mesmo que muitos não acreditem nisso. Eu creio e, além disso, assino crônica que tem esse título e que amanhã vou postar aqui e publicar no jornal A Razão (Santa Maria, RS).
Ah, e me desculpa pelo atraso do recado de hoje. Não, não foi culpa da bendita reforma…rsrsrs. O dia esteve agitado desde cedo.
2 comentários Sexta, 11 de Abril de 2008 às 17:56 Vera Pinheiro