Crônica da semana (*)
AMOR E INDEPENDÊNCIA
Vera Pinheiro
Amor e independência podem andar juntos, e devem. A convivência com a pessoa amada não implica desistência de si mesmo, abandono de sua identidade para ser como o outro é, tampouco deixar de viver a própria vida.
Mesmo que alguém ame muito, não precisa esquecer dos amigos, ter apenas relacionamentos comuns aos dois, descuidar completamente da família, evitar compromissos sociais se o outro não puder ir, afastar-se de todos os conhecidos e somente fazer programas de casal.
Por maior que seja o amor, ele não exige que um respire pelo pulmão do outro, só fale pela boca alheia, que as opiniões sejam exatamente iguais e até os pensamentos sejam idênticos.
Ainda que o amor seja lindo, e é, ele não impõe que as pessoas vivam sempre em função da pessoa amada, não tenham olhos para o seu entorno, renunciem ao seu projeto de vida pessoal e abdiquem de seus sonhos para viver a realidade do outro.
Por mais fabulosa que seja a história de amor, ela não sugere que todos os demais interesses sejam desprezados, que o gosto de um seja o mesmo do outro, que os prazeres sejam semelhantes.
Mesmo que o amor seja grandioso, ele não pede que seja posta de lado a própria vontade para fazer absolutamente tudo pelo outro, como ele quer e o que exige.
O amor não subjuga um em favor do outro, não estabelece que um mande e outro obedeça, não obriga que um oprima e outro se submeta.
O amor não requer a perda da autonomia de quem ama, não institui que a pessoa se transforme na sombra do outro, seja a sua cabeça ou se converta em parte vital do seu corpo, e não supõe haver vencedores e vencidos, porque não incentiva disputas.
O amor invade até as vísceras, mas não se apropria do ser humano, que precisa criar vínculos, mas pode dispensar prisão. O amor é leve. Se pesar ou causar dor, se sufocar ou limitar demais o espaço alheio, será dominação.
O amor se abastece de sinceridade, de lealdade e de confiança, e disso resulta a harmonia que prescinde de monitoração. Ele não precisa exercer controle sobre a vida de quem ama. Faz acordos, combinações, acertos em que ambos concordam. Respeita os desejos do outro, não os rejeita para fazer o bem de um apenas. Ele não pressupõe que uma pessoa viva exclusivamente para outra, anulando tudo o mais que há em volta, como se nada, além do amor, houvesse.
O amor não quer dizer a perda de si mesmo ao se dar para alguém, deixar de ser o que se é e reduzir toda a existência ao que alguém deseja. O amor não exige, ele dá e recebe, troca, soma, acresce. Não esfacela a individualidade, não restringe a personalidade, não arrasa os planos de quem ama.
O amor não é discurso solitário, é diálogo. Não é voz que fala mais alto e cala o argumento do outro, é sussurro que pergunta se algo está bom para os dois. Não é sucumbência, é concordância com aquilo que não prejudica um para que o outro seja beneficiário.
O amor não se propõe a aprisionar, mas a proporcionar que as pessoas cresçam juntas e caminhem lado a lado, se assim o desejarem. Não é, necessariamente, uma fusão; sempre será um complemento. Não supre todas as carências e necessidades, pode ser um estímulo que ajuda a superá-las ou a resolvê-las.
Cada um continua a ser o que é, e nisso está a riqueza do convívio, que junta duas vidas, mas não obriga que se fundam em uma só, porque os indivíduos podem, perfeitamente, continuar distintos, e a vida precisa ter sentido, sim, apesar da ausência da pessoa amada ou de seu afastamento temporário.
Se gerar sofrimento, ansiedade, insegurança, angústia e medo de perder a pessoa amada, não será amor, um sentimento que constrói esperanças, dá alento e faz a vida melhor. Pode ser dependência ou submissão, e isso não é sinônimo de amor.
(*) Crônica publicada no jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria, RS, edição de 12 e 13 de abril 2008.
Adicionar comentário Sábado, 12 de Abril de 2008 às 05:34 Vera Pinheiro