Vera Pinheiro
E não é que inventam data para tudo e qualquer coisa?! Ah, eu também quero – e vou – comemorar o Dia Internacional do Beijo! Beijar é muito bom! Queima calorias, libera seratonina, hormônio do bom-humor, e faz um bem danado!
Tenho histórias e histórias de beijos inesquecíveis, daqueles que, só de lembrar, a gente perde o fôlego. Esses eu não conto…
O mais romântico foi num elevador. Entrou no cenário de uma crônica que fiz, mas o homem saiu da minha vida há tempos.
O mais bonito foi de “cabaninha” e o imortalizei num escrito, mas o par da cena também sumiu.
O mais surpreendente foi o que não aconteceu, porque o cara disse, um instante antes, que era gay.
O mais sonhado foi num encontro, logo que uma porta se abriu, depois de longa espera.
O mais feio foi o primeiro, na adolescência. Não gostei da babada do guri.
O mais delicioso foi o de um moço muito criativo, que faz tempo que não vejo.
O mais tímido foi o que houve num reencontro. Como não sabíamos o que dizer, beijamos.
O beijo de conquista foi o de meu marido, contra uma parede e com um pedido de casamento logo depois.
Gosto de beijos e de beijinhos. Detesto quando alguém me manda um “beijão”. Parece que é dar moranga para porco! Questão de preferência, só isso.
Os melhores beijos que me deram tinham um quê de proibido ou eram apressados. Os melhores beijos que eu dei continham o maior dos meus desejos.
Não sei para ti como é que beijo funciona, mas para mim a pessoa precisa beijar bem! Tem de ter uma pegada boa! Se o beijo não encaixa, o resto trava. E se travar, acabou tudo antes mesmo de começar qualquer coisa.
Não vou perder a data, claro. Não se deixa para depois, se a gente pode beijar agora! Então, muitos beijinhos para ti. Ou “mil bicocas com carinho”, como eu dizia nos meus tempos de rádio…
Domingo, 13 de Abril de 2008 às 12:17
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Ontem, às 11 e meia da noite, deitei a cabeça loura no travesseiro e fechei os olhos para dormir. Ainda não tinha dado boa noite para o meu anjo da guarda, quando a filha entrou no quarto, esbaforida.
- “Mãe, mãe! Tem um gato miando lá fora! Vamos ver!”.
Ela não me deixou opção além de voar da cama. Quando dei por mim, estava de camisola no portão de casa.
- “Não tem importância, mãe. Todo mundo aqui já está dormindo”.
- “Menos nós e a família animal”, retruquei.
- “Ah, então é por isso que o Billy latia tanto e não obedecia quando eu o mandava ficar quieto… Ô cãozinho bom!”.
- “Isso não é miado, é choro de gato!” – insistiu Camila, apurando o ouvido para saber de onde vinha o som fininho, que cortava o silêncio da rua àquela hora.
Os cachorros à nossa volta, ansiosos, já não latiam, mas mordiscavam as minhas canelas como se dissessem: “Vai lá, toma uma providência!”. Os cachorros desta casa são cheios de autoridade! Se dermos ousadia, mandam na gente! Nós duas e os cachorros no portão, dando graças que a chuva tivesse dado trégua.
- “Aaaai, o que foi isso?!”.
Era Pitty, o gatinho mais novo, que passou o rabo nas minhas pernas e eu dei um salto e um grito.
- “Ah, meu bem! Não faz isso que a mamãe assusta… Vai para dentro!”.
Ele entrou em casa e eu me colei ao portão, com a orelha esticada.
- “Vem dali, mãe, da casa da vizinha da frente!”.
A mulher acabou de se mudar, é moradora nova na rua, e ainda não mostrou a cara. Nunca deu um “bom dia”, até porque parece que ela se movimenta apenas à noite. Já a vimos varrendo a varanda quando passava de 22h, mas, afinal, cada um tem seus hábitos e ninguém tem nada a ver com isso.
Titubeei um pouco, mas num minuto estávamos no portão da outra, tentando não gritar, mas falando alto o nome do nosso gato preto para que ele ouvisse as vozes das mamães felinas, nós, no caso.
- “Happy! Happy!”
Parecia um coral bem-ensaiado. Eu terminava minha capela e Camila começava a dela, naquele nosso tom de chamar os gatos, quase miando como eles.
- “Happy! Happy!”
O miado veio forte do quintal da casa em frente à nossa.
- “Mãe, é o Happy! É ele!”
- “É mesmo! Happy! Vem com a mamãe!”
Nós, miando daqui e o gato miando de lá, uma cena!
- “Happy! Vem…”
Não terminamos a missão. Num átimo, a rua ficou to-tal-men-te às escuras, acabou a luz! E nós nos acabamos de correr, de volta para casa, mais assustadas do que um gato arisco!
Ainda bem que somos mulheres organizadas! Fui ao lugar onde estão as velas, peguei uma caixa de fósforos e tentei acender. Atrapalhada, deixei cair no chão a caixa e fiquei sem fogo, me arrastando no escuro para catar os palitos.
- “Mããããe!”
Camila me chamava lá de fora, onde estava, no escuro.
- “Já vou, calma aí!”
Vela e fósforos numa mão e duas lanternas na outra. Na pressa, caíam uns pingos de vela nos meus dedos, mas sublimei.
A rua era um breu de uma ponta a outra! Eu não enxergava a meio metro, mas podia ver o céu estrelado.
- “Que lindas estrelas, minha filha! Olha isso!”.
- “Mããããe! Olha o gato, ele está lá no fundo da casa da vizinha!”
- “Eu não posso ver o bicho! Happy é um gato preto e isso aqui está muito escuro!”.
- “Ele deve estar preso! Vamos chamar a vizinha”.
Camila é tão decidida! Não tive tempo de lembrá-la da hora: passava de meia-noite!
- “Vizinhaaaaaaaaaaa! Vizinhaaaaaaaaaaa!”.
Ah, meus sais! Vão jogar pedras em nós! Só pensei, mas não disse nada, até porque estava com medo demais. No escuro, de camisola, chamando um gato perdido, os cachorros latindo no meu portão, junto com a filha no portão da outra e duas lanternas poderosas mirando para a casa alheia. Porém, não iria abandonar a causa, por isso comecei a gritar também.
- “Vizinhaaaaaaaaaaa! Vizinhaaaaaaaaaaa!”
Nem sinal de vida do lado de dentro da casa. O gato, a essa altura, miava mais alto do que os nossos gritos.
- “Está ali, vem vindo. Happy! Vem aqui, vem…”.
Camila não precisa mudar o grau dos óculos. Consegue ver, a metros de distância, um gato preto no escuro, enquanto eu apenas tentava enxergar alguma coisa, mas nada via além da minha filha ao lado. Eu, de pernas bambas, estava colada nela, claro.
Vi uma sombra se deslocando pela varanda e Camila, com a mão firme na lanterna, acompanhava os passos do gatão, que se livrou do que o prendia, não sei como! O bicho passou por nós como uma faísca e atravessou a rua, em direção à nossa casa, enquanto corríamos atrás dele. Ficou no muro, porque, do lado de dentro, os cachorros estavam inquietos e com as patinhas para cima. Gato esperto, Happy esperou que o tirássemos do muro, e aí já foi outra parte da missão.
- “Pega a escada lá nos fundos!”.
Ordem dada, executada! Lá fui pegar a escada, no escuro. Apesar de ir meio sem rumo, achei melhor fazer isso do que ficar de olho no gato para que não fugisse, assustado com o meu medo.
- “E a luz, heim? Por que não volta logo?”.
Eu já estava de volta, me sentindo o Hulk! Que escadinha pesada!
Camila sobe a escada, pega o gato e, vivas, a família toda comemora!
Billy foi o herói da história, pois deu o alarme. Camila, a salvadora! Eu me contentei com o papel de uma coadjuvante pra lá de corajosa!
- “Mulher estranha essa vizinha, não é, mãe? Nem nos atendeu…”.
- “Estranhas somos nós, minha filha! Ela deve ter pensado o mesmo!”.
Quando sosseguei os bichos e encostava a porta, vi a cortina da casa em frente se fechando rapidamente. Quem será que mora aqui em frente?! Hummm, que gente mais estranha…

A valente Camila, com Pitty, o assustador, e Happy, o fujão.

A salvadora do gato e o herói canino.
às 09:10
Vera Pinheiro