Arquivo de 14 de Abril de 2008

Desrespeito

Vera Pinheiro
Muito me impressionam as pessoas! Tem gente que desconhece os seus limites e avança sobre o espaço dos outros sem, ao menos, pedir licença. Há um enorme desrespeito pelo outro, que é simplesmente ignorado. Algumas pessoas agem como se vivessem sozinhas no mundo ou como se o universo fosse inteiramente delas. Não estão nem aí para ninguém, só o seu umbigo interessa. Fico indignada com isso!

Olha só o que acontece, como exemplo. Sou caprichosa com o meu quintal e com o jardim da casa onde moro. Todas as semanas, pessoalmente, capino, tiro as folhas secas, recolho tudo e espero o caminhão de lixo verde passar, e ele tem dia certo para fazer a coleta. Inclusive, os moradores recebem em domicílio um aviso sobre a data do recolhimento do lixo verde, ou seja, o que resulta da limpeza de jardins e quintais, para que não se deixe lixo na frente das casas.

Já cansei de homem metido a jardineiro, que cobra pelo que não sabe fazer. Num olhar, pelo jeito como pega a tesoura ou o ancinho, já sei se vai dar conta do serviço ou não. Mas, quando a gente pergunta, dão certeza de que sabem fazer tudo e, podendo, contam vantagens e histórias de quantos quintais limparam na vida. Conversa fiada para enganar freguês! Não caio mais nessa e não tenho mais paciência para esperar que façam o que sei fazer melhor. Afinal, serviço nunca me assustou!

Pois meu quintal está um brinco! Limpo e lindo – porque eu e Camila limpamos, e enquanto cuidávamos do nosso, não passou despercebido que um vizinho fazia o mesmo em sua casa. Todo cortador de grama é barulhento demais, e isso me obriga a fazer a limpeza depois das 10h, quando os mais dorminhocos, imagino, já estão começando a acordar. E foi numa dessas que eu queimei minhas costas a ponto de tirar o couro!

Final da tarde de ontem, saímos à frente de casa e… surpresa! Ao lado do meu portão, uns 10 sacos de lixo – daqueles grandões, de 100 litros, preto – amontoados. Olha a sacanagem: o vizinho limpou o quintal e depositou todo o lixo ao lado do meu portão, só porque no terreno ao lado da minha casa não tem construção, mas tem dono, porra!

Eu queria bater no vizinho! Que desaforo, quanto desrespeito! O bonito limpa a casa dele e coloca a sujeira no meu portão. Quem é que pode se calar diante disso? Eu não. Camila também não.

E lá fomos, nós duas, ao portão do vizinho caprichoso para o lado dele e relaxado para o meu lado.

- Viziiiiiiiinha! Viziiiiiiiinha!
Demorou alguns gritos, mas ela chegou, enfim, à janela.
- O seu jardineiro colocou o seu lixo no meu portão.
- Não! Colocou ao lado.
Gente, o que é isso?! Quase eu tinha de desviar do lixo para sair com o carro e ela me diz, na maior desfaçatez, que ao lado, encostado, grudado no meu portão, não é a mesma coisa? Será que ela pensava que eu poderia reclamar apenas se fosse impedida de sair?!

Nessas horas é que eu vejo que sou uma pessoa calma, ainda que não pareça.
- Por favor, a senhora pode providenciar a retirada do seu lixão do meu portão?
Camila estava calada, mas eu podia ver raios fulminantes saindo de seus olhos. Ela estava pronta para entrar em ação, mas como conheço a filha, pedi que só agisse se a mulher engrossasse.
- Está bem, amanhã eu peço para minha empregada tirar dali e botar na frente da minha casa…
- Onde, aliás, deveria ter sido colocado o seu lixo, sua relaxada!!!
Claro que eu não disse isso, mas pensei. Mentalmente, disse uns palavrões para extravasar minha raiva.
- Muito obrigada, então. Até logo.
Ela não respondeu. Eu e Camila botamos nossas vassouras nos ombros e rumamos para casa, planejando a próxima ação, se o lixo não fosse retirado até o meio-dia. Hoje, quando saíamos de casa, a frente estava limpa! Os sacos pretos desapareceram e parecia mesmo que nunca teve uma poeira de lixo ali.
- Hã, hã!
Eu e minha filha batemos as palmas das mãos e, em uníssono, falamos:
- Missão cumprida! “Porquice”, não!

Adicionar comentário Segunda, 14 de Abril de 2008 às 12:35 Vera Pinheiro


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