Crueldade
Vera Pinheiro
Algumas pessoas são muito cruéis e outras tantas são interesseiras, e não sei qual desses tipos é o pior. Ambas não têm a menor compaixão diante do sofrimento alheio. As primeiras pisam com um salto agulha no peito de quem já está amargurado e as segundas se afastam quando um problema surge. Por isso, temos tão poucos amigos de verdade, pessoas com quem podemos contar sempre, nas horas boas e nas nem tanto.
Os cruéis se comprazem com a dor alheia. Divertem-se com o sofrimento dos outros. Deleitam-se com a amargura que assistem. Torcem para que tudo continue dando errado.
Os interesseiros ficam perto apenas enquanto podem tirar proveito da felicidade dos outros, do seu sucesso, de tudo o que lhes oferecem. Porém, se a situação muda, são os primeiros a se mudar. Fogem e não deixam rastro! Não querem se incomodar nem ajudar, e passam longe de quem está sofrendo para não serem solicitados a prestar auxílio.
Quem conhece os dois tipos sabe a dor que causam. Aliás, com sua ausência e indiferença, agravam a situação que está difícil, e a gente se sente ainda mais só do que já estava. Porém, como tudo nesta vida, eles nos ofertam – sem querer – um grande ensinamento: nas horas mais difíceis, a gente sabe quem são os amigos verdadeiros.
O curioso é que, depois que passa a hora rude – e tudo passa! – os cruéis dissimulam, dizendo que estavam na torcida para que tudo desse certo, mas não fizeram coisa alguma, enquanto os interesseiros se aproximam de novo, assim que tudo volta ao normal, tentando tirar mais um naco a seu favor, como sempre.
Então, quem já passou por altos e baixos na vida, aprende – na marra! – a identificar todos os tipos de pessoas e a evitar, especialmente, os cruéis e os interesseiros, os que são amigos apenas de festanças e os que estão perto somente para buscar benefícios.
Quem não conhece da missa a metade, se surpreende com a nossa reserva e desconfiança em relação a amizades e critica: “Nossa, fulano não tem muitos amigos, é tão fechado, não se relaciona facilmente!”. Não sabem quantas decepções já tivemos e como nos sentimos sozinhos em momentos duros, porque os “amigos” sumiram quando mais precisávamos.
Por essas e outras, cresce o meu sentimento de amor aos bichos a cada dia. Os animais lambem as feridas uns dos outros, enquanto os humanos (ainda bem que não são todos) metem o dedo na dor do outro ou se distanciam.
Agora, pensa: com que tipo tu te identificas? És daqueles que somem ou dos que permanecem ao lado das pessoas, não importa o que aconteça? Pensei nisso e escrevi a crônica “Sumiços e presenças”, que publicarei amanhã aqui no blog e na minha coluna no jornal A Razão, de Santa Maria, RS.
Só não disse que, muitas vezes, a gente confia e conta tudo. Depois se arrepende disso, pois o outro não entende o que foi dito. Pode ser que ele não diga coisa alguma, a favor ou contra. Fica num silêncio que não é de compreensão, mas uma forma muito agressiva de criticar o outro. Mas isso já é assunto para outra hora…
1 comentário Sexta, 18 de Abril de 2008 às 09:10 Vera Pinheiro