Crônica da semana (*)
SUMIÇOS E PRESENÇAS
Vera Pinheiro
Nas horas amargas é que sabemos quantos amigos temos realmente. Não é o número de abraços recebidos num momento de festa o que mostra quantas são as nossas amizades, mas as pessoas que permanecem quando atravessamos incertezas e dificuldades. Não são os que elevam copos em brindes o que mostra quantos estão ao nosso lado, mas as mãos que se estendem em nossa direção na hora da amargura. Não são os contatos que estão na agenda do telefone o que prova se temos muitos amigos e não é a lista com vários e-mails o que diz se, numa dor, encontraremos amparo.
A noção do quanto somos sozinhos – ou não – se dá quando estamos com problemas, porque nem todos ficam conosco quando a vida não é exatamente como um jardim florido. A hora ruim é que comprova os amigos bons.
Há aqueles que preferem a nossa companhia se vivemos um período de sucesso, temos a conta bancária recheada, um trabalho bem-sucedido, uma família exemplar e a admiração da maioria. Esses aceitam, sem relutância, convites para comemorações, enviam cartões no final do ano, presentes de aniversário e cumprimentos em todas as datas festivas.
Uma infinidade de pessoas está sempre disposta a nos convidar para coquetéis e jantares se podem desfrutar do brilho que temos, da felicidade que vivemos, do êxito que alcançamos. Esses nos incluem dentre os seus melhores amigos e se orgulham de dizer que nos conhecem, adoram dar notícia da intimidade que têm conosco e contam a todos que compartilham amplamente das vitórias que obtivemos. Sentem-se partícipes do melhor que conquistamos e até acham que, sem eles, não teríamos a glória que atingimos.
Há aqueles que estão sempre em nossa casa e animados para confraternizar, sendo chamados ou não, pois se oferecem a festejar as alegrias. E há outros que, simplesmente, desaparecem quando muda o nosso status, se enfrentamos um problema grave, se o casamento desandou, se o emprego foi perdido, se dificuldades financeiras apareceram, se a saúde acabou e o dinheiro também.
Algumas pessoas somem de nós se já não podemos dar-lhes o mesmo que podíamos oferecer antes de a vida ter sofrido uma derrocada, se estamos desvalidos emocional, física, social ou materialmente. Não batem à porta quando estamos precisando de alguma ajuda, de uma palavra de estímulo ou de conforto, ao menos. Talvez não quiséssemos qualquer auxílio material, mas temem que o façamos, por isso desaparecem antes que possamos balbuciar seus nomes. Não respondem se as procuramos, fogem, desviam seu caminho do nosso, dobram a esquina quando nos avistam de longe, não retornam os telefonemas, nunca estão em casa, não têm tempo, sequer mandam uma palavra virtual quando lhes escrevemos. Silenciam, e não voltam antes que tenhamos nos recuperado completamente. Esses são os que preferem o sumiço à presença, negando o apoio que precisávamos e talvez não mais que isso pediríamos.
Amigos provam que o são quando estamos vivenciando uma dor, uma tristeza, uma dificuldade. Amigos são os que gostam de nós independentemente do que temos e de como estamos, importa mesmo é o que somos. Amigos não somem se a vida endurece de repente. Amigos ficam, apesar de tudo. Não esperam a bonança retornar, atravessam as tempestades de mãos dadas, sempre ao lado, com o coração colado ao nosso.
Amigos não escolhem apenas as horas boas para a convivência. Oferecem socorro, mesmo que não queiramos. Dividem a preocupação e prestam ajuda para encontrarmos as soluções. Não precisam chorar junto, mas ofertam ombros para acolher a nossa angústia. Nem precisam dizer nada, apenas ouvir já é bastante. Não nos substituem na dor, mas nos animam a suportá-la e, mais tarde, a superá-la. Não vivem o que sofremos, mas nos lembram a força que temos para enfrentar o que for preciso. Amigos de verdade não se escondem de nós quando mais precisamos. Estão disponíveis com a presença, tudo o que mais queremos. Amigos que dão sumiço na hora dolorosa mostram que não merecem o título que a amizade confere. Os que permanecem, mais que amigos, são verdadeiros aliados. Os outros são meros aproveitadores situacionais, portanto, totalmente dispensáveis.
(*) Crônica publicada no jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria, RS, edição de 19 e 20 de abril 2008.
3 comentários Sábado, 19 de Abril de 2008 às 02:40 Vera Pinheiro