Coração de mãe
Vera Pinheiro
Acordei às quatro da manhã. Não perdi o sono, apenas dormi cedo, ouvindo o barulhinho da chuva. Adoro chuva… quando estou em casa e com os filhos reunidos. Quem tem filho longe, dorme com um olho aberto e outro fechado, é ou não é, mães? Logo que cheguei, recebi telefonema do Gui, e já estava discando o número dele para saber se não tremeu a terra na cidade onde ele mora. Quando acontece qualquer coisa, o primeiro impulso é saber como estão os filhos, embora mãe alguma consiga saber toooodos os passos dos pimpolhos. O meu se antecipa e me dá notícia, porque saaaaabe que fico com o coração em pulos e as mãos para o alto, em oração.
Shows são uma agonia para o coração de mãe, e não escapo disso. Quando o filho avisa que vai a um, nem registro quem é o artista, porque o pensamento fica na multidão em torno do meu guri, que já beira os 30 anos.
Quase arranquei os meus cabelos no primeiro Rock in Rio, sem ter estado lá; o meu filho, sim! E olha que ele foi com a família de um amigo. Dei graças aos céus porque os pais do amigo amavam rock, mas não dispensei o telefonema quando voltavam para casa. Ficava de plantão, aguardando o retorno!
E quando Gui foi a Machu Picchu? Bem, daquela vez até fui boazinha. Ele me pediu opinião sobre a viagem e a minha resposta foi: “Filho, nunca mais terás 25 anos, então vai!”. Não me arrependi de ter dado uma força, mas os detalhes do passeio me angustiaram. Afinal, a gente quer botar os filhos num hotel cinco estrelas… se pudesse e se eles quisessem, claro. É mais animado ficar com os outros, seja numa barraca ou num albergue.
A cidade perdida dos Incas, uma das sete maravilhas do mundo, fica logo ali atrás da curva para o coração desta mãe ansiosa. Nem se compara ao pavor do passeio em Brotas, São Paulo. Quem inventou o tal rafting não tem mãe, só pode!!! Até hoje, quando olho as fotos dele com a namorada, Renata Monezzi, a Rê, naquele barquinho miserável, fico com o estômago embrulhado. Ai, que medo! Ainda não superei o susto.
Ah, que saudade do tempo em que os filhos dormiam no bercinho… A gente morria de ansiedade por deixá-los com babás, chorava a caminho do trabalho, voltava correndo para ficar com eles, mas tudo isso era apenas o começo de uma preocupação que jamais acaba… Não sei como algumas mães não estão nem aí com o que acontece ou deixa de acontecer com os filhos, não querem saber com quem estão nem o que fazem de suas vidas. Algumas sabem mais do que se passa no mundo do que com eles. E não sei como pode haver filhos que não respeitam a preocupação das mães e acham que tudo isso é uma bobagem.
Agradecemos à Vida por ter filhos que estudam, trabalham e são pessoas decentes, mas não é possível evitar essas perguntas: “Trabalhando até agora? Não vais comer uma coisinha? Queres que eu te traga alguma coisa?”. E antes que eles balbuciem um sim ou um não, entramos com a bandejinha e aquele sanduíche maravilhoso, que só mãe faz…rsrsrs. Estando longe deles, torcemos para que a pessoa amada esteja ao lado para dar um aconchego e que o Poder Divino os acompanhe, já que não podemos fazer isso o tempo todo!
“Vingança” de mãe contra preocupações que os filhos acham excessivas é quando pergunta “Não vais levar um casaquinho?”, eles respondem “Nãããão!”, e faz um frio da porra! Que mãe segura o sorrisinho de “bem feito” quando insistiu para que levassem um guarda-chuva, eles retrucaram “pra quê?”, cai um dilúvio e eles voltam como pintos molhados? Depois, corremos com uma toalha e a roupa seca, claro!
Por essas aventuras como mãe, quando passo numa dessas portas detectoras de metais e a coisa apita, mesmo não tendo nada em mão, eu penso: “É esse meu coração de aço…”.
Gui e Rê em show neste fim de semana.
Em Machu Picchu.

Meu filho e a namorada nesse bote?! Ah, meus sais!
Cadê o meu pimpolho nessa foto?!
3 comentários Quarta, 23 de Abril de 2008 às 06:21 Vera Pinheiro