Crônica da semana (*)
Sábado, 26 de Abril de 2008 às 07:28 Vera Pinheiro | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 356
VISITAS
Vera Pinheiro
Como visita, sou um tipo abominável. Mesmo que a demora na casa dos outros seja pouca, carrego um número de malas que assusta os moradores, e parece que vou baixar ali por mais de mês! Quando chego, logo me espalho: abro as malas sobre a cama que me deram, coloco mil potinhos de creme e maquiagem sobre o criado-mudo ou no banheiro, penduro as roupas em cabides que carrego comigo, e ponho sapatos, tênis e sandálias numa fila, lado a lado, para escolher sem demora o que calçar. A dona da casa não pergunta quantos dias vou ficar, mas seu olhar denuncia uma aflição que, imagino, supera o prazer de me receber.
Não gosto de andar com chave alheia, embora me ofereçam. Mas penso que, talvez, deva reconsiderar isso a fim de evitar que me abram a porta quando chego tarde, e detesto horário, se estou a passeio, de férias e sem compromissos. Da última vez que fui hospedada por alguém, toquei a campanhia tantas vezes que a vizinhança acordou antes de eu ser recebida, e foi inevitável a sensação de que, se repetisse o feito, ficaria do lado de fora. Levei uma advertência feia e demasiado forte para uma mulher da minha idade, que, há tempos, é a única dona da própria vida.
Não tiro a razão de quem fez isso, porque eu, como hóspede, também me acho insuportável, tanto quanto outras visitas que conheço. Por exemplo, as que chegam e querem mudar tudo em minha casa, desde o modo como me relaciono com os filhos até o meu jeito de (des)educar os gatos e cachorros. Algumas insistem que eu preciso de coisas que, na realidade, não me fazem falta; são necessidades delas, não minhas. Posso viver tranqüilamente sem uma máquina de lavar louça com vários programas especiais; uma travessa enorme de vidro temperado; um fogão de seis bocas, de aço escovado e forno duplo; uma máquina elétrica de fazer pão e um master grill potente. Por que não botam dentro de sua casa o que gostariam de ver na minha e não aceitam a simplicidade de quem as recebe com carinho?
Pelos meus hábitos e manias, tenho impressão de que dou, a quem me hospeda, duas alegrias: uma, ao chegar; outra, quando aceno em despedida. Também me sinto assim com visitas que abusam da hospitalidade e pedem o meu computador, de uso mais restrito do que uma parte íntima. Uma pessoa viciada em internet deve comprar um laptop para carregar sob os braços, mesmo indo ali na esquina, atrás da curva. Assim, nos pouparia da fatídica pergunta: “Posso dar uma olhadinha nos meus e-mails?”. Não dá vontade de esquecer a educação e responder um “Não” redondo ou “Sim, pode, mas lá na tua casa!”? Se oferecemos, de bom grado, cama, mesa e banho, ainda precisamos acrescentar à lista o computador, que é instrumento de trabalho e mais cuidado do que um bebê recém-nascido?
E as que não querem comer o que servimos, o que fazer com elas? Se somos vegetarianos convictos, azar delas se não tiver um naco de carne à mesa! Se não toleram cebola e não a dispensamos, poderiam tentar engolir o tempero ou ir a um restaurante. Se não vivem sem pimenta, deviam carregar consigo um vidrinho com esse condimento, tudo para facilitar a vida da dona da casa, pois esta, por mais que adore receber visitas, meu caso, tem um estilo de vida próprio, que não vai modificar-se sempre que alguém aparece.
E há as que amam surpreender e chegam de repente, sem aviso, quando a gente está com a geladeira dando eco, o dinheiro contado e nenhuma disposição. “Cheguei”, dizem elas, já com meio corpo da porta para dentro, enquanto pensamos: “e agora, o quê que eu faço?!”. E as que não podem ver uma fumaça em nossa churrasqueira e se apresentam, mesmo se não foram convidadas? Há quem diga que virá por um dia e estende a visita por três semanas, virando a nossa rotina pelo avesso. E há outras que querem saber tudo de nós e invadem, além do espaço, a privacidade.
Felizmente, existem aquelas visitas boas, que não dão trabalho algum, não criam constrangimentos, não querem mudar a nossa vida em poucos dias, deixam-nos à vontade e se sentem bem conosco. Essas, quando partem, queremos saber, de imediato, quando voltarão, e ficam em nosso coração até a volta, pois são visitas agradáveis e eternamente bem-vindas em casa!
(*) Crônica publicada no jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria, RS, edição de 26 e 27 de abril 2008.
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