Arquivo de 28 de Abril de 2008

Elas sem eles

Vera Pinheiro
Sexta-feira, depois do trabalho, saí com duas amigas casadas (com seus respectivos maridos, bem entendido, não entre si – hoje em dia, é preciso explicar esses detalhes). O convite partiu de uma delas, que animou a outra e me incentivou ao happy hour num local histórico da noite brasiliense, portanto, lotado desde cedo. Dessa parte eu não gosto, tenho a sensação de que todo mundo toma o mesmo rumo e a gente disputa, andando em círculos, tanto uma vaga no estacionamento quanto uma mesa livre. Não reservamos lugar porque decidimos aonde ir quando já estávamos passando o batom, na saída do trabalho.

Ambas são casadas há pelo menos duas décadas e têm filhos adolescentes. Os maridos são pessoas adoráveis, divertidos e simpáticos, mas na sexta-feira não foram convidados a acompanhá-las. Não resisti e perguntei como elas fazem quando decidem tomar um chopínho sem eles, o que dizem para que fiquem quietinhos, sem incomodá-las por isso.

Uma delas disse que simplesmente liga e avisa que está indo. “Você me pega lá a tal hora”, já que ele costuma buscá-la no serviço todos os dias. De fato é o que acontece. À hora marcada, o marido compareceu, enchendo-a de beijos no reencontro, como se tivessem se visto, da última vez, há pelo menos uma semana, muito bonitinho. Depois, ele sentou-se conosco, comeu uma coisinha, bebeu um refrigerante e, como o nosso happy hour já estava no final, foram embora de mãos dadas. Não sem, antes, a gente dividir a conta e deixar que ele entregasse o dinheiro ao garçom, uma delicadeza com o varão da mesa.

A outra nem avisou, tampouco pediu para ir. O marido faz faculdade à noite e ela aproveitou a sexta-feira para sair com as amigas. “Depois eu conto”, disse ela. “Não vou ligar na hora da aula dele para dizer onde estou”. Pelo celular, monitorava a movimentação dos filhos em casa e se preparava para, mais tarde, dar uma carona à filha que iria a um aniversário. Ela ainda está naquela fase de “mãetorista”, que faz “delivery” dos filhos nas festas, dorme um sono e vai buscá-los.

Quanto a mim, dei um telefonema para avisar aonde iria e com quem. A medida é de segurança e para dar exemplo, já que sempre quero saber onde os filhos estão e com quem andam. Dou uma previsão de horário de retorno e se atrasar, aviso. Dou mais um telefonema quando estou de saída, porque conhecemos os trajetos e sabemos a média de tempo do percurso. Assim, ninguém se preocupa.

Apesar desses cuidados, sinto-me livre para ir e vir, sem prestar contas a marido. Mas se hoje estivesse casada, faria como essas duas amigas minhas. De vez em quando, sairia sem ele e, a exemplo delas, deixaria que se encontrasse com amigos sem me sentir excluída. Minhas amigas Cássia e Rita têm uma relação conjugal saudável, maridos desencanados e vida própria, apesar do casamento. Acredito que essas sejam razões complementares para estarem casadas há décadas com o mesmo marido.

1 comentário Segunda, 28 de Abril de 2008 às 04:32 Vera Pinheiro


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