Arquivo de Maio de 2008

Crônica da semana (*)

ALEGRIA
Vera Pinheiro

Alegria é algo que podemos dar a outrem até mesmo sem que a tenhamos e, quando ofertada de bom grado, ela renasce em nosso coração. É cercada de uma magia que faz e refaz um contentamento inexplicável que se vivencia quanto mais se aplica. É um antídoto contra muitos tipos de dor, serve de alívio, lenitivo e motivação. É um presente que não tem preço, faz bem receber em gratuidade e trocar com generosidade. Alimenta-se e cresce de sua própria doação e quanto mais se dá, mais se tem.

É tão simples na sua expressão que qualquer um a entende, e tem uma elegância natural que dispensa afetação. Não precisa ser esfuziante, basta que seja sincera. Pode ser silenciosa, pois se comunica de várias maneiras: por gestos, sorrisos, abraços e afagos. É adulta, flui na maturidade de quem compreende que a vida não deve ser complicada nem sisuda, e tem um pouco da infantilidade dos que cruzaram, há tempos, a idade das crianças. Não é mensurável, mas tem grandiosidade. Não merece ser contida, mas espalhada. É dotada de uma delicadeza que toca corações fechados e os abre sem provocar constrangimento ou mal-estar.

A alegria contagia e arrebata, e a ela ninguém fica indiferente, por mais que tente. É como uma estrelinha que brilha em noite escura: o nosso céu interior se ilumina e essa luz se projeta em torno. Transmite-se de um a outro sem perder pedaços, é ampliada naqueles que a recebem e a multiplicam, e faz um trabalho perseverante em quem está tristonho, até vencer os obstáculos que impedem o sorriso, o cartão de visitas da alegria e sua estampa.

Há quem não acredite em seu poder, e com esses é necessário ter paciência, afinal, mais que todos, eles precisam de alegria. Ela não se importa com bens materiais, pode estar com os ricos e entre os pobres, e com todos sente-se à vontade. Não persegue motivos, e gosta de almas boas, espíritos límpidos, corações leves, sem rancor, e de mentes positivas. A alegria é otimista e não se sente confortável entre os decididamente odientos, os exageradamente mal-humorados e os irrecuperavelmente pessimistas. É como uma plantinha: carece de solo fértil para se manter, ou ficará apenas pelo tempo em que for bem recebida. A alegria é uma hóspede que adora saber que é bem-vinda, e se demora quanto mais a festejamos, sem pressa de ir embora. Fica pelo tempo que quisermos, nutrida por palavras e atitudes.

A alegria é uma menina animada que movimenta tudo para se mostrar até para quem lhe vira a cara, e ela é persistente: vem, e se a afastam, volta. É uma mulher que sabe o que quer, o que vai fazer, e que almeja mais espaço. É uma anciã, porque a alegria tem muita sabedoria: cura e aconchega, salva e melhora o lugar em que está.

É uma grande companheira para todos os dias e permanece conosco, inclusive quando o dinheiro encurta, o namorado some, e alguns planos dão errado. A alegria independe de quanto temos, mas depende de como vivemos; não se vincula a propriedades e coisas, porque mora no espírito. Está do lado de dentro, mas é vista do lado de fora de nós. E é tão bonita que nos enfeita! Somos belos quando estamos alegres.

Não requer muito esforço chamar a alegria: ela adora ir aonde o amor está e o segue por onde ele se expande. Caminha junto da felicidade e da saúde, e anda de mãos dadas com a paz. É íntima da solidariedade e da consciência tranqüila, irmã da bondade e do carinho, parceira da vitória, amiga da prosperidade, companhia constante da fé e colega da esperança. O mais interessante é que ela se perpetua em quem a transmite e é grande em quem a distribui.

A alegria é um sentimento de harmonia entre o físico, o mental, o espiritual e o emocional e traz uma sensação de bem-estar à vida. Ao conhecê-la, não se quer guardá-la, e ao comparti-la tanto mais aumenta.
(*) Crônica publicada no jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria, RS, edição de 31 de maio e 1ºde junho de 2008.

2 comentários Sábado, 31 de Maio de 2008 às 07:18 Vera Pinheiro

Novo dia

Vera Pinheiro
Hoje não tive pressa de me levantar da cama. Precisava apreciar o fato de que é sexta-feira e, de véspera, já estou feliz pelo sábado que virá. Foi a primeira alegria do dia, e já conto as horas para chegar em casa no início da noite. Voltar para casa sempre me alegra, apenas gostaria de ver o entardecer, como na época do horário de verão. Mas se não vejo o entardecer, me encanto com o luar, e tudo está bem.

Não falei com minha filha ainda, mas já saudei os cachorros. Ela está tão concentrada na elaboração de sua monografia que não quis interromper, por isso não cruzei a porta do quarto dela, apesar de aberta. Vi que a cama está intocada. Camila não dormiu um só minuto esta noite, e isso tem acontecido com freqüência, na reta final do curso de Psicologia. Ela e seu computador ficam ligados por horas e horas, e nada mais há no entorno que a tire do trabalho. Enquanto isso, seguro o latido dos cachorros, mais pontuais do que um relógio suíço legítimo, não daqueles à venda nos camelôs da vida, claro. Movo-me como os gatos para não atrapalhar o silêncio dela, e só vou chamá-la mais tarde para tomar café, isso sim. Não deve ter comido coisa alguma à noite. Ela está tão magrinha… O trabalho, porém, está avultado.

Quantas noites eu passei em claro, estudando e trabalhando… Não posso cobrar de minha filha que não o faça. Quando cursei Jornalismo, trabalhava o dia todo e emendava com a faculdade. Minha mãe deixava no forno um pratinho pronto, que eu devorava antes de dormir. Quando cursei Direito, tinha os dois filhos pequenos e estudava para as provas depois que eles dormiam. Muitas noites eu passei insone para concluir um trabalho que, eu queria, fosse perfeito, irretocável. Não morri disso, pelo contrário, vivi a recompensa do meu esforço. Confio que Camila haverá de ter muitas alegrias que a compensem por sua dedicação aos estudos.

E de alegria em alegria, a gente vai vivendo. Não há que se esperar por grandes acontecimentos felizes e, no intervalo deles, ficar triste. Alegrar-se no cotidiano, por tudo que há, é o segredo de sentir-se bem por muito tempo. O sol está brilhando? Que lindo! Choveu? Que bom! O cachorro latiu? Que amor! O gato miou? Vivas! Preciso trabalhar? Ótimo! O café está cheiroso? Que maravilha! Engordei? Hora do regime! O dinheiro está curto? Vou economizar! O amado deu um chute? Outro virá! Alguém me aborreceu? Deixa pra lá.

Viver é tão maravilhoso que devíamos nos manter em gratidão e em alegria, perdoando os momentos “nem tanto”, porque eles não merecem ganhar permanência; a alegria, sim. Ela se refaz por um nada, está em tudo e em todo lugar. E estará na minha crônica da semana, aqui no blog e no jornal A Razão, amanhã. “Alegria” não é apenas o título do meu escrito, é o meu estado de alma.

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Eu e as outras

Vera Pinheiro
Ontem à noite aconteceu uma coisa louca: conversei com Vera Pinheiro. Hã?! Endoideci?! Amaluquei?! Não, nada disso. Apenas encontrei uma homônima e falei com ela pelo MSN. Há séculos não entrava lá, pois tenho preguiça de conversar no MSN, no Skype e em chats, de modo geral, mas ontem estava a procura da minha amiga Adriana Carvalho Cavalcante para discutirmos uma melhoria no blog, já que foi ela e sua equipe, da empresa True Solution, quem montou o blog e o meu site também. Na verdade, eu estava com 24 horas de atraso, pois o encontro estava marcado para a véspera, mas dormi. Ontem, claro, Adri não estava. Porém, ao me conectar no MSN, quem eu encontro on line? Vera Pinheiro. Tomei a iniciativa de falar com ela, que me disse ser dentista no interior de São Paulo, numa cidade chamada Jales. Moça simpática, entrou neste blog e deixou uma mensagem no espaço “Recado dos Leitores”, a que já respondi.

Hoje de manhã, fiz uma pesquisa rápida no Google com o meu nome e, de cara, encontrei o meu site, este blog, trabalhos que fiz pela liberdade de imprensa, a minha coluna no jornal A Razão, uma foto minha em um dos blogs da Adriana (o Blitz na TV), crônicas minhas no site Libertas (do psicólogo Jaime Panerai Alves, amigo meu de Recife), uma correspondência minha quando era Assessora de Imprensa da Associação Nacional de Jornais, uma referência no blog Espaço Aberto, da minha amiga Salete Barbosa (radialista da Rádio Imembui, de Santa Maria, RS), além de crônicas minhas publicadas em outros blogs, em vários blogs, aliás, mas não lembro de terem me pedido licença para divulgação.

Encontrei ainda uma preciosidade no site Digestivo Cultural, em que Eliza Regina Plotegh, a propósito de uma promoção chamada “Escrever Bem”, disse o seguinte, sob o título “Vera, a fantástica”: “Depende do tipo de redação. Para mim, o Diogo Mainardi escreve muito bem quando o texto é jornalístico; o Luis Fernando Verissimo se encaixa bem nos contos; a Vera Pinheiro é fantástica para escrever sobre temas voltados à mulher, o seu dia-a-dia, seus conflitos; na poesia, prefiro Mário Quintana (apesar de já falecido). Esses são alguns. [Foz do Iguaçu/PR]”. Olha aí o grupo em que ela me situa: entre ícones da literatura nacional! Muito obrigada. Já escrevi, agradecendo.

Continuando o rastreamento, encontrei várias homônimas que são advogadas (como também sou), uma jornalista (que também sou), assessora de imprensa (como fui), uma blogueira que dá receitas culinárias, uma empresária, uma professora, uma atleta, e, pasmei, uma vice-prefeita (de Guapiaçu, SP, segundo a Wikipédia). Parei nesta, e não tinha visto além de poucas páginas.

Resumo da ópera: há muitas mulheres com o nome de Vera Pinheiro. A Vera Pinheiro que sou reúne muitas mulheres, por isso meu universo é largo e minhas experiências são vastas. E não me importa ter um nome absolutamente comum, igual ao de tantas, porque não é isso o que faz a diferença entre as pessoas.

Não sou a única a ter o nome de Vera Pinheiro, como visto. Mas sou única no que sou, assim como todas as homônimas também são únicas no seu perfil humano, na sua história, no que fazem. Espero apenas que não nos confundam, apesar do nome, e que umas não se passem pelas outras, como já aconteceu no Orkut, coisa que deixou enfurecida, tanto que desapareci de lá para não perder tempo e humor.

O acontecido me lembrou o que Roberto Carlos fez em um disco seu, mil anos atrás, colocando na capa o seu nome e o acréscimo “O inimitável”, porque havia um cantor, cujo nome não lembro (estás vendo, o original permanece!), que cantava parecidíssimo com ele.

Se fosse uma das outras, não gostaria de ser outra que não eu mesma. Eu gosto muito de ser o que sou, como sou, do jeito que vivo e de tudo o que faz a minha vida. E, afinal de contas, não basta o nome: é preciso ser. Eu, Vera Pinheiro, falei.

1 comentário Quinta, 29 de Maio de 2008 às 09:02 Vera Pinheiro

Um tempo, uma saudade

Vera Pinheiro
O tempo passa e esquecemos do quanto fomos felizes. Em meio a queixas de não termos isso ou aquilo ou de jamais termos conhecido a felicidade, cometemos injustiça com a própria vida. Lembramo-nos mais da parte “nem tanto” do que da parte melhor de tudo o que vivemos, que lástima!

Há 29 anos, eu era recém-casada. Nessa foto, de 20 de setembro de 1979, havia menos de um ano do meu casamento, pois me casei no dia 30 de setembro de 1978. Já não lembrava que, um dia, tive um olhar apaixonado, doce e feliz. Graças à amiga Zilar Ana Viero Giuliato, lá do Rio Grande do Sul, retomei, com a foto que ela me enviou, uma época que não devia ter esquecido. Eu tinha 22 anos, a cabeça cheia de sonhos e o coração iluminado de amor. Não preciso dizer mais, pois a fotografia expressa o momento e fala por mim.

Obrigada, Zilar. Foi muito bom recordar a felicidade que eu senti um dia. Foi um tempo de que hoje senti muita saudade.
Vera e Nereu - 1979 - Vera e Nereu - 1979
Sempre adorei abraços e roupas negras…

Adicionar comentário Quarta, 28 de Maio de 2008 às 22:10 Vera Pinheiro

Surpresa

Vera Pinheiro
Estou atrasada hoje, mas… surpresa! Cheguei! Num horário inusual, mas – ufa! – estou aqui! Não vim mais cedo porque hoje acordei tarde, às 6h30min. Explico: levanto cedo se for por volta de quatro da manhã, como na segunda-feira, uma beleza! Dá para fazer muita coisa – e bem devagar – antes de sair para o trabalho, e quando o sol nasce já estou tomando café na varanda, apreciando o amanhecer e saudando a vida no novo dia! Agora, me diz, quem pode ficar mal-humorado se dorme cedo e bem, e acorda antes que o galo cante? Aliás, eu adoraria ter uns galináceos no quintal, mas tenho a impressão de que a convivência com os cãezinhos não seria das mais pacíficas. Que o digam os passarinhos: se baixarem o bico num vôo rasante, viram refeição canina.

Lembrei agora do que dizia minha mãe com relação a homem que trai a mulher, é flagrado, vai, volta, pede perdão, é perdoado, e volta a trair: “cachorro que come ovo, só matando”. Acho que ela não acreditava em segunda chance. Deusolivre, como minha mãe era brava! Saudade dela… Em breve, vou tomar um chimarrão com ela, sentada na cadeirinha em frente à casa. Acho tão bonitinho esse costume de sentar em frente à casa e ficar tomando mate por horas. Quem tem tempo para isso, hoje em dia? O povo já acorda correndo, sai voando e volta tarde. Nas horas vagas, está na diversão, assistindo televisão ou dedilhando o teclado do computador. A gente deveria ter mais tempo para não fazer nada, para jogar conversa fora, para contemplar a vida e estar com quem ama… nem que para isso tenha de levantar às quatro da manhã, como faço tantas vezes. O problema é que ninguém me acha depois das 22h, pois já estou no quinto sono.

Eu falava de surpresa e a prosa tomou outro rumo. Tive uma belíssima surpresa nesta semana. Zilar, uma amiga que mora no Rio Grande do Sul, encontrou nos seus guardados algumas fotos minhas e me enviou. Uma delas me deixou profundamente emocionada! Pena que não estou escrevendo em casa agora, mas quando voltar a ela, compartilharei a foto. Hoje à noite, farei isso. Afinal, tendo dormido até tarde, às 10 da noite ainda estarei em pé e mais ou menos acordada.

Adicionar comentário às 16:28 Vera Pinheiro

Aniversário

Vera Pinheiro
Hoje é dia de festejar um amigo muito estimado: o jornalista Cirilo Braga. É o aniversário dele e nesta noite, mesmo sendo dia de semana, tem festa dupla em São Carlos, SP, pelos 45 anos desse meu amigo e porque o filho mais velho, Thales, nasceu no mesmo dia. Em suma, não tem como escapar da comemoração! Cirilo é um amigo dos mais queridos e em janeiro, com a esposa Rosana, esteve em nossa casa por uns dias.

Pois é. Ataquei de colunista social no blog, mas o acontecimento merece e o aniversariante também. Cirilo fez a apresentação do meu livro com um texto lindo e é um grande incentivador dos meus escritos. Sobretudo, um amigo do peito, irmão, camarada! Estivesse mais perto, eu compareceria aos festejos, mas daqui de longe, segue o meu abraço com carinho e o desejo de que ele seja muito feliz!

Depois dos quarenta, meu caro, tudo é “enta”: cinqüenta, sessenta, e por aí vai! Mas a vida é bela em todas as idades, basta a gente ter disposição de encontrar a beleza da existência todos os dias! Abençoado sejas!
Camila, Cirilo, Rosana e Vera - Camila, Cirilo, Rosana e Vera
Parabéns, amigo!

Adicionar comentário Terça, 27 de Maio de 2008 às 21:08 Vera Pinheiro

Mãe desencanada

Vera Pinheiro
Com as exceções que confirmam a regra, criança chata tem mãe chata! Se o pai for chato também, vixe, a criança é mais chata ainda! Estou culpando a mãe? Não é culpa, é responsabilidade! Quem educa, seja a mãe ou o pai (ou a avó, às vezes), tem tudo a ver com os modos da cria, sinto muito. Eu não agüento ver adultos se queixarem de que não podem com a vida dos pequenos, submetendo-se aos caprichos deles, o que, aliás, deviam ter coibido desde tenra idade. Não é de menino que se torce o pepino? Sempre foi, desde que o mundo é mundo.

Adoro crianças, tive duas e teria meia dúzia, mas acho insuportáveis as que são chatas, mal-educadas, respondonas, pirracentas, sem modos, gritonas e que querem ser adultos em miniatura. Criança é criança, a gente sabe, mas precisa de limites, o que não significa tolher o desenvolvimento dela. O crescimento pode ser saudável, absolutamente normal, sem que a mãe se torne escrava dela. E mãe padece (e isso não é nenhum paraíso) quando não educa os filhos, ou seja, paga pelo que não fez.

Que os filhos tomam conta da casa e mudam a nossa rotina, isso é fato, mas daí a abrir mão de tudo em função dos filhos é esquecer de si mesma e, lá adiante, quando se der conta de que não viveu a própria vida, vai cobrar deles, explícita ou veladamente. Fico estarrecida quando vejo crianças que, literalmente, mandam nos pais! Os pirralhos determinam os horários, querem (porque querem) que tudo seja do seu jeito e à hora que querem e, pior, os pais obedecem e não se sabe quem manda em quem, nem quem tem autoridade na família. São pequenos déspotas bem-criados.

Quando algumas crianças vêm à nossa casa, salvem-se cães e gatos, senão viram couro de tamborim! Os bichos mordem (como a dona), mas não porque sejam bravos, mas por se irritarem com o trato. Então, já vou avisando: não puxem os rabinhos deles, não tirem os seus brinquedos nem os arrastem pelas patas. Algumas já fizeram isso e… danou-se! Meus bichos passam por feras mal-adestradas, mas, na realidade, há crianças que não foram educadas para respeitar os animais.

Boto fé que o Guigui vai ser uma criança adorável, como já o é aos seis meses, e isso está nas mãos de Adriana Carvalho, uma mãe desencanada, como digo. O filho tem todos os mimos, possui do bom e do melhor, mas, desde que saiu do ventre, é criado sem frescuras. Tipo assim: ela trocou a fralda (descartável, claro) em cima de um murinho que serve de banco na varanda de nossa casa. Botou uma roupinha para aconchegar a cabeça do bebê e pronto: ali mesmo fez o serviço. Ela almoçou conosco à mesa e o filho ficou no carrinho, sossegado. Na hora certa, ela sacou da bolsa uma fruta e deu para ele, que ficou quietinho e veio para o meu colo de boa, sem fazer manha. Ou seja, ela treina a criança para conviver com outras pessoas, e isso é bom, porque o guri não vai viver numa redoma, só com pai e mãe. Caíam os brinquedos da mão dele e ela, naquela agilidade materna, pegava do chão e entregava a ele, sem correr para lavar o brinquedo. É relaxado fazer isso? Não, é adaptação ao meio. Ela anda por todos os lugares com o filho a tiracolo, já tem prática de armar e desarmar o carrinho, e a sacola, apenas com o básico (sem aquele monte de tralhas), está sempre arrumada. Adriana também está sempre arrumada e linda, não anda por aí como se fosse babá do filho, mas como uma jovem mulher que tem um filho, e nisso há uma enorme diferença!

Adorei ver isso: uma mãe desencanada! Adriana cuida exemplarmente do Guigui e aprende com ele o exercício da maternidade, coisa – aliás – que nunca acaba, mesmo quando os filhos têm 40 anos. E, reconheçamos, eles são nossas cobaias, mas a gente não nasceu sabendo. Muitas vezes, aprendemos no tranco e, de outras, eles nos ensinam.
Guigui e Adri - Guigui e Adri
Relação sem frescura, mas com frescor.
Adri e Guigui - Adri e Guigui
Frutinha na boca = bebê quietinho

Adicionar comentário às 07:47 Vera Pinheiro

Feriadão em festa

Vera Pinheiro
Acordei totalmente feliz nesta segunda-feira, e se ainda fosse feriado eu adoraria! O meu feriadão teve três dias de festa, mas não estou cansada. Depois de 12 horas de sono, sinto-me revigorada. Ao abrir os olhos, olhei para o lado e não acreditei no travesseiro vazio. Podia jurar que Murilo Rosa estava ali, mas foi apenas um sonho, que dó! Ô, moço bonito!

O sonho feliz com esse lindo encerrou o feriadão que me trouxe muitas alegrias. Na quinta, descansei para o que viria. Na sexta, recebemos um visitante ilustre: Guigui e sua mãe Adriana Carvalho, a mãe mais desencanada que conheço. Vou contar aqui, em outro post, por que ela me parece assim.

No sábado, realizamos em casa uma Fogueira Cigana e vieram cerca de 40 pessoas. Foi absolutamente maravilhosa e as fotos ficaram ótimas. Selecionarei algumas e mostrarei aqui também para compartilhar esse momento feliz.

Desde a manhã de sábado, tivemos a agradável companhia da amiga Sueli Aparecida Borguin Araujo, que passou dois dias em nossa casa, e no domingo à tarde, recebemos a visita de outra amiga, Adriana Jaccoud, seu marido Osvaldo e a filha Luiza, e a fogueira continuou acesa até esta manhã.

Por todo esse movimento, ontem não vim ao blog e não escrevi para ninguém. Afinal, relações virtuais são muito boas, mas não substituem encontros ao vivo, de pertinho. Hoje é dia de trabalhar. O último feriadão do ano foi muito bonito para mim. E o teu?

Camila e Vera - Camila e Vera
Camila e eu na noite da Fogueira Cigana

2 comentários Segunda, 26 de Maio de 2008 às 09:42 Vera Pinheiro

Crônica da semana (*)

O QUE SE QUER
Vera Pinheiro

Algumas vezes quis intensamente, com todas as forças do coração, que alguma coisa se realizasse e não foi possível. Desejei imensamente pessoas e elas não ficaram comigo. Apesar de todos os meus esforços, alguns sonhos que acalentei não se concretizaram. Coloquei o meu melhor empenho em determinados projetos e eles deram errado. Nessas circunstâncias, parecia que meus anseios não entravam em acordo com a disposição do universo em atendê-los. Inevitavelmente contrariada, julguei-me injustiçada pela vida, prejudicada pelo destino e desamparada pela sorte.

Mais adiante, entretanto, o tempo mostrou que tudo foi melhor para mim. Envergonhada da minha arrogância em achar que sabia muito e que podia gerenciar sozinha minha existência, senti-me obrigada a me curvar diante da sabedoria da vida, que fez melhor do que eu faria, e sempre faz por mim o que não sei e não posso. Reconheci, então, a presteza da Mão Divina, que me evitou danos e dores muito maiores do que a frustração de não ter o que eu quis, de não estar com quem eu gostaria, de ver desandarem planos nos quais investi muito, mas que não me trariam o que minha expectativa projetava.

Nem tudo acontece conforme planejamos. Seguimos uma linha reta e somos compelidos a dobrar esquinas. Buscamos uma trilha e somos forçados a mudar de rota. Traçamos uma caminhada e somos desviados dela. Intencionamos fazer algo e nossos planos mudam em razão da situação que se apresenta. A sensação de impotência toma conta de nós e nos havemos como marionetes nas mãos do imponderável. Uma revolta interior nos abate, perdemos o vigor diante do que não compreendemos e nos reviramos em questionamentos acerca dos propósitos da vida, sobre o quanto podemos fazer por nossa vontade e o tanto que independe de nossas escolhas.

Porém, quando nos dispomos a entender e a aceitar o que acontece, a confiar que tudo está na perfeita ordem divina, portanto, nada em desacordo com o plano superior, nosso espírito sossega. Permitimo-nos, desse modo, nos lançar aos braços do Grande Pai e da Mãe Suprema como filhos pequenos que não temem pular de um muro na direção do seu pai terreno e abrem a boca para o alimento que a mãe desta terra lhes oferece, sem questionar procedência ou qualidade.

Quando nos enrijecemos em nossa vontade, não consideramos o reverso que a vida nos oferta, porque, simplesmente, não era o que queríamos. Mas seria tão ruim assim como pensamos? O que podemos ver além dos fatos e que se descortina mediante um olhar mais compreensivo? Será mesmo que nada de bom existe em um fato diverso do que imaginávamos?

Observei, ao longo do meu tempo, que a maioria absoluta de tudo o que almejamos e é bom para nós, flui magnificamente para nossa vida, sem estorvos nem transtornos. O emprego mais adequado chega na hora exata, a pessoa melhor se apresenta diante de nós sem esforço de conquista, a solução mais apropriada surge quando mais precisamos dela, as aspirações que são para o nosso bem se efetivam sem que doemos suor e sangue por elas. Tudo o que é realmente bom para nós a vida traz, e o que não é, emperra, enfrenta todo tipo de dificuldade. Podemos até conseguir o que desejamos, mas, pelo desgaste que acarreta, nem tudo o que alcançamos é uma vitória. Sentimo-nos triunfantes, é verdade, quando, apesar de tudo e de todos, obtemos sucesso, mas ocorre de não desfrutá-lo, tão fatigado se encontra nosso espírito.

Até podemos discordar do traçado divinal e buscar o que pensamos ser o melhor para nós, já que nos foi dado livre arbítrio. Porém, o amor de quem nos deu a vida é tão maior que tudo, que nos retira do erro, dos equívocos, do futuro em dor. Não concordamos, dizendo que a vida é nossa e o próprio nariz também, e vociferamos porque tudo não sai exatamente como pretendemos. É aí que a humildade deve entrar em cena, para nos quedarmos diante do Poder Divino, entregando coração e vida: se tiver de ser, que seja. Ele sempre tem razão, até mesmo se não O compreendemos.
(*) Crônica publicada no jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria, RS, edição de 24 e 25 de maio de 2008.

1 comentário Sábado, 24 de Maio de 2008 às 05:47 Vera Pinheiro

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