Arquivo de 31 de Maio de 2008

Crônica da semana (*)

ALEGRIA
Vera Pinheiro

Alegria é algo que podemos dar a outrem até mesmo sem que a tenhamos e, quando ofertada de bom grado, ela renasce em nosso coração. É cercada de uma magia que faz e refaz um contentamento inexplicável que se vivencia quanto mais se aplica. É um antídoto contra muitos tipos de dor, serve de alívio, lenitivo e motivação. É um presente que não tem preço, faz bem receber em gratuidade e trocar com generosidade. Alimenta-se e cresce de sua própria doação e quanto mais se dá, mais se tem.

É tão simples na sua expressão que qualquer um a entende, e tem uma elegância natural que dispensa afetação. Não precisa ser esfuziante, basta que seja sincera. Pode ser silenciosa, pois se comunica de várias maneiras: por gestos, sorrisos, abraços e afagos. É adulta, flui na maturidade de quem compreende que a vida não deve ser complicada nem sisuda, e tem um pouco da infantilidade dos que cruzaram, há tempos, a idade das crianças. Não é mensurável, mas tem grandiosidade. Não merece ser contida, mas espalhada. É dotada de uma delicadeza que toca corações fechados e os abre sem provocar constrangimento ou mal-estar.

A alegria contagia e arrebata, e a ela ninguém fica indiferente, por mais que tente. É como uma estrelinha que brilha em noite escura: o nosso céu interior se ilumina e essa luz se projeta em torno. Transmite-se de um a outro sem perder pedaços, é ampliada naqueles que a recebem e a multiplicam, e faz um trabalho perseverante em quem está tristonho, até vencer os obstáculos que impedem o sorriso, o cartão de visitas da alegria e sua estampa.

Há quem não acredite em seu poder, e com esses é necessário ter paciência, afinal, mais que todos, eles precisam de alegria. Ela não se importa com bens materiais, pode estar com os ricos e entre os pobres, e com todos sente-se à vontade. Não persegue motivos, e gosta de almas boas, espíritos límpidos, corações leves, sem rancor, e de mentes positivas. A alegria é otimista e não se sente confortável entre os decididamente odientos, os exageradamente mal-humorados e os irrecuperavelmente pessimistas. É como uma plantinha: carece de solo fértil para se manter, ou ficará apenas pelo tempo em que for bem recebida. A alegria é uma hóspede que adora saber que é bem-vinda, e se demora quanto mais a festejamos, sem pressa de ir embora. Fica pelo tempo que quisermos, nutrida por palavras e atitudes.

A alegria é uma menina animada que movimenta tudo para se mostrar até para quem lhe vira a cara, e ela é persistente: vem, e se a afastam, volta. É uma mulher que sabe o que quer, o que vai fazer, e que almeja mais espaço. É uma anciã, porque a alegria tem muita sabedoria: cura e aconchega, salva e melhora o lugar em que está.

É uma grande companheira para todos os dias e permanece conosco, inclusive quando o dinheiro encurta, o namorado some, e alguns planos dão errado. A alegria independe de quanto temos, mas depende de como vivemos; não se vincula a propriedades e coisas, porque mora no espírito. Está do lado de dentro, mas é vista do lado de fora de nós. E é tão bonita que nos enfeita! Somos belos quando estamos alegres.

Não requer muito esforço chamar a alegria: ela adora ir aonde o amor está e o segue por onde ele se expande. Caminha junto da felicidade e da saúde, e anda de mãos dadas com a paz. É íntima da solidariedade e da consciência tranqüila, irmã da bondade e do carinho, parceira da vitória, amiga da prosperidade, companhia constante da fé e colega da esperança. O mais interessante é que ela se perpetua em quem a transmite e é grande em quem a distribui.

A alegria é um sentimento de harmonia entre o físico, o mental, o espiritual e o emocional e traz uma sensação de bem-estar à vida. Ao conhecê-la, não se quer guardá-la, e ao comparti-la tanto mais aumenta.
(*) Crônica publicada no jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria, RS, edição de 31 de maio e 1ºde junho de 2008.

2 comentários Sábado, 31 de Maio de 2008 às 07:18 Vera Pinheiro


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