Arquivo de Agosto de 2008
Vera Pinheiro
Depois de meses de secura, choveu esta noite na minha horta! Nela e em boa parte de Brasília, acredito. O ar está fresco, a temperatura amena e a umidade relativa do ar equilibrada. O cheiro de terra molhada parece um sorriso da natureza depois do banho. E não há mangueira de água que faça mais pelas plantas, árvores e gramados do que algumas horinhas de chuva. O cenário se refaz lindamente!
A capacidade de a natureza se refazer me encanta e me identifico com isso. Quantas vezes estou me sentindo “meio mais ou menos” e basta uma alegria simples para me colocar de volta a um bom estado de alma. Um plano, um projeto, um sonho trazem de volta a expectativa, o olhar feliz sobre o futuro, que começa já. A maturidade colocou meus dois pés no chão, firmes na realidade, olhando tudo com a dimensão que as coisas têm, sem mais nem menos. Mas ainda preciso me animar com o que virá, com o amanhã que surge das minhas idéias e refrigera o cotidiano, como chuva da noite a aplacar a seca.
O que quero, escolho e decido hoje terá repercussão no futuro, assim como o presente é o dia seguinte do meu ontem. Por isso, reavivo minha capacidade de fazer a trajetória a cada momento, para que depois não cobre de mim mesma o que deixei de fazer por medo, preguiça, acomodação ou por pensar que tudo está feito. Boa parte, uma grande parte já foi construída, mas a obra da vida continua. Sempre há o que fazer, algo para melhorar, mais uma etapa a vencer. Este é o encanto da realização de cada dia, e continuo a aperfeiçoar o caminho, a fazê-lo, a me refazer para me completar.
Domingo, 31 de Agosto de 2008 às 08:40
Vera Pinheiro
O PERDÃO DIFÍCIL
Vera Pinheiro
Perdoar não é o que há de mais fácil no campo dos sentimentos. Precisa de humildade, boa vontade, curvar o ego e detê-lo na sua intenção de manter vivo o ressentimento. Se a ofensa vem de um desafeto, virar-lhe as costas não custa muito, afinal, ele não nos importa, não tem espaço em nosso coração. De certa forma, estamos preparados para qualquer coisa ruim que possa vir dele. Porém, quando um amigo, uma pessoa da família, um colega a quem queríamos bem, um conhecido que ganhou nossa confiança, uma pessoa amada, enfim, cava uma tristeza em nós, a surpresa nos toma de súbito e a mágoa se engrandece. O perdão se impõe, mas exige força interior, especialmente para carregar com ele o esquecimento.
O que nos melindra é o inesperado, a falta de razões que, julgamos, o outro não tem para o ataque que nos espanta e impede a resposta rápida, o revide ou o pedido de explicações. Ficamos calados, remoendo a dor que se agiganta pela incompreensão, enquanto perguntamos mil vezes a nós mesmos: por que terá feito aquilo? E vem a sensação quase inevitável de culpa, por isso vasculhamos os acontecimentos para saber se demos causa - ou não - àquela reação imprevista que castiga as emoções.
Se um mal-educado bate com o telefone em nossa cara, temos uma explicação: é grosseiro mesmo! Sabendo disso de véspera, no máximo vociferamos alguns palavrões ainda com o aparelho em mão antes de desligarmos, não sem mil promessas de que jamais voltaremos a falar com ele. Mas se isso parte de alguém cujas atitudes são de suavidade e delicadeza, não sabemos o que pensar. Não há justificativa que torne menor a agressividade que nos parece à toa e imerecida.
A traição de uma amiga do peito abre um rombo no coração. A ela confidenciamos passagens secretas de nossa vida, permitimos acesso a vivências não-compartilhadas, entregamos a chave do sótão emocional, informamos a senha de nossos melhores desejos. Fosse outra, que não merecesse esse desprendimento, seria imprevidência ter dito tanto. Mas essa, não! A desconfiança não se havia instalado até a deslealdade cometida. Como perdoá-la por isso?
A ofensa vinda de alguém que tem laços de sangue conosco é muito maior do que se fosse praticada por quem se pode abandonar à própria sorte, acreditando que a vida cobrará os seus malfeitos. Em todas as gerações de uma família ninguém devia se maltratar com gestos ou palavras, pois é muito complicado perdoar os que mais conhecem as sombras de nosso ser. Não havendo laços, ficamos muito aborrecidos, xingamos ou damos um silêncio gélido como resposta. Quando há afeto, tudo o que o outro faz contra nós assume uma grandiosidade tamanha que dificulta o perdão, isso porque a intimidade de que desfrutou não confere direito de atingir nossos pontos fracos e de ferir justamente a fragilidade de que tanto queremos nos libertar.
Alguém que se empenha em nos derrubar do alto das conquistas que alcançamos será apenas um concorrente desleal, se com ele não tivermos relação de amizade. Porém, se usar a proximidade em proveito próprio, acabará a estima, e desta nos arrependeremos muito. Dos que não têm valores profissionais a preservar no relacionamento de trabalho nos desviamos à maior distância possível e tratamos de evitar a convivência, sem alimentar recordações dos fatos, que um dia serão esquecidos. Porém, aos amigos que se revelaram inimigos em circunstâncias que deveriam comprovar a sinceridade deles, devotamos uma lembrança que os faz inesquecíveis.
Os que dividem a vida conosco têm muito mais do que dias e noites junto. A privacidade, que defendemos a todo custo, é uma porta larga para eles. O conhecimento a nosso respeito, que deve ser valorizado, não pode se transformar em ponte para nos humilhar, agredir, criticar, mas para compreender, apoiar e incentivar. O desgosto é muito grande se nos magoam, e perdoá-los é quase um sacrifício para a alma.
Na realidade do convívio com as pessoas, às vezes o perdão é muito difícil e demorado, mas necessário. Perdoamos a quem amamos muito, isso é tudo. Com os demais, aprendemos que é preciso dar repouso à dor que nos causaram.
(*) Crônica publicada na edição de 30 e 31 de agosto de 2008 do jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria (RS).
Sábado, 30 de Agosto de 2008 às 09:23
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Billy é um amor! Lindinho, alegre, gosta de agradar as donas, é esperto e um verdadeiro cão de guarda. Ele dá o alerta quando vê qualquer movimento diferente em torno da casa. É verdade que, às vezes, ele faz muito alarido por coisa pouca, mas não tem importância, eu relevo. Basta um dos gatos da vizinha subir em uma de nossas árvores para deixá-lo desvairado. Um sapo, em época de chuva, faz Billy latir sem cansaço por uma noite inteira, se a gente não acudir… o sapo, claro.
Eu amo Billy e Billy ama um coração de veludo, presente que ganhei, certa vez, e de que gosto muito. Um vão da porta é suficiente para que esse cãozinho entre no recinto, pegue o coração com a boca e comece a mordê-lo até virar pelo avesso. Não foi uma apenas, foram incontáveis vezes que Camila e eu salvamos o coração de ser despedaçado e o presente, perdido.
Hoje mesmo dei mais um flagra em Billy! Ele dribla a gente, ágil como é, e abocanha o coração desavisado. “Larga isso já! Este coração não é pra tua boca, cão!”. Xinguei o bicho com toda a vontade, tomei nas mãos o coraçãozinho de veludo, que recompus, e minha voz ficou retumbando nos meus ouvidos. Se coração não é pra cão (e eu adoro o Billy!) por que deixar o coração ser machucado por um “cachorro”, por quem a gente se apaixona?
Quando brigo com ele, Billy faz essa pose! Quem resiste?!
Quinta, 28 de Agosto de 2008 às 11:54
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Estou numa encruzilhada, aquele tipo de situação em que a gente não sabe o que fazer. De um lado, fiquei muito contente com a notícia (surpresa!) de que um ex (maravilhoso antes, durante e depois) está morando em Brasília, onde moro. Quando ele me ligou, já fazia um tempão que não o via pessoalmente e desde há muito não falava com ele nem telefone, mensagem, MSN etc e tal.
- Querido, que bom ter notícias tuas!
(Minha alegria era sincera, os olhinhos até brilhavam!).
- Estou morando aqui!
(Passei a mão num copo d´água e bebi três goles – para acalmar).
- Sério?! Que maravilha!
(Disfarcei, mas claro que pensei em mil possibilidades com ele, respirando o mesmo ar da mesma cidade!)
- Aparece lá em casa! Vou adorar te rever! E me conta, estás gostando daqui?
(Eu, toda entusiasmada, encompridando o assunto).
- Estou, sim. Minha mulher é que não está gostando muito.
(Engoli a surpresa, pensei num Plano B urgente, fiz aquela voz absolutamente “normal” e continuei a conversa).
- Ah, mas no começo é sempre assim, depois vem a adaptação e a descoberta do melhor que há por aqui… Brasília é um bom lugar para se viver!
- Já que você convidou, qual é o endereço? Ainda é aquele?
- Não, não, mudei. Depois daquele tempo, mudei. Anota aí…
(Ele anotou e eu me senti vitoriosa por ter conseguido evitar de dar endereço errado, como era da minha vontade naquele momento, já sem saber o que fazer do meu convite precipitado).
- Então, está certo. A gente se fala.
(Quase desliguei! Detesto a frase “a gente se fala”, de triste memória para mim).
- Em breve, faremos uma visita para você.
(Que coisa mais odiosa a criatura falar na primeira pessoa do plural… Por que “nós”? Terá deixado de ser um indivíduo depois do casamento? Só pensa a dois, por dois, por nós, por vós, por eles?!)
Beijinho pra lá, beijinho pra cá… e agora, José? O convite se estende à esposa, em havendo uma. Mas eu tenho de passar por essa saia justa? Digamos que eu possa encarar, mas preciso? Eu quero muito rever esse ex, mas não contava que ele estivesse casadíssimo.
Coisa braba a gente ficar tempo demais sem notícia dos ex! Preciso “passar a tropa em revista”, dar baixa em alguns nomes, recuperar outros, para não ter surpresa como essa. Que pena, o cara é um amado, mas, lamento muito, casou… fodeu! Não dá para brincar de amiguinho com ex que, agora, tem titular. Fico no meu escanteio. De boa, juro!
Quarta, 27 de Agosto de 2008 às 16:39
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Passei hoje numa loja e vi dois produtos interessantes. Pena não ter anotado os nomes nem os preços, para o caso de alguém se interessar. Um deles é um suporte de bunda acoplado a uma calcinha. A mulher veste a geringonça e fica com o traseiro realçado, erguido e arredondado. É uma lingerie e não é, ao mesmo tempo. Seria uma bunda falsa, mas é uma calcinha. Enfim, o que importa é o efeito proposto: arrancar olhares e suspiros, aumentar a auto-estima feminina, sentir-se atraente. Hã-hã. Ninguém diz com que cara a gente fica ao tirar a dita cuja e mostrar que, atrás, não se tem tudo aquilo. Só se for no escuro, mas isso não tem graça. Ficaram devendo, na propaganda, uma orientação básica de como se portar ao despir a coisa. Dá pra dizer: “surpreeeeeesaaaa”?. Não dá. Com ela, a gente até sabe. Ou imagina. Afinal, quem é pouco dotada de curvas e volumes ao menos pode supor como seria se fosse.
O outro produto é na mesma linha engana-que-eles-gostam. Um sutiã com enchimento, que põe o peito lá na frente e para o alto. Um espetáculo! Mas, de novo, não vi explicação alguma para o “depois”, quando a gente abre a fivelinha e mostra que não era bem assim como foi sugerido. Será que a decepção dá reclamação no Procon? Isso é propaganda enganosa, 171 no corpinho!
De todo modo, prefiro não correr riscos. Fico com os meus peitinhos honestos e a minha bunda sincera. E a pergunta que não quer calar: o que será que inventaram - na mesma linha - para os homens? Oh, que meus olhos jamais se enganem! E se estiverem enganados, que minhas mãos apalpem! E se minhas mãos apalparem e não encontrarem nada… que eu tenha pernas de Maurren Maggi para saltar longe.
Terça, 26 de Agosto de 2008 às 17:04
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Como será que o tempo mede as horas?
Quando estamos felizes, as horas voam, mas elas são intermináveis na tristeza.
Em boa companhia, não vemos o tempo passar; com aqueles de quem não gostamos, ele se arrasta.
Durante uma atividade prazerosa, não cuidamos dos minutos, mas ficamos de olho neles quando fazemos algo aborrecido.
No fim de semana, o tempo passa rápido e não podemos fazer tudo o que desejamos. Na semana, as horas parecem não andar.
Nas férias, as horas são curtas para todos os prazeres. De volta ao trabalho, são enormes!
Envolvidos com algo que nos agrada o tempo é pouco, mas ele é imenso quando fazemos coisas por mera obrigação.
Então, não é o tempo que mede as horas, os minutos e os segundos, e sim o quanto estamos felizes. A alegria faz rodar o tempo, a chateação o paralisa, então vem essa impressão de perder tempo com o que não é agradável e de esgotá-lo rápido quando estamos contentes.
Segunda, 25 de Agosto de 2008 às 11:52
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Então, pensei assim: hoje vou dar as frutas; amanhã, as flores. Uma coisa de cada vez. Depois, refiz a idéia: por que deixar para amanhã se posso compartilhar hoje as alegrias que sinto? Sei lá se amanhã poderei fazer isso. Com pessoas também agimos assim: damos afeto em conta-gotas. Um pouco hoje, um tanto amanhã. Aí, a vida passa, nos envolvemos com mil tarefas e não damos de nós. As flores em nossa casa nascem à revelia da minha atenção. São pacientes comigo. Ficam a espera de que eu possa contemplá-las em sua beleza. As pessoas não são assim, se impacientam quando não temos tempo para estar com elas.
Hoje me detive a olhar as flores, a saudá-las, dizendo “que lindas!”. Quantas vezes deixamos de dizer às pessoas o que admiramos nelas, mas não perdemos nenhuma oportunidade de apontar o que não gostamos. Precisamos aprender com as flores, que se entregam ao nosso olhar tantas vezes distraído. As flores fazem a sua parte, enquanto nós queremos primeiro mudar o outro para que seja como nós queremos. E dizemos pouco do nosso carinho, uma pena.
Vou ocupar o meu domingo com as flores. Percebi que elas estão precisando de atenção e cuidado, tanto quanto algumas pessoas que moram em meu coração, mas não tenho dito isso.
Trevos de quatro folhas. Boa sorte!
Flores de paz à porta.
Elas nascem em qualquer lugar
Domingo, 24 de Agosto de 2008 às 10:47
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Há muitos dias não olhava as árvores do quintal. Passava por elas apressadamente, sem me deter diante do espetáculo da gestação de frutos. Hoje cedo provei uma carambola que já estava madura e me encantei com o sabor! A árvore não tem um grande porte, mas está carregadinha, e seus frutos verdes se confundem com as folhas, pelo formato. Como está bonita!

As mangueiras estão tomadas de flores, anunciando que darão muitas iguarias em breve. São muito generosas!

O pé de romã está vermelhinho e já tem frutas prontas, uma melhor que a outra!

A natureza é pródiga. Preciso encontrar mais tempo para observar as árvores, que não me pertencem, são da terra, mas se ofertam a mim até mesmo quando estou ocupada demais para dizer que as amo.
às 10:29
Vera Pinheiro
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