Arquivo de Setembro de 2008

Hoje

Vera Pinheiro
Hoje eu comemoraria 30 anos de casamento. Como o meu humor não está bom para lembranças, melhor cumprimentar as secretárias eficientes e educadas, no dia dedicado a elas. Nem vou falar de simpatia como atributo, apenas de boa educação e competência. Meu humor está tão “assim/assim” que hoje é um dia para ficar quieta, no meu canto, como ontem e no domingo. Teria vontade de abrir o verbo e gritar, contar, desabafar. Ainda bem que aprendi, a chicotaços no coração, que nem tudo se pode dizer. O silêncio é um duro aprendizado.

Mas, como dizia a minha mãe, “não há bem que sempre dure nem mal que não se acabe”. Setembro termina, amanhã é outro dia. Tudo vai passar. Tudo passa. Paciência e silêncio a gente deve cultivar sempre! Ainda estou aprendendo isso.

Adicionar comentário Terça, 30 de Setembro de 2008 às 09:48 Vera Pinheiro

Crônica da semana (*)

DESCULPAS
Vera Pinheiro

“Chefe, hoje eu não vou trabalhar porque estou com preguiça. Não estou a fim de fazer coisa alguma, quero ficar de pernas para o ar, descansar ou fazer algo mais agradável do que as minhas tarefas no serviço”. Por telefone, por e-mail ou pessoalmente, dizer isso a quem remunera o nosso trabalho seria arriscar-se a uma suspensão, no mínimo, ou a receber férias forçadas por meio de demissão pelo desaforo, que é a mais pura, inaceitável e incompreendida sinceridade. Não que o chefe seja mau, mas temos compromissos a cumprir por força de contrato, por profissionalismo e por respeito ao que somos e à carreira construída. É verdade que, às vezes, dá vontade de dizer isso, embora nem às paredes confessemos tal desejo.

Quantas vezes acordamos de manhã e gostaríamos que fosse domingo ou feriado, que estivéssemos de recesso ou em férias ou, ainda, que não precisássemos de emprego e de salário. Em dias assim, precisamos reunir ânimo e coragem para botar o corpo em pé e tomar o rumo do serviço, onde contamos as horas para encerrar o expediente, enquanto resolvemos o que é de nossa competência e responsabilidade. A chefes não se dão desculpas, apenas justificativas convincentes e comprovadas em situações graves e extremas. Preguiça não se declara, fica apenas na intenção. Então, a reboque vamos trabalhar, e da melhor forma, esperando chegar logo o fim de semana, de preferência sem plantão.

Com os amigos agimos de outro jeito. Alegamos não ter vontade de sair de casa para ir ao encontro deles numa diversão para a qual nos convidaram. Damos uma desculpa esfarrapada ou dizemos a verdade. Deixamos de ir ao cinema com alguém que nos convida de bom grado. Dançar num sábado à noite? Nem pensar! Cansa! Aceitar um almoço em boa companhia também não. Fica para a semana que vem, para o mês seguinte ou para o outro ano, quando for possível ao nosso querer.

Assim a vida passa e enfraquecem os relacionamentos entre as pessoas. Quando percebemos, estamos cercados de solidão: ninguém nos chama nem para batizado ou formatura, e sequer nos avisam de velórios. Fomos excluídos das listas dos amigos e dos contatos que tínhamos: o telefone não toca senão por engano, a caixa postal eletrônica só tem spam e pela via postal chegam contas a pagar e mala direta de empresas, tão-somente.

Se temos comprometimento com o trabalho e a ele não faltamos senão por motivo de força maior, por que a relutância em aceitar oportunidades divertidas, como uma saída com amigos? Por que não dedicar uma parte de nosso tempo para telefonar a alguém há tempos em silêncio, visitar um parente, conversar com um colega? Antes que nos tornemos eremitas, abramos casa e coração para receber pessoas, amigos, confraternizar, rir à toa, falar sobre tudo e qualquer coisa, ou seja, compartilhar a vida.

Envolvimento com o trabalho é importante, sim. Ele contribui para nossa evolução intelectual e material, é fundamental ao aprendizado da convivência em grupo e nos integra a um meio social. Trabalha bem quem desempenha suas atribuições com qualidade e presteza, mas não basta. A pessoa precisa estar bem, saudável física e emocionalmente, e fora do ambiente profissional ter vida própria, que se reflete no que faz. Gente feliz trabalha melhor e rende mais. Além disso, é bom que seja realizada na profissão que escolheu e goste do emprego que tem, caso contrário deve avaliar se não é hora de mudar de caminho ou o modo como vive.

Amar o trabalho não implica abandonar o que há do lado de fora desse ambiente: família, amigos, amores, passeios, espiritualidade, tudo em equilíbrio, pois ninguém agüenta viver só trabalhando e se largar na farra não dá sustento. Tudo que é excesso merece ser podado. Pensemos, então, a respeito de como nos conduzimos, sobre as escolhas que fazemos e se conciliamos as diversas áreas de interesse. O trabalho dignifica e lazer é necessário. A desculpa da preguiça pode esconder uma insatisfação que não foi admitida e precisa ser sanada. Talvez seja um esconderijo, uma fuga, medo de conviver com o mundo e com os outros.
(*) Crônica publicada na edição de 27 e 28 de setembro de 2008 do jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria (RS).

Adicionar comentário Sábado, 27 de Setembro de 2008 às 11:05 Vera Pinheiro

Dupla comemoração

Vera Pinheiro
Esta semana foi animada na Vice-Presidência da República, onde trabalho. Primeiro, ficamos todos muito felizes com o retorno do Vice-Presidente José Alencar ao trabalho, depois da cirurgia a que se submeteu. Para mim ele é um exemplo de fé e tenacidade, e tem um vigor físico admirável, além de ser um amor de pessoa. Para saudar a vida do jornalista Amaury Teixeira Machado, assessor de Comunicação Social, mineiro de boa cepa, além de um ser humano dos mais sensíveis e bem-humorados que conheço, os colegas fizeram um happy hour com ele numa churrascaria. E hoje comemoramos o aniversário da colega Débora Cristina Coelho, secretária da chefia de gabinete, uma menina ótima, que tem um sorriso permanente no rosto. Quando ela diz “bom dia” até os desanimados se recobram!

De véspera, o pessoal se organizou e montou uma festa para Débora e Amaury, que são queridos por todos. Colocamos até chapeuzinho para os parabéns! O tema da decoração e do bolo homenageou a feminilidade da aniversariante: Hello Kitty. Tudo ficou lindinho e muito alegre. Pena que durou pouco, pois apenas fizemos um breve intervalo no expediente.

Acho tão boas essas homenagens aos colegas! Afinal, das 24 horas do dia, pelo menos oito delas passamos em companhia de pessoas que fazem parte do nosso cotidiano e com quem convivemos estreitamente de segunda a sexta, geralmente por muito mais tempo que dedicamos à família.

O envolvimento com o trabalho e o tempo escasso não permitem estreitar laços de amizade com as pessoas com quem temos relacionamento profissional. Mas isso não impede que cultivemos afeto por elas e que demonstremos carinho em datas especiais como um aniversário.

Deveríamos abrir espaço em nossa rotina atribulada para dizer que gostamos das pessoas, que as admiramos, que a convivência com elas nos alegra. Pena que sejamos tão econômicos em nossas manifestações de ternura.

De modo geral, as pessoas se envolvem tanto com o trabalho que esquecem de viver o mais que existe além dele. Arranjam desculpas para não participar de diversões, de encontros descontraídos com amigos, de alguma farrinha boa e sem conseqüências.

Há dias em que gostaríamos mesmo de largar todos os compromissos e apenas curtir a vida, mas isso é impossível. Simplesmente não dá para chutar o pau da barraca e viver de brisa. Então, precisamos aprender o equilíbrio entre os compromissos profissionais e o lazer. É disso que falo na crônica da semana, amanhã aqui no blog e no jornal A Razão, de Santa Maria, RS. Pensei muito sobre as muitas desculpas que dei para não conviver com o mundo fora do trabalho, e agradeci à vida por ter aprendido que, se o trabalho me realiza, há mais que me nutre e faz feliz fora dele.
Debora e eu - Debora e eu Débora e eu (de chapeuzinho, uma coisa!)
Debora e Amaury - Debora e Amaury Os aniversariantes do dia: Débora e Amaury.

1 comentário Sexta, 26 de Setembro de 2008 às 21:37 Vera Pinheiro

Acordar bela

Vera Pinheiro
“A estilista Lenny Niemeyer, 55 anos, acordava sempre 15 minutos antes do marido. Corria ao banheiro, lavava a pele, escovava os cabelos e os dentes, passava perfume, apertava as bochechas e voltava pra cama linda e gloriosa. Essa mulher fez isso anos a fio. Eu não! Pra me ver de manhã, tem de me amar muito'’, contou a atriz Carolina Ferraz.

Quanto a mim, o homem tem (mesmo!) de me amar muito (por tudo o que sou e mereço de amor) e ser, preferencialmente, míope. Esconderei seus óculos embaixo do meu travesseiro para que a cara amassada, os cabelos desgrenhados e aquele ar de preguiça sejam vistos por ele como a um retrato fora de foco.

Que mulher acorda deslumbrante? Que homem merece o esforço hercúleo de acordar antes dele e retocar a imagem antes que ele abra os olhos e possa vê-la? E qual faria o mesmo para contentar a mulher? Ela, lindona e cheirosa. Ele, com bafo e remela nos olhos. Não é justo! O homem de Lenny, que não sei quem é ou foi, talvez merecesse tamanha maratona diante do espelho. Eu não conheci quem valesse perder aqueles 15 minutinhos de sono tão bom, antes de pular da cama para um dia de trabalho. Um bom sono embeleza, dá frescor ao rosto e nada como um corpo descansado para deixar a mulher encantadora. Se dormir mal, a impressão é a de que acabou de chegar de uma balada forte na noite e emendou com o dia sem fechar os olhos. Ou que dormiu e teve pesadelos, dor de barriga ou sonhou com um ex muito amado. Não tem coisa pior para acabar com o sossego do que sonhar com ex, aquele que já se foi e que, de vez em quando, atormenta nossas noites. Parece que nem dormimos: acordamos com o espírito sugado pelas lembranças, e as boas maltratam mais do que as nem tanto.

Nesta manhã, minha filha abriu as cortinas, escancarou a janela do meu quarto, deixou o sol cobrir a cama e falou comigo em linguagem ininteligível para mim, porque me era difícil recobrar a consciência de “quem eu sou, onde estou, para onde vou” e saber que dia da semana é hoje. Mantive um olho aberto e outro fechado por algum tempo, durante aqueles 15 minutinhos de preguiça que jamais eu dedicaria a um homem, como Lenny Niemeyer fazia. Camila sabe me acordar de um jeito que não me tira o humor de manhã cedo, por mais cansada que eu ainda esteja ou esgotada a paciência dela. Eu detestava quando minha mãe dava um grito na porta do quarto e as cobertas voavam com o susto. Meus filhos sempre disseram que a missão mais difícil que têm comigo é me acordar. Por isso, acostumei a levantar antes deles, ressalvadas as exceções que confirmam a regra.

É ruim acordar tarde, ainda com sono e atrasada. Entretanto, é muito pior acordar de sopetão ou sob gritos. Posso testemunhar que vale muito diminuir um pouquinho o tempo de sono só para tomar café sem pressa, ao lado de quem amamos. O café da manhã com minha filha está na lista do que é indispensável ao meu bem-estar, mesmo que, a partir daí, corramos o dia inteiro. Sei de muitas famílias que pulam refeições ou não estão juntas em nenhuma delas, e recomendaria esse prazer que aproxima corações, mesmo que seja à beira de uma xícara de café preto com um biscoitinho com manteiga, tudo simples e não muito prolongado, porque, afinal, não é domingo e o patrão está a nossa espera.

Quem me ama muito atura a minha cara assustadora de manhã cedo. Não acordo bela, portanto, especialmente no segundo semestre do ano, que tem me apresentado muitos assuntos para resolver em casa e fora dela. Tenho trabalhado o tempo todo e, naturalmente, ando exausta.

Nada como um banho frio para acordar o corpo! Debaixo do chuveiro faço uma conexão com as Mães das Águas, rezo para meu anjo da guarda e depois recito o número do meu CPF, que me põe em contato com o mundo material. Então, me olho no espelho e gosto de quem vejo. Faço uma declaração de amor por mim mesma e agradeço pela vida que recomeça a cada dia.

Isso me recobra do sobressalto que tenho ao ver a minha cara refletida no espelho, logo que acordo. E dou graças porque quem me ama não se importa se estou feia ou bonita. Apenas me ama muito, e isso é tudo.

Adicionar comentário Quinta, 25 de Setembro de 2008 às 09:35 Vera Pinheiro

Saudade

Vera Pinheiro
Há dias em que a saudade aflora, surge de repente, inesperada e sem querer, invadindo a mente, acordando as lembranças, despertando a memória do corpo e acionando os registros do prazer, do toque, do beijo, das palavras e da confluência de desejos. Um grande amor a gente nunca esquece, não apaga, por maior e mais determinada que seja a intenção do esquecimento.

A consciência do desfecho infeliz de uma história de amor nos traz de volta à realidade, ao silêncio, à ausência, ao não querer do outro, que um dia foi tão amado, e talvez não seja menos amado agora, no presente, porque apenas está embalado na aceitação de que nada voltará ao estado anterior, quando a pessoa estava ao nosso lado e trazia tanta felicidade ao nosso cotidiano. Saber que nada se repetirá e que nada será como dantes foi, com aquele nem com outro, nos coloca de frente com os fatos que atravessaram nossa alma como espadas afiadas, e fazem jorrar lágrimas que não podemos conter ou nos colocam em estado de prostração diante das evidências. Nós simplesmente nos damos por vencidos e nos resta apenas a conformação com o ocorrido, mesmo que não concordemos com ele ou que soframos ainda por tudo o que se passou.

Enquanto vivenciamos alguma esperança de reencontro com a pessoa que tanto amamos um dia, nosso coração se ilumina, mas depois das certezas de que a situação é irreversível não há expectativas, há um enfrentamento das circunstâncias, por mais dolorosas e decepcionantes que sejam. “Acabou para sempre” quer dizer um ponto final, por mais linda que tenha sido a história. Reconhecer o fim carrega nuvens de tristezas inevitáveis, contra as quais lutamos, querendo ser mais fortes do que a dor da perda.

Há dias em que me lembro com enorme saudade de pessoas que amei muito e que parecem fantasmas a assombrar os meus dias. Não me desvencilhei delas como gostaria e como precisaria, mas decidi viver plenamente apesar da saudade. E ter optado pela vida e não pela saudade me fez menos triste do que se tivesse erigido um templo em memória delas. Apenas preciso admitir que essas pessoas são inesquecíveis e que recordá-las dói, sim, mas isso não me impede de viver. Sinto enorme saudade delas, mas ainda estou viva e com a coragem que me impede de sucumbir à frustração de não tê-las mais comigo.

1 comentário Quarta, 24 de Setembro de 2008 às 22:56 Vera Pinheiro

Primavera

Vera Pinheiro
Só porque chegou a primavera meu coração se enche de contentamento! Foi-se o inverno! É tempo de flores, cheiros e cores da estação mais enfeitada do ano e, para mim, a mais bonita. Que ela nos anime e encante, fazendo-nos perceber a rica diversidade da natureza, que é grandiosa e delicada. Abramos nossos olhos para observar o que nos cerca, pois há muita beleza a contemplar. Vamos renovar nossa capacidade de apreciar a vida em todas as suas manifestações, reverenciando o divino que em tudo há e se manifesta.

Enquanto isso, aproveitemos para mudar a estação de nosso ser, passando do inverno de nossas emoções para o florescer de sentimentos felizes. Deixemos de lado as amarguras, os ressentimentos, as dores e as mágoas, transmutando isso tudo em amor, paz, perdão e harmonia. Deixemos a luz divinal penetrar em nossa vida, clareando as sombras e resolvendo-as. Não nos apeguemos a tristezas, que elas se acalmem e passem para o esquecimento ou, ao menos, para o sossego. Vamos nos sintonizar com a parte melhor da existência, não com a parte rude, triste e decepcionante. Não vamos nos contaminar com energias densas, negativas. A conexão de nosso espírito deve ser com o sublime, o pacífico e o amoroso.

Estejamos bem na primavera, em perfeita sintonia com a estação que faz brotar flores para enfeitar o caminho. Que nossa presença seja perfumada e alegre, onde quer que estejamos e em tudo que fizermos. As pessoas são flores de diferentes matizes. Gostamos mais de umas do que de outras, mas todas procedem da Deusa-Mãe e do Deus-Pai. Isso já basta para amá-las. E o amor, o mais puro amor, transforma não os outros, aqueles de quem gostamos menos, mas a nós, que passamos a olhar todos com mais paciência, compreensão e aceitação. Feliz primavera para todos nós! E queres saber? Adoro ter meu nome na estação mais florida e perfumada do ano!

Adicionar comentário Terça, 23 de Setembro de 2008 às 11:29 Vera Pinheiro

O valor de um presente

Vera Pinheiro
O valor de um presente não está no preço, mas no significado dele. Não está na forma e no conteúdo, porque, dado e recebido com amor, o faz parecer um coração. Não está no tamanho, porque é medido pelo carinho de que se impregna. Pode ser um presente comum, mas será único pela ternura em que se envolve. Pode ser simples, entretanto se tornará precioso pelo afeto que contém. Pode não ser o mais lindo, mas nenhum outro terá beleza igual. Pode não ser o mais caro nem o melhor, mas terá um valor imensurável porque o sentimento fará dele um tesouro. Um presente dado e recebido com amor eterniza laços e representa uma lembrança feliz da pessoa que o deu, se a apreciamos e a temos no melhor conceito e carinho.

Guardamos presentes de quem amamos e de quem é nosso amigo. Se recebemos algo de alguém cuja energia não se harmoniza com a nossa, queremos logo nos desfazer dele, porque não nos traz contentamento e baixa o nosso ânimo cada vez que olhamos para aquilo que recebemos. O presente mal-recebido nos puxa para baixo, não nos alegra, do mesmo modo que a pessoa faz, quando em contato conosco.

O dinheiro compra o que precisamos, do jeito que queremos e quando podemos. Não temos tudo o que desejamos, se nossos sonhos de consumo são mais altos do que as nossas posses. Esperamos, então, que nossa renda aumente para adquirirmos o que materialmente nos contenta. E se os ganhos crescem, se elevam também o preço e a qualidade do que almejamos ter. Um presente não se avalia pelo seu custo, mas pelo amor em que veio embalado. Por isso, pode ser mesmo qualquer coisa e, ainda assim, será raro. Não é o presente em si o que importa, mas a pessoa de quem ele veio.

Há pessoas que não sabem receber presentes e não os valorizam. Gostam mais do que compram e menos de pessoas. Há aquelas que presenteiam pelo preço, para impressionar o presenteado. Há quem dê presente apenas para cumprir formalidades em datas especiais. Há as que recusam ser presenteadas e as que simplesmente dizem “não quero” ou “não preciso”, acrescentando um agradecimento ou uma desculpa para tentar amenizar a indelicadeza.

Cada um dá o que tem e o que pode, e não deve dar o que não tiver ou que esteja acima de suas possibilidades. Todos devem dar presente, não importa o que seja, com carinho e vontade. Presentear alguém nos alegra profundamente! Esse prazer vem da alegria que, imaginamos, a pessoa sentirá ao receber e esperamos que nossa melhor energia, colocada no objeto, no pacote, no cartão seja bem recebida, aceita e compartilhada.

Presenteamos um pedaço do coração, quando o amor é grande. E se não for amor, ao menos por simpatia e amizade. Vislumbrar a satisfação do outro ao receber o que damos é a melhor parte de qualquer presente. Então, murcha a nossa alegria quando o outro não quer, não recebe ou desfaz o que damos com tanta boa vontade. Sentimo-nos, de certa forma, privados de dar felicidade em forma de presente, especialmente se gostamos de contribuir, de alguma forma, para o bem-estar dos outros, mais ainda quando são pessoas muito amadas, apesar de elas não saberem o quanto.

Estou muitíssimo feliz com presente que ganhei de um casal amigo, Pedro Paulo e Simone Rogoski, ambos gaúchos que moram em Brasília, como eu. Certa vez, eles foram ao Rio Grande do Sul e passariam por Itaqui, a cidade onde nasci, e me perguntaram se eu queria alguma coisa de lá. “Uma pedra das ruas de Itaqui” foi o que pedi. Daquela vez, a rota de viagem mudou e eles não foram lá, então me trouxeram uma lembrança do Sul, que adorei e que está junto da estante onde guardo meus livros preferidos. Na semana que passou, Simone foi a Itaqui e, para minha alegria, trouxe-me o presente que tanto eu queria: uma pedra das ruas da cidade onde deixei o meu umbigo.

Fiquei tão feliz e emocionada que Simone e Rogoski não podem imaginar o tamanho do presente que me deram, por mais que eu tenha expressado isso a eles. “É uma pedra pequenininha”, desculpou-se ela, prometendo, sem necessidade, que numa próxima visita me trará uma pedra maior. Não é preciso, minha amiga tão querida. Não é o tamanho, é o valor do teu gesto que me comove e me faz chorar de emoção quando olho o teu presente sagrado, que coloquei no altar da minha devoção, onde todos os dias faço as minhas preces, e nelas incluo a ti e a tua família.

Faltava-me muito materializar o elo com as minhas origens mais longínquas e tu me permitiste alcançar isso. A pedrinha é mais preciosa do que uma jóia e mais rica do que aquilo que o máximo de dinheiro poderia comprar, pois para mim tem significado imenso e indizível e, além disso, o carinho e amizade de vocês têm valor imensurável.

Um presente dado e recebido com amor não se avalia como bem material. Ele precisa falar ao coração de quem dá e de quem recebe. Por isso, entendo quando alguém desmerece o que damos ou não quer receber um presente que gostaríamos muito de oferecer. A pessoa não quer nos poupar do investimento que faríamos de bom grado e muito felizes por isso, quer evitar ter algo que lembre de nós todos os dias no seu cotidiano.

Sempre lembrarei de Simone e de Rogoski com meu melhor carinho. A pedrinha de Itaqui é um presente magnífico, valiosíssimo para mim!

3 comentários Domingo, 21 de Setembro de 2008 às 11:44 Vera Pinheiro


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