Arquivo de Janeiro de 2009
Vera Pinheiro
“Conselho, se fosse bom, a gente vendia, não dava de graça”. Em várias circunstâncias o dito popular se aplica. Por isso, existem tantas frases inúteis, apesar das boas intenções de que elas se cercam.
“Não te preocupes!”. Dizer isso a uma mãe ansiosa é falar com as paredes. Ela vai se preocupar de qualquer forma e rodear os filhos de todos os cuidados. Não pretende invadir a privacidade deles, mas quer protegê-los, e necessita de algum tempo para se desvincular da responsabilidade que esqueceu de delegar: o zelo que cada um deve a si mesmo.
“Não foi nada…”. Ninguém é capaz de medir a repercussão de um fato para a vida de outrem. Tentar minimizar uma vivência, sem poder alcançar todo o seu significado, é não respeitar o universo alheio.
“Tu precisas mudar!”. Esse tipo de discurso entra por um ouvido e sai pelo outro, sem registro. O indivíduo se transforma pela própria vontade ou por necessidade íntima. Muda naquilo que acha que deve e quando se esgota de padecer por uma característica que passa a incomodá-lo mais do que aborrece os de seu convívio.
“Eu ainda te amo!”. Só com grande esforço, ou por um amor desmedido, a mulher consegue confiar de novo no homem que a traiu. Pode relevar o episódio, mas muita água vai rolar embaixo da ponte até acreditar totalmente no que ele diz, depois do pulo sobre a cerca do relacionamento. E se o traidor acrescentar “Não teve importância para mim”, fica difícil não achar que foi pura safadeza, quase um certificado de garantia de que a cena terá reprise, cedo ou tarde.
“Eu te quero bem…”. Para quem ama e não é amado, isso é pior do que o silêncio, que ao menos não alimenta esperanças em relação ao que o outro sente, muito menor do que o desejado.
“A gente se fala…”. Essa é a campeã das frases pronunciadas por aqueles que não encontram coragem para dizer “Não quero nada contigo!”. É improdutivo esperar que um reencontro se realize num dia que talvez nunca chegue. A vice-campeã é “Preciso de um tempo…”. Dar-lhe a eternidade é suficiente, o mesmo que “Nunca mais!”.
“Esquece aquela criatura!”. Só colocamos alguém no esquecimento quando murcha o amor, se esvazia dentro de nós, e a dor que sentimos é maior do que a alegria experimentada.
“Tu me amas?”. Quem ama se expressa com espontaneidade, porque o amor anseia por se manifestar. É melhor não perguntar se não puderes ouvir resposta contrária à esperada e que não possas suportar.
“Foi bom?”. Se tivesse sido bom, saberias, afinal, quem gosta, de algum modo o demonstra. Não obrigues nem induzas dissimulações somente para que a tua autoestima não se abale. Há pessoas com dificuldade de exprimir o que pensam sobre o outro simplesmente para não magoar, embora detestem mentir. Resta a alternativa de botar fé no desempenho e se tornar independente de elogios e críticas.
“O que eu faço?”. Pode ser o terapeuta, a amiga de confiança, o mestre, o guru, os pais, um companheiro, o irmão… Seguimos o que imaginamos ser adequado para nós. Depois de ouvi-los, debulhamos as opiniões e fazemos escolhas. Às vezes, não estamos abertos ao que nos recomendam, entretanto pedimos conselhos apenas para confirmar o que já decidimos fazer. Isso é mera tentativa de compartilhar um desafio para o qual não estamos preparados a enfrentar a sós conosco.
“Eu não disse?!”. Não adianta cobrar que deveria ter sido como sugerimos nem nos enchermos de culpa por não termos imposto a experiência, a sabedoria e o conhecimento adquiridos. O que dizemos só tem relevância para os que percebem algum sentido nos alertas que damos. Além disso, “Eu sabia!” é soberba dispensável.
Por essas e outras, em algumas situações, é sábio calar e só abrir a boca diante de perigo iminente e se quem vem a nós quer mesmo saber o que pensamos. Ainda assim, devemos nos preparar para sermos amados ou odiados por nossa sinceridade.
(*) Crônica publicada na edição de 31 de janeiro e 1º de fevereiro de 2009 do jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria (RS).
Sexta, 30 de Janeiro de 2009 às 23:10
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Nada nem ninguém está distante, apenas não vemos.
às 10:06
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Sabendo do esforço de amiga minha no sentido de reverter o quadro de peso em excesso, ao encontrá-la cumprimentei-a animadamente. Ela aparentava vários quilos mais magra (e saudável, ainda bem!).
- Estás maravilhoooooosa! Parabéns!, disse-lhe no meio de um abraço apertado.
- Estou mesmo!, respondeu com uma autoestima fantástica!
- É tão bom emagrecer com saúde, né, amiga?
- Cara, vou te falar uma coisa: quando a gente se olha no espelho e vê a lindeza que ficou, o prazer que se sente é maior do que o de uma boa foda!
- Ah, é? Já nem lembro da segunda parte, contrapus, rindo, e depois fiz mais uma pergunta.
- Mas, afinal, o que fizeste? Exercícios físicos? Malhação? Caminhadas? Reeducação alimentar? Estou curiosíssima, porque estás magra, linda, com ótimo humor e não perdeste o equilíbrio (afinal, algumas mulheres ficam “doidinhas de pedra” quando estão de regime!). Não deve ser remédio, então.
- De fato, não tomei qualquer remédio para emagrecer, mas aprendi um ótimo exercício, e o resultado está nisso tudo (apontando, toda feliz, para o corpinho escultural e em plena forma).
- Qual? Qual? Fala logo, mulher! (Eu não podia mais conter a curiosidade a respeito do seu método “milagroso” de emagrecimento!).
Ela se posicionou ereta e com estilo na minha frente, como se fosse entrar em transe. Eu tinha o olhar atento nela! Queria saber logo sobre o tal exercício que resultara num emagrecimento saudável como o dela.
- É assim, amiga, presta muita atenção! Basta mover a cabeça da esquerda para direita e da direita para esquerda.
Eu, como um robozinho, fazia exatamente o que minha amiga ensinava, imitando seus movimentos: movia a cabeça da esquerda para direita e da direita para esquerda.
- Quantas vezes?, questionei.
- Todas as vezes que estiveres diante de qualquer comida que seja uma bomba calórica!
Comecei a rir sem parar com ela!
Valeu, amiga! Para um bom regime, é só dizer “não” para o que engorda, cuidar do que põe na boca (tuuuudo, aliás), se manter firme no propósito, não se sabotar na decisão, não mentir pra si mesma (comer um prato de salada no almoço e “assaltar” a geladeira na calada da noite) e ter confiança de que vai alcançar o objetivo, mesmo que o efeito não seja rápido (mas que seja duradouro!).
Agora, minhas lindas, sem piadinha (conhecida e adaptada a um fato real) e falando muito sério: é melhor ganhar alguns quilinhos do que perder a saúde. Cuidem-se bem! Não façam do espelho um algoz! O que vemos nele nem sempre é uma mulher goooooorda, mas uma mulher que não está feliz com o que é e com a vida que leva. Emagreçam as dores, as mágoas, as tristezas, as decepções, antes de se meterem num regime de fome ou de engolirem remédios que emagrecem, mas podem matar. Saúde e felicidade! Uma tem a ver com a outra.
Quinta, 29 de Janeiro de 2009 às 09:04
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Algumas pessoas precisam de palavras; outras, de provas que confirmem o amor do outro, e há quem não possa prescindir de qualquer uma delas: quer palavras e contínuas demonstrações de que o amor existe!
Mas o que dirá mais: palavras ou provas?
Dizer “Eu te amoooooo”, mas agir contrariamente a essa manifestação verbal gera dúvidas! Falar “Eu te adoooooro”, mas ser rude e agressivo leva à suspeita de que não é verdadeiro aquilo que se ouviu. “Te admiro muuuuuito!”, mas descascar a autoestima do outro é desmentir o que foi dito, além de ser uma crueldade.
Amar, gostar, ter consideração, amizade, afeto, carinho, gratidão e todos os sentimentos – os bons e os nem tanto – que temos por alguém se revelam por atitudes, principalmente. Quanto às palavras, que elas sejam convincentes, não mera falácia, conversa para bovino entregar-se ao sono.
O que sentimos pelos outros se evidencia na forma como agimos em relação à pessoa. Talvez, por isso, digam que “um gesto vale mais que mil palavras”…
Quarta, 28 de Janeiro de 2009 às 20:04
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Já aconteceu algumas vezes de eu começar a escrever um post para o blog e o escrito se transformar numa crônica. Hoje isso ocorreu de novo. Eu fazia uma reflexão sobre o valor do silêncio e me estendi demais, então, resolvi compartilhar o que escrevi em outro momento.
Há circunstâncias, meus queridos, em que a palavra precisa ser substituída pelo silêncio, que diz muito mais do que qualquer argumento. Até porque tudo o que possamos e queiramos dizer pode ser usado contra nós…
Quantas vezes eu me arrependi do que disse, quantas vezes…
Quantas vezes, penso, deveria ter me calado, não ter me expressado, não ter me exposto, não ter confessado, pela palavra, o que sentia… Não porque não devesse ou não tivesse direito de fazer isso, mas porque a outra pessoa não estava receptiva a mim e ao que eu dizia, e se mantinha fechada em si mesma, no seu próprio pensar, na sua realidade, onde não havia espaço para mim, para a livre demonstração do meu sentimento.
O resultado foi uma grande confusão, mágoas que se espalharam por todos os lados, e a incompreensão se alastrando no relacionamento, não raro, irrecuperavelmente, sem solução, porque as dores foram maiores do que a vontade de retomar o diálogo.
Aprendi, então, a fazer – em relação a mim mesma – um conveniente “cala-te, boca”. Não posso impedir a manifestação alheia, mesmo que discorde dela. Não devo tolher o que ela expressa, até porque respeito a sua liberdade, mesmo que não aceite nem compreenda.
Mas isso não é nada fácil, ah, não é! Calar a boca quando o desejo é abrir o verbo e deitar palavras que precisamos ou queremos dizer é um exercício extremamente difícil. Oh, como é doloroso esse processo de conter a força brutal de nossas entranhas para não perder o rumo, não sair do prumo, não deixar que o outro determine nossas reações… Precisa ser muito forte – e sou – para deter os ímpetos que movem o ser humano, ainda tão aprendiz de si mesmo.
Silêncio e quietude são atitudes das mais difíceis que conheço. O sossegar de si mesmo é, talvez, um dos maiores desafios que atravessamos, porque exige se dominar para que a palavra se contenha, a mão não se erga, o revide não aconteça. Pode ser que isso seja exatamente o que o outro quer, e entregar nossas emoções ao controle de alguém é perder a si mesmo.
Cala-te, boca! Enquanto isso, ouço o meu coração e reprimo reações que seriam previsíveis e normais em qualquer ser humano. E aciono a minha porção divinal, que impõe silêncio, reflexão e aprendizado. Só a Grande Mãe sabe quanto isso me custa, mas a Ela dedico esse momento e tudo o que dele apreendo para a minha caminhada rumo à totalidade do meu ser.
Terça, 27 de Janeiro de 2009 às 20:29
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Outro dia, eu estava “meio mais ou menos” por razões que prefiro não relatar. Afinal, nem tudo pode ser dito a todos, e, às vezes, nada pode ser dito a alguém, não importa quem seja. São momentos e circunstâncias em que o silêncio se impõe, mesmo que sacrifique por dentro.
Todavia, o meu filho, que conhece meu tom de voz desde que eu cantava canções de ninar para ele, sabe perfeitamente se estou bem ou “nem tanto” quando nos falamos por telefone. Eu não quis compartilhar tudo, pois penso que algumas coisas preciso resolver sozinha mesmo… ou correr para o terapeuta!
Disse-lhe “da missa, a metade”, portanto. E acrescentei uma frase inútil: “Não te preocupes”. Mesmo distante, Gui se preocupa conosco e sei disso. Não contei tudo confiando no ensinamento de uma de minhas mestras: “Espera que três dias se passem para qualquer decisão, a fim de evitares arrependimento futuro!”. Levo isso em conta e espero as emoções se acalmarem para escolher que atitude tomar.
Meu amado filho, então, fez uma sugestão que me pareceu curiosa e, ao mesmo tempo, imensamente gratificante. “Vou te recomendar uma leitura que vai te ajudar muito. Lê Vera Pinheiro!”. Eu ri e ele garantiu: “Estou falando sério, mãe!”, e o tom de voz dele, que conheço desde que ele deu o primeiro chorinho ao nascer, não deixava dúvidas!
Foi o que fiz. Reli muito do que escrevi aos outros e que serve para mim neste momento. E, se escrevo o que sinto, tudo me expressa, e posso encontrar em meu interior as palavras que busco, as respostas que procuro. E ficou a lição: é preciso ouvir a si mesmo.
O que publiquei no sábado foi a leitura mais recente, que coube como uma luva na mão com que dirijo a vida: “Vai ser feliz, porque é exatamente isso o que ele vai fazer”. Os outros, todos, se ocupam da própria felicidade. Por que eu ficaria a espera deles? Eu me devo a felicidade que mereço e quero! Ninguém vai me dar de “mão beijada”, ou seja, “de bandeja” o de que eu preciso, e sempre foi assim.
Então, ontem eu me ouvi, me li e reli, e para não entrar naquela de “faz o que eu digo, mas não o que faço”, cumpri o meu escrito e o resultado foi um domingo feliz, dedicado a mim! Sequer tive tempo de estar aqui, tão ocupada estava comigo. Foi ótimo! Obrigada, Gui, pelo conselho.
A propósito, a crônica desta semana será “Frases inúteis”, aquelas que a gente diz e não ouvem e as que nos dizem e não queremos ouvir, por razoáveis que sejam. Ouvi meu filho e valeu muito! “Quem tem mãe tem tudo”, repito, mas quem tem um filho como o Gui tem muito mais ainda! É isso aí com pipoquinha…
Segunda, 26 de Janeiro de 2009 às 13:49
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Quanto mais vivo, mais dou valor ao meu tempo, então, detesto perder tempo que poderia dedicar ao que gosto, administrando a vida da melhor forma possível e a meu favor.
Olha que perda de tempo esperar por um homem que não vem, não dá notícias, não aparece. Em resumo, “nem abana o rabo”, conforme o dito popular. A gente toma chá de banco, deixa de fazer outras coisas, de investir em outros interesses, enquanto permanece nessa espera inútil. E entra “na fossa”, fica deprimida, de baixo astral, se pergunta mil vezes onde foi que errou, pesquisa defeitos que não tem e indaga razões que são apenas dele.
Essa é a lição do homem que eu esperava para o serviço que ele faria em nossa casa, limpar a caixa da fossa. O infame não apareceu! Perdi meu tempo, pois, para recebê-lo, abri mão de planos que tinha para o dia. Mas não estou com raiva dele, é só mais um profissional meia-boca a ser riscado do caderninho. Como se precisa de paciência para tudo!
E como não vale – nada! – um homem que deixa uma mulher pendurada numa espera vã. Esse merece defenestração sumária! Merece ser cuspido e varrido de nossa vida! Está pensando o quê?! Que é o último biscoitinho do pacote? O único que existe na face da terra? Animal em extinção? A cocada preta? A azeitona da empadinha? Ora, ora… Quanta ilusão nessa cabeça tosca!
Eu sei, eu sei… Até reconhecer isso, meter um chute nas lembranças e ver a criatura como ela realmente é, sem fantasias, dói demais, demais da conta! São noites e noites de travesseiro molhado, jorrando lágrimas, criando rugas, sofrendo e penando como uma condenada ao exílio amoroso. É preciso ter muita coragem para admitir que a pessoa que amamos não nos quer, tampouco nos ama, não nos valoriza, não aceita o nosso amor, e que outra ocupa o lugar que, gostaríamos, fosse nosso.
Se assim for, amiga, não percas tempo, porque a vida é muito mais do que esperas em vão! Vive! Aproveita o dia! Curte a dádiva da tua existência! Busca novos projetos, sonhos, expectativas, realizações! Vai ser feliz, porque – não tenhas dúvida – é exatamente isso o que ele vai fazer. E todo o teu pranto será tão inútil quanto esperar uma vida inteira por quem não te quer nem te merece.
Quanto a mim, fui! Esperei demais! Perdi tempo! E não estou falando do homem que limparia a fossa de casa, mas do ordinário, cretino, desalmado, cachorro (não, chamar de cachorro ofende os meus bichos e eles não merecem)… O que mais? Mais nada. Quando a gente perde a admiração, o respeito, a consideração, o carinho e tudo o que anima as relações humanas, o amor já está na fossa, virou dejeto. É disso que a gente deve lembrar quando, num momento de distração, se pegar pensando naquele cujo nome nem se deve pronunciar!
Com a devida ressalva de que é execrável qualquer generalização, o problema de muitos homens é que, por medo, eles desistem de mulheres sensacionais! Isso não é nenhuma novidade! Essa covardia masculina não é surpresa para muitas mulheres fantásticas, que estão sozinhas porque homens têm medo do que elas são: lindas, maravilhosas, assumidas, inteligentes, poderosas, cultas, independentes (isso aterroriza vários deles), com opinião própria, argumentos sólidos, formação primorosa, educação de alto nível, autonomia, fazem o que desejam, são fortes, donas do próprio nariz, dizem “sim” e “não” sem titubear e escolhem o que querem viver, quando, como, onde e com quem.
Pobres meninos que cresceram sem autoestima… Não sabem lidar com tudo isso! É como se estivessem diante de um equipamento tecnológico de última geração sem a menor idéia de como funciona! Então, recusam. Não tentam conhecer e aprender porque se acham incapazes, diminutos perto de mulheraços! Dessa forma, preferem as que imaginam domesticadas, frágeis e boazinhas (no conceito deles), sem saber que todas nós temos garras afiadas, que algumas não mostram por estratégia de manutenção do vínculo. Essas não assustam tanto quanto as que se revelam inteiramente, sem temor de rejeição, e que, no fundo, são as que se amam muito, as que convivem bem consigo, as que fazem da presença do homem um bom acréscimo às suas vidas, mas não a sua principal razão de ser. Ficam sozinhas, mas, ainda assim, aprendem a felicidade e se adoram como são!
(*) Crônica publicada na edição de 24 e 25 de janeiro de 2009 do jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria (RS).
Sábado, 24 de Janeiro de 2009 às 03:57
Vera Pinheiro
Vera Pinheiro
Sempre ouvi dizer que a saudade se faz mais presente à tardinha. Mas não é quando o sol se põe que a saudade mostra a cara e toda a sua dor, é na madrugada, quando tudo em volta silencia e a alma grita por quem não vai atender ao chamado que fazemos involuntariamente, sem dominar a vontade, porque, no fundo do coração e no auge da razão, a gente gostaria de não lembrar, de não querer, de não gostar. Mas lembra, quer e gosta de quem não lembra de nós, não nos quer e não nos gosta.
Que dor horrenda a que atravessa a mente, o corpo e os sentimentos! Quanto esforço para segurar a mão e não discar o número que a gente não esqueceu, apesar de ter deletado da agenda. Que coragem enorme nos segura e impede o envio de uma mensagem, pedindo notícias ou uma palavra qualquer que nos dê a sensação de ainda estarmos vivos na lembrança de quem já nos esqueceu e não tem o menor interesse em saber como estamos nos sentindo, de que modo estamos tocando a vida em meio à dor da ausência, que não diminui, por maior que seja a nossa intenção de esquecimento. Que força nos impomos para a volta à realidade que escancara o que preferiríamos que não acontecesse, a completa indiferença do outro ao sentimento que temos, envergonhados pelo amor ainda vivo por quem nos ignora.
Para não enfrentar madrugadas de saudade, é melhor dormir mais cedo! Nada como um dia depois do outro e uma noite no meio para sobrevivermos às perdas com dignidade, aprendendo que a estima por nós mesmos deve ser maior do que a saudade que nos consome por alguém que não merece sequer uma lembrança.
Sexta, 23 de Janeiro de 2009 às 01:14
Vera Pinheiro
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