Arquivo de Fevereiro de 2009

Crônica da semana - O olhar masculino (*)

Vera Pinheiro
“Quem não se enfeita, por si se enjeita”. Uma colega me lembrou desse provérbio quando elogiei a blusa que vestia. Ela estava especialmente elegante e usava um lindo par de brincos novos. Mulher tem olhos para ver tudo, não? Homens não reparam, mas nós – ah, nós vemos se a outra tirou meio centímetro do cabelo, se pintou as unhas dos pés há mais de uma semana, se mudou de louro cinza claro para louro cinza claro natural, o que faz muita diferença e só eles não percebem.

“Pintei os cabelos, viste?”. “Não. É mesmo?”. A essa altura, se não cultivássemos o verbo relevar, já teríamos metido um soco no meio da testa dele para que, da próxima, ele enxergue melhor. Porém, avessas à violência, não chegamos a esse extremo e tentamos compreender a espécie masculina, em tudo diferente do que somos e tão inquietante quanto encantadora. É o que nos faz ter paciência com deslizes como o de não atentar para a mudança de coloração de nossas madeixas. Com o tempo e a convivência aprendemos que preto, louro e ruivo são o máximo que ele consegue discernir dentre as inúmeras tonalidades de cabelo, e contentamo-nos com os elogios espontâneos das amigas e do(a) cabeleireiro(a).

Não é que os homens não queiram elogiar, eles simplesmente não ligam, não firmam o olho para detalhes (importantíssimos!) como esses. Mas botem a cara deles numa caixa de ferramentas ou sob a tampa erguida de um carro! Eles veem o parafuso que nem com uma lupa enxergamos, assim como sabem a utilidade e o tamanho de cada chave em milímetros sem olhar o número, tanto menos o manual de instrução. Ao contrário de muitas de nós, eles não precisam de manuais.

Reconheçamos: as mulheres entram em brigas inúteis com os homens pelo que não vão conseguir modificar neles. Por exemplo, competir com carro, que enche os olhos masculinos de uma emoção maior do que a que experimentam quando estamos “vestidas para matar”, nuas em pelo ou fantasiadas para despertar o fetiche mais oculto dele. Se ele estiver cuidando do carrinho, esquece! Melhor fazer outra coisa, porque ele está em êxtase e praticando uma espécie de poder sobre a máquina, o que não experimenta com as mulheres há tempos, independentes que nos tornamos.

Para mim só há dois tipos de carro, os grandes e os pequenos, embora saiba o que são caminhões, ônibus, avião, moto e bicicleta. O significado de cada um se restringe ao seu préstimo, por isso me comove a paixão que os homens sentem por veículos em geral. “Por que eles acariciam tanto o carro?!”. Essa pergunta tem como resposta não mais do que uma frase lacônica: “Carro é… um carro, ora!”. Não se pode decifrar o inexplicável que só um homem entende.

Por mais alto que seja o berro, não adianta pedir que volte os olhos quando apelamos por atenção inadiável. É sabido que homem nenhum presta atenção em mais de uma coisa ao mesmo tempo. Se estiver ao telefone, é debalde qualquer tentativa de diálogo, pois nada será registrado na seletiva mente masculina. Lendo, vendo o time na tevê ou diante do computador ele se abstrai totalmente. Mas não é por mal, apenas é diverso de nós, que podemos revisar um relatório circunstanciado, mantendo o fio do celular numa orelha e o aparelho do telefone fixo no ombro, o olho esquerdo no noticiário e o direito no filho, enquanto cozinhamos, planejando a saída de amanhã. Aliás, é de efeito nulo entregar a agenda toda: “Vamos aqui, ali, lá e acolá.”. Ao fecharmos a boca, ele vai perguntar: “Aonde vamos mesmo?”. Pensa num botão de liga/desliga e começa a conversa de novo, do ponto em que ele parou de ouvir.

Fora isso, debates incansáveis sobre a relação entediam, exigências demasiadas cansam, perseguição enjoa… e homens que reagem de um jeito inesperado surpreendem. Então, quando eles atormentam os ouvidos femininos com discussões do relacionamento, ceninhas de ciúmes e cobranças sem fim, as mulheres, que evoluíram no aprendizado das emoções, perguntam: “Que conversa é essa agora?!”. Sem ouvir palavra da resposta, elas continuam o que estão fazendo, ignoram o assunto e comentam somente a última frase, sem entender do que eles reclamam quando se invertem as posturas e o olhar distraído deles está estampado num rosto de mulher.
(*) Crônica publicada na edição de 28 e 1º de março de 2009 do jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria (RS).

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Eles e nós

Vera Pinheiro
Não adianta ir contra as evidências! Contra fatos não há argumentos! Homem é homem e mulher é mulher! São diferentes, pronto! E que bom ser assim, na inteireza da diferença que instiga, atrai, apaixona e faz amar o que não é igual a si mesmo. Não fosse assim, a gente casaria com um espelho e tudo ficaria fácil… e muito chato! O belo é exatamente a descoberta do outro no que é diverso de nós para que aprendamos com ele. Já pensaste que aborrecido seria conviver com o previsível que conhecemos, sem o crescimento a partir da desigualdade?

Na crônica desta semana (amanhã aqui no blog e no jornal A Razão, de Santa Maria, RS) peguei um aspecto dessa divergência, um detalhe que enlouquece as mulheres: “O olhar masculino”. Os homens não veem com os nossos olhos e é inútil sofrer por isso.

E a conversa hoje fica por aqui porque estou apressada demais para uma sexta-feira. Comecei a contar o que vou fazer daqui a pouco, mas deixei o assunto para o próximo domingo. Tenhamos um dia abençoado e de muita luz divina sobre todas as nossas ações e pensamentos. E mais paciência com os homens, esses seres tão diferentes de nós e adoráveis também por isso.

Adicionar comentário Sexta, 27 de Fevereiro de 2009 às 08:02 Vera Pinheiro

Corações

Vera Pinheiro
Às vezes, andamos tão distraídos que não vemos um coração a nossos pés. Ele fica para trás no caminho e nós seguimos indiferentes, reclamando que não cruzamos com nenhum coração.

De outras, um coração aparece de inopino no meio do cotidiano, mas nosso olhar não percebe, porque não estamos preparados para vê-lo ou não queremos outro coração além do nosso.

Corações empedernidos descartamos, mas, apesar da aparência de pedra, eles são bonitos. Corações moles demais, como o que guardamos em nós, são desprezados, enquanto aprendemos o meio termo das emoções e o equilíbrio dos sentimentos.

Conheci alguns corações de pedra que me encantaram, mas nenhum era mais belo, nem mais raro, do que a pedra de coração que recolhi para mim. E meu coração, que já foi como pedra e manteiga derretida, continua aprendendo. Hoje está no meio termo e pode ser comparado a uma batata: precisa de um tempo para ser cozinhado e se tornar saboroso.

Corações vivem cruzando diante dos meus olhos, hoje mais atentos do que alheios ao que se passa em torno. Certa vez, encontrei uma pedra em formato de coração e a guardo comigo. E no último feriado, enquanto preparava uma salada, achei uma batata inglesa no mesmo formato. Já a tinha cozinhado, mas dela não tirei a casca nem a comi. Saudei o amor que está em tudo e nos corações perto de mim, em pessoas, pedras e batatas, e todas são lindas. Clica nas fotos e vê que lindos corações eu vi.
Pedra - Pedra Pedra em coração. Batata - Batata Batatinha romântica.

2 comentários Quinta, 26 de Fevereiro de 2009 às 07:19 Vera Pinheiro

Feriadão

Vera Pinheiro
- Eaê, o que vais fazer no carnaval?
- Nada.
- Como assim, nada?
- Nada, ué.
- Uma balada, uma saidinha, uma viagem… nada?
- Nada.

Não entendo por que algumas pessoas têm tanta dificuldade em fazer nada e por que estranham quando a gente quer isso e… nada mais. O feriadão serviu para eu me dedicar ao prazer de fazer nada. Nada além de ficar em casa descansando ou, no máximo, cuidando do básico: comer, dormir, mexer nas plantas, alimentar os animais, tudo sem aquele frenesi dos dias de semana (e esta será bem curtinha).

Happy concorda comigo. O gatão deitou-se sobre a agenda doméstica que fica sobre a mesa do computador e parecia ordenar: faz nada! Imagina se discordei dele. Pernas para o ar! Sossego! A paz de um fim de semana prolongado! Ô vidão bom…

Acabou-se a festa. A rotina recomeça, mas abril já vem aí com dois feriados… Sim, estou de olho neles, mas quem não está?
Agenda - Agenda Vida boa - Vida boa Happy, o gatão companheiro.

1 comentário Quarta, 25 de Fevereiro de 2009 às 10:48 Vera Pinheiro

Lembranças

Vera Pinheiro
Racionalmente, a gente não quer lembrar, mas a emoção dribla a razão e a lembrança vem. Não quer pensar, mas a saudade subjuga o pensamento. Quer deitar e dormir em paz, mas a cama, vazia, se invade da presença de quem não está ao lado, mas dentro. Sonha e acorda de ressaca sem ter bebido um gole além das lágrimas que vertem teimosas, insistentes, indomáveis. Não quis lembrar, evitou pensar, fugiu das recordações, desviou a mente, mas sempre volta ao espaço que pensava desocupado, e aquela pessoa ainda está lá, silenciosa e amargamente, dorida como não devia ser. O corpo resvala entre as cobertas e a alma desnuda revela que doem tanto a perda quanto a impotência contra a saudade inevitável.

A noite de orgia em relembranças se estampa na aparência: olhos fundos, cabelos em desalinho, coração idem. A vida é permeada de recordações, mas segue. Outra noite virá e depois mais uma, e outra e tantas mais. Aquela pessoa que invadiu a madrugada não está e não virá, mas é. Apenas é. Um fato, uma lembrança, saudade. E uma

Cama Vazia (*)

A tua ausência repousa
No travesseiro vazio
Ao lado do meu
Olhar distante

Estendo a mão e não te encontro
No espaço entre o corpo e a parede
Onde ricochetam lembranças
Que voltam e(m) vão

Espicho as pernas e a memória
De todos os detalhes
Recorte do ontem
Fragmentos de uma história

Mais pela companhia
Do que por desejo
Sinto falta dos teus pés
Coladinhos nos meus
E do teu beijo ao acordar

O que me contenta é no dia seguinte
Olhar minha cara no espelho e não te ver por perto
A testemunhar o efeito de uma noite insone

Então, sorrio da saudade e me refaço.
Afinal, a cama pode estar vazia,
Mas a vida, não!

Vera Pinheiro
(*) Versos postados em 21 de fevereiro de 2009 no blog “Poema Dia” - http://poemadia.blogspot.com/

2 comentários Segunda, 23 de Fevereiro de 2009 às 10:27 Vera Pinheiro

Exageros

Vera Pinheiro
Para mim carnaval é sinônimo de fim de semana prolongado, feriadão, nada mais. Por ter dormido cedo ontem, acordei antes de o sol nascer e liguei a tevê. Vi o final do desfile das escolas de samba de São Paulo e não me escaparam as bundas de fora das rainhas ou madrinhas – ainda não entendi a diferença entre umas e outras. Mas, gente, que travesseiros são aqueles?! Por que algumas mulheres botam uma bundona daquele tamanho?! Não parecem uns travesseiros? Ou almofadas? Daria para carregar uma bandeja ali! E que coxas são aquelas?! Parecem fisiculturistas, todas marombadas! Cadê as pernas femininas, de curvinhas sinuosas e delicadas? E o tanto de peito que colocam?! Para que serve tudo aquilo que, a olhos vistos, não é natural? É para dizer “eu botei silicone”? Aliás, nem precisa dizer, todo mundo enxerga (e como não enxergar?!).

Sim, sim, o tempo é devastador: faz o peito murchar e a bunda descer, e não tem nada de mal dar uma turbinada básica, querendo e podendo. O que questiono é o exagero!

E, curioso, não vi um só homem com o saco espremido, mostrando o corpo pra ser chamado de gostoso…
Exagero - Exagero
Para não dizerem que exagerada sou eu…

3 comentários Domingo, 22 de Fevereiro de 2009 às 09:51 Vera Pinheiro

Crônica da semana - A necessidade e o desperdício (*)

Vera Pinheiro
Crise é a palavra da hora! Economia, a palavra de ordem! Olho para um lado e para o outro e me preocupa apenas viver, porque não há mais buraco no cinto, logo, não posso apertar ainda mais a economia que já faço em tudo. Portanto, com crise ou sem crise, vou continuar os meus hábitos de comer três vezes ao dia, vestir o suficiente para não andar desnuda e não consumir além do que preciso. Para mim, então, a crise econômica, que alguns negam e outros maximizam, não altera o jeito simples de viver que aprendi numa época de prosperidade e abundância, não em tempos de dificuldade.

Muitos se apavoram com a crise e não lhes tiro a razão, mas acredito que não é durante e, sim, antes dela que devemos reformular nossa postura, evitar desperdícios e fazer uso equilibrado do que temos. Afinal, a prevenção é um bom remédio, inclusive para males financeiros.

Há os que não se preocupam com o dia de amanhã: gastam mais do que ganham, não guardam uma reserva para o futuro e criam necessidade de consumismo em vez de poupar. Para esses, economizar é o mesmo que passar atestado de pobreza, que a vaidade não permite. Envergonham-se quando não podem ostentar um padrão de vida similar a dos abastados, que queriam ser, mas não são. Mentem para si mesmos uma situação que não existe, a de ter fortuna, não tendo. Inventam status que não usufruem para não se sentirem menos do que os outros. E vivem contando moedas, enquanto as contas a pagar se amontoam em pilhas.

Há quem se cerque de bens somente para preencher espaços, mas sua alma está vazia e nada lhe basta. Fazem compras para minorar carências que não foram resolvidas e, assim, tentam acalmar o desassossego íntimo. E há os que se sabotam permanentemente, contraindo dívidas sempre que alcançam um patamar que seria de tranquilidade não fosse a sensação de que, no fundo, não merecem o que conquistaram, o que os faz voltar a ter problemas com dinheiro.

Podemos viver, perfeitamente, sem esbanjamento. Isso não importa renunciar ao prazer de uma boa compra, mas identificar o que é realmente essencial e nos contenta. Não implica viver longe do consumo, fugir das vitrinas, fechar olhos e ouvidos à publicidade, mas ser seletivo e criterioso, o que ajuda o mercado a oferecer produtos de qualidade cada vez melhor. Não impõe cobrir-se de andrajos, mas dar um novo significado à maneira de vestir-se, e sabemos que, muitas vezes, a quantidade de roupas no armário impede de encontrar o que seja adequado, fazendo retumbar a frase “Não tenho nada que me sirva!”. Não é privar-se de conforto, mas avaliar as mercadorias, comparar preços, pechinchar (por que não?) e tomar interesse por números, juros, taxas e impostos do que adquire, priorizando pagamento com um bom desconto em vez de um crediário a perder de vista, que pode redobrar o custo final e não valer a pena.

Mas não é o bastante, é preciso acabar com o desperdício! Não jogar comida fora, por exemplo. A cozinha, aliás, com bom aproveitamento, é um centro de prosperidade. Fechar torneiras e encurtar o banho, a menos que há anos não visite um chuveiro. Pedir e dar carona, adotar o revezamento solidário para economizar combustível. Programar os trajetos para não rodar quilômetros em excesso. Preservar, reciclar e assumir um comportamento de respeito à natureza, o máximo possível. “Mas e os outros, o que estão fazendo?!”. Não pensa nisso, faz a tua parte, consciente de que tudo está entrelaçado no mundo em que vivemos e que nossas atitudes repercutem no que é alheio e de todos.

Entre o avarento e o econômico há uma enorme diferença! O primeiro se apega demasiadamente ao dinheiro, o segundo usa-o com parcimônia e inteligência. Na bonança aprendemos a nos proteger das tempestades e nos tempos de riqueza administramos os bens para que a miséria não nos alcance. O primeiro passo é discernir o que é necessidade (para supri-la) e o que representa desperdício (para evitá-lo).
(*) Crônica publicada na edição de 21 e 22 de fevereiro de 2009 do jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria (RS).

2 comentários Sábado, 21 de Fevereiro de 2009 às 02:17 Vera Pinheiro


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