Lei do Caminhão de Lixo Lembranças da cozinha

Cozinheira ou jornalista?

Quinta, 18 de Junho de 2009 às 07:45 Vera Pinheiro  | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 393

Vera Pinheiro (*)
Perdi o sono e levantei da cama de madrugada. Estou pensando seriamente em fazer um CUrso de CUlinária, porque, afinal de contas, não será mais necessário o meu diploma de jornalista, conquistado há mais de três décadas a duras penas, muito estudo, noites e noites com os olhos grudados nos livros, buscando uma boa formação profissional seguida de larga experiência. A profissão foi comparada pelo presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes ao trabalho de um cozinheiro. Um honroso trabalho, é verdade, mas uma infeliz comparação como argumento para a extinção da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. E se para ser bom cozinheiro é preciso muito mais do que simplesmente estar numa cozinha, com panelas, facas, garfos e colheres ao alcance da mão, para ser um bom jornalista é preciso muito mais do que ter computador, bloquinho, gravador, caneta e vontade de escrever.

Ao comparar a profissão de jornalista com a de cozinheiro, Mendes disse: “Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área. O Poder Público não pode restringir, dessa forma, a liberdade profissional no âmbito da culinária. Disso ninguém tem dúvida, o que não afasta a possibilidade do exercício abusivo e antiético dessa profissão, com riscos eventualmente até à saúde e à vida dos consumidores”. Definitivamente, ele não tem noção nem de como se frita um ovo, tanto menos de Jornalismo. Vai dizer que não sabe os danos que pode causar uma notícia feita por alguém sem qualificação específica para esse trabalho?

O presidente do STF disse não acreditar que a queda do registro profissional de jornalista feche as faculdades de Comunicação. “Tais cursos são importantes e exigem preparo técnico e ético dos profissionais para atuarem. Os jornalistas se dedicam ao exercício pleno da liberdade de expressão. O jornalismo e a liberdade de expressão, portanto, são atividades imbricadas por sua própria natureza e não podem ser pensadas e tratadas de forma separada”, afirmou. Para que servem mesmo os cursos de Comunicação, segundo ele?! São importantes e exigem preparo técnico e ético para os profissionais atuarem? Como assim? Faculdade de Comunicação e diploma são importantes, mas não se precisa deles para o trabalho jornalístico?

Como disse o presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Sérgio Murillo, “é um golpe duríssimo na nossa profissão. São 40 anos jogados no lixo”. A executiva da entidade se reúne nesta quinta-feira para avaliar o resultado e traçar novas estratégias da luta pela qualificação do Jornalismo, mas não deve ir além de protestos, porque a decisão é um posicionamento definitivo do Supremo. O único recurso possível (embargo de declaração) não mudaria o resultado do julgamento do Supremo,

Gilmar Mendes, que não é exatamente um queridinho da imprensa, botou ferro nos jornalistas! Que o mercado vai ficar ainda mais restrito, não há dúvidas, e isso é lamentável e muito preocupante. Agora as empresas é que decidem se vão exigir ou não o diploma para contratar um profissional. O fim da exigência de diploma abre espaço para rebaixamento de salários, para demissões e para muitos vaidosos que querem estar nas vitrinas da imprensa, e esses, que já podiam usar as colunas de opinião e a internet para expor suas idéias, agora estão autorizados a produzir informação jornalística, bastando que se dêem ao título. Emitir opiniões públicas em meios de comunicação, isso sim deve ser livre e democrático. Trabalhar com a notícia é outra coisa!

Taís Gasparian, advogada do Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo (Sertesp), autora da ação que pedia a extinção da obrigatoriedade do diploma, alegou que a exigência do diploma é inconstitucional, sob o argumento de que a Constituição garante a liberdade de expressão e o livre pensamento. Para ela, que não é jornalista, o Jornalismo é uma profissão que não depende de qualificação técnica específica. “É uma profissão intelectual ligada ao ramo do conhecimento humano, ligado ao domínio da linguagem, procedimentos vastos do campo de conhecimento humano, como o compromisso com a informação, a curiosidade. A obtenção dessas medidas não ocorre nos bancos de uma faculdade de Jornalismo”, afirmou a advogada. Enfim, ela acha que qualquer um pode ser jornalista, mesmo sem ter preparo técnico. É claro que nenhuma faculdade ensina tudo o que uma profissão exige, tampouco garante emprego, mas neste caso era um bom começo para a formação jornalística. Agora isso caiu por terra com o fim da obrigatoriedade do diploma, sem falar no desestímulo para quem ainda está estudando.

Ainda bem que o diretor do Comitê de Relações Governamentais da Associação Nacional de Jornais, Paulo Tonet Camargo, garantiu que a ANJ continuará orientando as empresas a contratarem jornalistas graduados e com diploma. Que seja assim!

(*) Graduada em Jornalismo e Direito pela Universidade Federal de Santa Maria, Rio Grande do Sul.

Publicação arquivada em: Coisas da vida

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5 Comentários Faça seu próprio

  • 1. Camila Paulos  |  18 de Junho de 2009 às 11:59

    Vera, foi o texto e os argumentos mais sensatos que li até agora. Além de raiva, meu sentimento é de tristeza por ter “jogado quatro anos no lixo”, já que o diploma que eu nem peguei ainda não será um diferencial entre mim e um metido a escritor.
    E o pior, eu não tenho emprego ainda, me formei no ano passado e, pelo jeito, a dificuldade em arrumar um será ainda maior.
    No campo do esporte, onde já conhecemos a invasão de pseudo jornalistas, é bem capaz de não sobrar nem um pra contar a história.
    Tô triste… de verdade.

  • 2. Vera Pinheiro  |  18 de Junho de 2009 às 12:24

    Camila, querida, ainda estou absorvendo essa história e tento vislumbrar algo positivo, que me responda a pergunta “o que eu vou fazer com esse diploma que tem valor, mas não tem serventia?”. Como sabemos, o diploma - sozinho - não basta para uma boa colocação, é preciso muito mais do que ele para ingressar no mercado e para se manter nele. Tendo a pensar que o diploma, não sendo mais pré-requisito para o exercício da profissão, pode ser agora um diferencial no sentido de que temos uma formação que os pseudos e os metidos a não têm, e devemos usar isso a nosso favor.
    Não vamos desesperar. Da minha parte, vou continuar dizendo, e de cabeça erguida: Eu sou jornalista. Mas agora vou acrescentar “diplomada”. Nem o STF tira isso de mim, de nós. Em frente, pois!
    Beijos animadores, colega.
    Vera

  • 3. Paulo  |  18 de Junho de 2009 às 16:11

    Sou acadêmico do 5º período e adoraria publicar essa manchete amanhã:
    Gilmar Mendes é internado com dor de barriga

    Cozinheiro?!
    Estamos próximos do fim.
    É a dura realidade.
    Aos profissionais formados não basta, claro, o simples Diploma, mas esse é o nosso diferencial. Buscar a profissionalização é fundamental e importante.
    Agora, podem fechar as portas das universidades.

  • 4. Vera Pinheiro  |  18 de Junho de 2009 às 16:30

    Paulo, querido, eu não tinha pensado nisso…rsrsrsrs. O que eu sei é que tudo, absolutamente tudo o que aqui se faz, aqui se paga. É da lei do universo! Não acho que a universidade deva fechar as portas, especialmente para o ensino do Jornalismo. O que há além do diploma é o diferencial, ou seja, o aprendizado do fazer jornalístico e isso só se aprende no curso e depois no exercício, na prática. Não é suficiente ser um intelectual para ser um bom jornalista. E não dou um mês de redação daquelas bem puxadas, com pescoção e tudo, para haver uma debandada dos iludidos com a profissão, que vão se dizer jornalistas. Verão que descascar coco a unha é muito mais fácil.
    Um grande abraço! E toca em frente com garra!
    Vera

  • 5. Elziane Almada  |  24 de Junho de 2009 às 21:04

    Olá, Vera.
    Boa noite!

    Sou estudante do 1º semestre do curso de jornalismo. O que venho passar aqui hoje para aqueles que já se formaram ou que ainda está cursando, é que existem determinadas profissões que tem sim um mercado mais fechado, toda e qualquer pessoa que opta pela profissão de jornalista já deveria ter essa visão previa, contudo não podemos deixar que o fim da exigência do diploma nos tire a motivação para que continuemos a amar essa profissão, não importa se algumas empresas queiram contratar pessoas sem qualificação, o que temos que pensar, é que aquela empresa que vende um produto de qualidade irá sim valorizar nossa formação profissional. É lamentável que nossos governantes comparem um diploma de graduação, ou doutorado a própria política onde qualquer um que tenha por traz alguém que o patrocine possa se inserir na vida política, porém, é preciso ressaltar que até mesmo na política é necessário que tenha alguém que saiba elaborar textos mirabolantes para que eles cheguem lá no palco e armem seus circos, essa posição por eles tomada, só nos faz enxergar de uma forma bem mais clara o quanto o nosso pais valoriza e prioriza a educação, e principalmente tendo em vista que vivemos em meio a uma sociedade totalmente obstruída de valores morais e éticos onde muitas vezes o que prevalece é o tão famoso “jeitinho brasileiro”, Jeitinho o qual é visto por muitos como uma válvula de escape para aderir cada vez mais à obstrução da moral e da honestidade.

    Ah! vou concluir o curso com o mesmo intusiasmo que fiz o vestibular, não seram meia duzia de blá, blá, de politícos que iram me tirar a vontade de ser jornalista por formação.

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