Crônica da semana - Suspiros e lembranças (*)
Sábado, 27 de Junho de 2009 às 09:02 Vera Pinheiro | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 257
Vera Pinheiro
Racionalmente, não queremos lembrar daquela pessoa, mas pensamos nela mesmo sem querer. Se nos dão notícia a respeito de seu paradeiro, fechamos os dois ouvidos: “Não me conta! Para mim, morreu! Caso encerrado!”. Uma sucessão de frases prontas, engatilhadas, e fala decorada para a emergência de enfrentar, com a cabeça erguida, a curiosidade alheia acerca de nossos sentimentos. Ao perguntarem se sabemos por onde anda a criatura nem deixamos que terminem a indagação! Lascamos sem titubear: “Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe!”. Tanta convicção chega a levantar suspeita de que, no fundo, a história não é bem assim. E na maioria das vezes não é mesmo, porém, jamais dizemos a quem interessar possa: “Não há chance para nós dois, então, toco a vida em frente”, isso acrescido de um suspiro vindo das profundezas do ser e com os olhos imersos em lágrimas.
Ao longo da vida, treinamos a expressão das emoções e aprendemos a adestrá-las, não raro contendo os seus ímpetos, e nos envergonhamos delas quando achamos que representam fraqueza. Afinal, tudo o que vivemos nos fortaleceu, deu preparo para os embates e nos fez amadurecer, ainda que pela força do sofrimento. Em se tratando de amor perdido, que resultou em grande dor e enorme frustração, a mágoa nos enrijece tanto que blindamos o coração para ele não trepidar à simples menção do nome da pessoa amada e distante. E mentimos com tamanha convicção que aquela presença não nos importa e nos é totalmente indiferente, a ponto de acreditarmos nisso, não fossem as lembranças – guardadas a muito custo e nunca confessadas – a denunciarem a saudade que permanece e o amor que não acabou.
Mas quem disse que devemos evitar o que sentimos, negar os clamores que ardem no peito e dar as costas para as angústias que experimentamos? Se não admitirmos as emoções, sejam boas ou nem tanto, não poderemos resolvê-las e curá-las. E não há saída mais honrosa que encarar – corajosamente – o que se passa no coração para sabermos a verdadeira dimensão do sentir: se é utopia, birra, amor platônico, fantasia, desejo que não foi realizado ou o maior dos sentimentos. Enquanto fazemos essa tarefa, que não é fácil, muitas lágrimas e suspiros permeiam as recordações, mas um dia elas se acomodam, sem ter sufocado a cara no travesseiro a cada noite de solidão. E o melhor é que podemos ser felizes de novo, depois de separados daquela pessoa que tirou mais o nosso sono quando ausente do que nos tempos em que estávamos juntos. E por aí seguimos, passo a passo, na direção da trilha de recuperação dos destroços emocionais, pois é para frente que se anda!
A realidade nem sempre é do jeito que sonhamos, mas é a que temos, e não adianta desconhecê-la. Sofrer por amor não é bom, mas acontece. Permanecer sofrendo por quem não nos ama é impor um sacrifício de todo sem valia. Não devíamos perder um único dia de vida chorando por quem nos despreza, pois isso é uma desconsideração – das maiores – conosco! Ninguém é obrigado a se apaixonar pela maravilha que somos, e talvez a pessoa não perceba o quanto lhe faríamos bem. Entretanto, nós temos a obrigação de nos devotar amor!
Aquele querido foi embora e nunca ligou? Não responde os e-mails, deixa a chamada tocando até cair na secretária eletrônica para um recado que nunca será retornado, troca de endereço e não informa? Sim, é duro admitir, mas é impossível não compreender a inequívoca mensagem: isso é um fora, um tiau, um adeus! É hora de questionar os nossos brios se vale perder um minuto da existência por alguém que nos ignora e não nos quer. Acabou, ponto final. A vida segue, apesar disso.
As lembranças fazem parte de nossa bagagem existencial. Digladiar-se com elas gera um desgaste inútil para os propósitos do esquecimento. Em vez de apagar o vínculo com a memória dos sentidos – o que abre uma lacuna em nossa história pessoal, tentemos conviver harmoniosamente com aquilo que as pessoas e os acontecimentos deixaram em nós, pois a luta desesperada por esquecer é, também, um jeito de lembrar. Nada recompensa a perda, daí o que se chama de saudade, entre suspiros e vontade de reencontrar a felicidade.
(*) Crônica publicada na edição de 27 e 28 de junho de 2009 do jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria (RS).
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