Arquivo de 4 de Julho de 2009

Crônica da semana - Autonutrição (*)

Vera Pinheiro
Quando estou em dúvida sobre o que fazer ou para escolher entre duas ou mais opções eu me pergunto: O que verdadeiramente importa? De que preciso? O que é mais necessário para mim? O que é mais urgente? Ouvindo mente e coração encontro respostas, o que não significa que sempre acerte, mas já aprendi a conviver com os erros e a transformá-los em aprendizado. O que extraio dessa avaliação é o melhor, e viável, para aquela determinada circunstância. Tudo depende da situação e de como ela se apresenta, do tamanho do desafio e das possibilidades que tenho. E dentre as poucas certezas, a de que não devo esperar nenhuma ajuda externa, pois as minhas necessidades serão resolvidas por mim mesma, e assim tem sido desde há muito.

É ilusão pensar que os outros podem nutrir a nossa vida do que queremos nela. Cada um sabe, melhor do que ninguém, do que precisa e o que não quer. Entretanto, algumas pessoas, mesmo quando se tornam adultas, conservam a ideia, que vem lá do berço, de que alguém desempenha o papel, que era da mãe, de alcançar-lhes satisfação. Naqueles idos, bastava um chorinho para, prontamente, vir o atendimento. Depois que crescem, transferem a ação típica da figura materna para a pessoa amada, esperam que ela supra o que lhes falta e dela se tornam dependentes afetiva e, não raro, materialmente também. Outras correm para os amigos e familiares quando estão com um problema, antes até de um exame mais acurado da questão. Mas não é assim que a vida funciona.

É forçoso ao amadurecimento entrar em profundo contato com as próprias necessidades para saber o que abastece a alma. Conhecê-las permite saber o que é indispensável e, ainda, o que gera desconforto e desagrado. A partir disso, buscamos o que nos preenche e é proveitoso à nutrição de nosso ser. E foi desse jeito que, ao longo da vida, aprendi a selecionar o que me serve e o que posso descartar, o que gosto e o que detesto, o que é essencial ao meu viver e o que pode ser substituído ou rejeitado. Isso foi uma escala de sucessivas lições, pois nem sempre acionei recursos personalíssimos para me constituir.

Houve um tempo em que eu pensava encontrar fora de mim o que me preencheria. Procurava o alimento que os outros me dariam, e, muitas vezes, recebia migalhas em vez do banquete que eu queria e julgava merecer. Incontáveis vezes, quis matar a minha sede no outro, e ele me deu gotículas de água em vez de um copo cheio que pudesse me saciar. Definhei, faminta e sedenta de amor, de afeto, de esperança, de autoconfiança e de autoestima. Naquela época, eu não via que já tinha um farnel, que eu era a minha fonte, que na despensa interior existia o que a experiência nela havia posto, que a única pessoa que estaria sempre ao meu lado seria eu mesma. Percebi, então, que não poderia me negar, e não o faria, porque só eu conhecia as motivações de minhas buscas, como conheço.

Sobretudo, aprendi que nada posso resolver no outro, mas em mim, sim. E me tornei independente e autossuficiente, o que me fez muito bem, mas acarretou, como consequência, críticas cruéis, que coloquei de lado para seguir adiante. Embora sabendo que devia contar comigo, não deixei de estar com os outros, mas nada esperei deles como nutridores, eram apenas companheiros de jornada. E constatei que jamais alguém poderia me dar tudo o de que eu precisava, tampouco seria justo dar-lhe tamanho encargo, o de nutrir a totalidade dos meus quereres subjetivos, emocionais e espirituais.

Hoje me alimento e me basto, mas ainda me compartilho, e o que os outros me oferecem e dão, comparo a uma sobremesa: não é a refeição principal, mas traz sabor ao paladar e acresce prazer ao do que me alimentei. Reconheço minhas necessidades e sou capaz de atendê-las. É de minha inteira responsabilidade nutrir-me, sem buscar nos outros a resolução de carências. Eu provejo o de que realmente preciso e consigo decifrar o que me é importante, rejeitando o que é mera ilusão dos sentidos ou resultado do que, em outras fases da vida, quis ter e não recebi. Depois que me abasteço, e posso fazê-lo, estou apta a compartir o que sou na minha inteireza. Estou à disposição de mim mesma e me nutro do que sou em toda a minha plenitude. Isso não é autofagia. É autonutrição.
(*) Crônica publicada na edição de 4 e 5 de julho de 2009 do jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria (RS).

Adicionar comentário Sábado, 4 de Julho de 2009 às 08:33 Vera Pinheiro


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