Crônica da semana - Felicidade e sofrimento (*)
Vera Pinheiro
Problemas não impedem que sejamos felizes, e podemos sê-lo apesar deles, porque a felicidade é um estado do ser que se põe muito além das dificuldades que atravessamos, independe dos acontecimentos, reside na fortaleza do espírito e se fundamenta na segurança de que estamos aqui, neste mundo, para cumprir sublimes desígnios.
Porém, nem tudo é fácil, tranqüilo e suave no caminho que percorremos. Convivemos com a rudeza das pedras em que tropeçamos, mas elas têm um propósito e servem às edificações que erguemos, portanto, são úteis. Assim também os rigores a que somos submetidos: eles constituem lições destinadas a depurar e a engrandecer o gênero humano. As marés bravias, que atrapalham o navegar sereno das embarcações, não retiram da paisagem marítima a sua extraordinária beleza. Igualmente, os estorvos não desfazem a alegria interior que nos momentos difíceis muito nos auxilia e incentiva, devolvendo sorriso à face por onde escorrem lágrimas fartas.
Como agimos e reagimos ao que nos acontece depende de nossas experiências, convicções e sabedoria. O aprendizado das vivências confere maturidade e ajuda a não nos deixarmos soterrar pelos obstáculos que se apresentam. E não é o tamanho nem o peso das circunstâncias o que as agrava, mas a pouca estima por nós, o medo de derrotas e a frágil confiança no Divino Pai e na Divina Mãe que acolhem nossos tormentos. Se nos acreditarmos fortes, protegidos, autoconfiantes e com substrato emocional para lidar com as adversidades, o que poderá nos abater?
E que provações serão pesarosas demais a quem se sustenta na fé inabalável, no otimismo imorredouro e na perseverança imbatível? Os desafios fazem parte da trajetória e podem ser ultrapassados se não formos vencidos pelo desalento. Aliás, a coragem se mede mais pelas vezes em que não sucumbimos e menos pelas vitórias que conquistamos. Mas não basta resistir, no intuito da sobrevivência; é preciso recobrar-se para continuar vivendo em plenitude, e não importam as dores, se elas representam tirocínio.
Os infortúnios não afastam, necessariamente, o prazer dos dias, exceto se nos limitamos a meramente nos defrontar com os episódios, sem deles extrair algo positivo para o exercício do viver. As desditas não negam o contentamento, que pode ser encontrado, nós o querendo. É a historinha do limão e da limonada! Ou reclamamos da amargura ou a transformamos em algo melhor, que nos traga benefícios e comprove que, mesmo em situações adversas, é possível ser feliz, sem perder o próprio rumo nem o encantamento pela existência.
A vida segue e tudo passa! Quem não sabe disso? Então, por que o exagerado apego às dores, às angústias, ao que machuca as emoções e transtorna o coração? Por que não converter tudo em novas oportunidades de crescimento? Nessas ocasiões é oportuno cantarolar os versos de Paulo Vanzolini: “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”! Isso é assumir uma postura de resiliência, uma recusa a se manter em prostração e um desejo supremo de reconstituir o que a tristeza intimidou.
Sim, há sofrimento, mas o que fazer conosco a partir dele? Reanimar e recuperar a felicidade, evitando concentração excessiva no que preocupa. Sobretudo, é necessário reconhecer o ensinamento quem vem por meio do que ocorre e lançar mão de duas listas: a do bom e a do “nem tanto”, em busca de equilibro, sem nos envolvermos demasiadamente nos problemas para que eles não sufoquem a esperança, que alimenta os desejos mais profundos.
Quando entregues ao redemoinho dos pensamentos dolorosos, somos incapazes de perceber a felicidade e nos distanciamos das soluções que precisamos. É hora de olharmos no espelho da alma para vermos refletida nele razões e recursos infindáveis para a felicidade, ainda que ela se reveze com o sofrimento, e não existe somente aquela ou apenas este. Daí a impreterível exigência de transitarmos entre ambos sem nos esgotarmos em pranto, até que possamos dizer com a consciência embalada em boas expectativas: “Sou feliz, apesar de…”. Não é pouco! É simplesmente a vida e suas alternâncias, que demoramos a entender, relevar, aceitar e aprender.
(*) Crônica publicada na edição de 11 e 12 de julho de 2009 do jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria (RS).
Adicionar comentário Sábado, 11 de Julho de 2009 às 08:16 Vera Pinheiro