Arquivo de 15 de Julho de 2009

Dizer ou calar

Vera Pinheiro
Outro dia, recebi em casa uma visita e experimentei uma situação que, não fosse a elegância da pessoa convidada, teria ficado muito sem graça. Era um jovem, amigo de minha filha, para quem eu havia prometido fazer um almoço, mas fui adiando, porque meus fins de semana andavam por demais ocupados. Até que chegou um dia livre e, finalmente, marquei o almoço, uma coisa rápida que não desse muito trabalho, conforme o gentil pedido do moço.

Hummmm, deixa-me ver… O que posso fazer que seja simples, gostoso e rápido? Já sei! Macarrão! Tenho uma receita fantástica e aprovadíssima, que só faço para visitas porque é um prato relativamente grande e com alguns ingredientes especiais. Nunca, jamais alguém reclamou do prato, que é do tipo “nem cachorro come”, pois não sobra absolutamente nada! Sempre foi assim. Sempre… até a visita do jovem, um turco que não fala português, assim como eu e Camila não falamos a língua pátria dele. Nós nos comunicamos em inglês.

Na manhã daquele dia, enquanto vestia o avental para assumir o posto no fogão, pensei: “Ei, será que ele gosta de macarrão?”. Bem, Camila deve ter perguntado, certamente o fez, sabendo previamente o que seria cardápio único, sem outra opção. Inquieta com a dúvida, questionei-a a respeito, enquanto dispunha os ingredientes sobre o balcão. “Claro que perguntei! Respondeu que não quer dar trabalho e que qualquer coisa para ele está bem.”. Qualquer coisa não é exatamente a minha especialidade, mas… tudo bem! Ao macarrão!

Quando a visita chegou, o cheiro bom da comida se espalhava no ar. Faltava apenas colocar o prato no forno para gratinar. Ele elogiou o cheirinho e mostrou-se com apetite. Eu, entusiasmada, servi a mesa, antevendo o sucesso do (incontáveis vezes) elogiado macarrão.

Uma porção acanhada no prato e suco, muito suco! “Mais um pouquinho?”. Não, obrigado - ele agradeceu e emendou a conversa sobre tudo e tanta coisa. Fiquei atenta e, garfadas depois, resolvi perguntar se, afinal, o jovem gostava ou não de massa. Direto ao ponto! A menos que estivesse com dor de barriga ou muito fastio, não recusaria a comida, ainda que de forma polida e discreta. Mas descobri isso pela observação, não pelas palavras dele. “Well…”. Ele até gosta de macarrão, mas… só um pouquinho. Adora mesmo um bom churrasco! Em casa de gaúchas, frustrou-se a expectativa dele, tadinho.

Menino, por que não disseste? Facilitaria, ora. Podias ter feito como uma amiga de Camila: o marido dela não come cebola de jeito algum! E uma comida sem cebola… valei-me! Mas eu me virei e deu tudo certo. Teria sido horrível se Milena não me avisasse antecipadamente desse detalhe do gosto de Marcelo.

Nem sempre a gente diz a palavra certa. Nem sempre a gente se cala quando deveria. O grande segredo da comunicação interpessoal é saber a hora de falar e a hora de calar. De todo modo, apesar do contratempo, foi um prazer receber Ugur Mutlu. Mas, ora, perguntado, não respondeu. Danou-se! Da próxima vez, farei um churrasco. Se ele voltar, claro, ressabiado que ficou. Quanto a mim, em caso de servir prato único, vou insistir com o(a) convidado(a): tens certeza de que adoras macarrão? Juras pela mãe mortinha? Vê lá, hem…

Adicionar comentário Quarta, 15 de Julho de 2009 às 20:33 Vera Pinheiro


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