Crônica da semana - O que queremos dos amigos (*)
Vera Pinheiro
Amigos são irmãos nascidos de outro ventre, embalados nos braços de mães que não nos geraram. Vieram para nossas vidas e fazem parte de nós, a consanguinidade substituída por laços de companheirismo, generosidade, afeto, respeito e cumplicidade, que envolvem os sentimentos e fortalecem o vínculo.
Dos amigos queremos lealdade, virtude que impede a transgressão da confiança, o fundamento da relação. Tenham sinceridade para nos dizer o que pensam, evitando agredir, ofender ou magoar deliberadamente, e, quando o fizerem sem querer, sejam humildes ao se desculpar, permitindo, assim, superar episódios que geram desencontros, e eles são quase inevitáveis em razão da intimidade.
Sejam discretos com o que, pelo privilégio da amizade, vierem a conhecer, e não tentem descobrir por conta própria nada além do que foi confidenciado, de modo a não interferirem no livre arbítrio, que temos, de revelar ou não nossos segredos.
Que nos compreendam, mesmo que não concordem conosco. Ouçam nossas mazelas sem cobranças, discriminações e julgamentos, tampouco precipitação em resolver nossos problemas. Respeitem o ritmo de nossas emoções, sem açodá-las com mais angústia. Nem tentem proferir sentenças sobre o destino, o amor, as adversidades, mas, podendo, nos ajudem a entender o que se passa conosco. No mais das vezes, basta que nos ouçam com paciência e algum tempo disponível para que as lágrimas se derramem em seus ombros, no meio de um abraço, o de que mais precisamos, em vez de soluções, respostas, opiniões, ideias e conceitos.
Entendam nossos motivos para tudo, e não importa saber dos acontecimentos precedentes ao momento da conversa. Ouçam os desabafos, ofertem apoio e se mantenham perto e à disposição, de modo que tenhamos segurança de que não vamos incomodar, em os chamando. Não se preocupem se estamos certos ou errados, mas nos incentivem a fazer as melhores escolhas possíveis, não se colocando, todavia, como muletas emocionais ao alcance da mão, e, sim, mostrando do que somos capazes de fazer pela felicidade e em nome da realização.
Não riam de nossas dores, tampouco as desqualifiquem, e jamais digam que é bobagem o que sentimos. Riam conosco mais do que possam chorar ao nosso lado e compartilhem com alegria as vitórias e conquistas que alcançarmos. Tomem nosso contentamento como se fosse seu e se mantenham solidários em todas as circunstâncias, as boas e as nem tanto, porque amigos se declaram unidos nas agruras e na fortuna, nas vicissitudes e no sucesso.
Escrevam, liguem, mandem notícias, perguntem como estamos, não deixem que o acaso se encarregue de nos aproximar, de vez em quando. Não precisam morar na casa ao lado, no mesmo prédio, na vizinhança, no Estado ou no país. Devem habitar o coração, que hospeda saudade, frustrações e dores, assim como desejos, expectativas e lembranças que só aos amigos confessamos. Telefonem num sábado à noite para dar a impressão de que não fomos esquecidos. Se sumirmos, apareçam. Se voltarmos, nos festejem. E, se pedirmos um tempo de solidão, não se ofendam, pois as viagens pelo interior da alma são solitárias, e algum isolamento, nesse caso, é necessário. Mas não deixem que o silêncio seja eterno, portanto, cutuquem para sairmos da toca, da depressão ou da sensação de desconforto de ser como somos.
Atendam aos nossos chamados, não nos deixem para depois, porque as urgências são importantes, inadiáveis, e não há, no mundo, ninguém melhor do que os amigos para recorrer nas horas rudes, em que a pessoa amada partiu, em caso de demissão ou noites insones por preocupações. Perseverem no entendimento do que somos e de como agimos, ainda que sejamos diferentes do que são e tenhamos humor variável, choro fácil e manias insuportáveis, especialmente quando estamos em crise existencial, familiar, amorosa, financeira, porque a unha lascou ou o carro quebrou.
Que os amigos nos perdoem as faltas, ausências, equívocos, contradições e inconstâncias, a ira descontrolada, os exageros do sofrimento, as paixões desmedidas, os amores que não deram certo, nossos medos e angústias, o susto diante da vida. E quando perdermos o fôlego por tristeza ou pelo que é bom, mas inesperado, nos acolham. Não queremos, dos amigos, nada além da presença, que não é física, mas a certeza de que podemos contar com eles sempre, seja para o que for, onde quer que estejam.
(*) Crônica publicada na edição de 18 e 19 de julho de 2009 do jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria (RS).
1 comentário Sábado, 18 de Julho de 2009 às 01:07 Vera Pinheiro