Crônica da semana - Que raiva! (*)
Vera Pinheiro
Ao enumerarmos as inutilidades, a raiva deveria ser colocada em primeiro lugar na lista, porque não serve para coisa alguma que seja boa, positiva e feliz. É lixo, e como tal deve ser reciclada e ter uma destinação melhor do que danificar as emoções e poluir os relacionamentos. “Que raiva!”. Quantas vezes proferimos essa sentença em relação a pessoas e fatos? Não olhamos nossa cara no espelho, senão veríamos os olhos esbugalhados, a boca crispada e a testa franzida. Ficamos muito feios quando estamos com raiva. Perdemos a suave aparência de quem está de bem com a vida, o corpo estremece, o coração acelera, o sangue ferve, as mãos se enrijecem, a voz muda e uma sensação ruim se espalha em todas as dimensões do nosso ser.
É possível ser feliz, sentindo raiva? A felicidade não encontra guarida em pessoas raivosas e a saúde escapa delas também. Então, reflitamos: Gostamos de nos enraivecer? É uma escolha nossa viver exaustivamente a raiva? E para que serve? Resolve os problemas? Não, em nada contribui para trazer soluções nem para apaziguar os conflitos. Porém, nos é muito custoso evitar esse sentimento que tantos danos causa, física, emocional e espiritualmente. Não é à toa que, por vezes, dizemos estar “morrendo de raiva”. E ela mata mesmo! Mata a paz, destrói o sossego interior, desarmoniza e faz um mal danado quando se instala e permanece.
Por nosso histórico humano e imaturidade espiritual, de certa forma é compreensível sentir raiva. Alguns acontecimentos realmente nos tiram do prumo e certas pessoas nos despertam uma fúria selvagem! A questão é se nos esforçamos sinceramente para controlá-la, o que não significa negá-la ou fingir que não estamos muito aborrecidos. Importa o que fazemos com a raiva, e aí entram em cena o autocontrole, o domínio da impulsividade, o poder que temos sobre nós mesmos e quanto desse mesmo poder entregamos aos outros, a ponto de serem capazes de alterar nosso estado de ânimo e o comportamento que temos diante do que nos acontece.
Na realidade, a maioria das raivas que sentimos é como dor de barriga: dá e passa. Muitas são revestidas de algum exagero, se olharmos detidamente os seus motivos. Mas na hora… Ah, na hora da raiva, todos os envolvidos assumem enorme importância e tudo se agiganta! Não raro, essa reação está de acordo com o que querem fazer conosco: exercer influência sobre o nosso bem-estar e ganhar autorização para nos transformarem em fantoches. Assim, nossas ações ficam sob comando alheio e, transtornados, não percebemos que damos destaque excessivo ao que não merece, sobrelevamos o prestígio dos que não titubeiam em nos agredir a tranquilidade, alimentamos o que não presta e nos envenenamos de nossa própria ira. O que sentimos reverte em nosso benefício ou para o nosso prejuízo, independente do que o outro venha a receber ou dar. E, afinal, bastam as inquietudes inevitáveis, que contornamos, e o cotidiano é pródigo em nos presentear com o que prefiro chamar de desafios, em vez de problemas.
Se a raiva atacar a mente, tem bom resultado aquietá-la de suas urgências, e meditação ajuda a silenciar antes que o grito ensurdeça a razão. Buscar um retiro do burburinho dos pensamentos permite tomar distância do que nos leva ao desespero, até que possamos raciocinar com clareza. Se a raiva desalinhar o equilíbrio, é preciso restaurá-lo de imediato. Não podendo buscar ajuda externa, há o indefectível recurso da oração, que alivia as tensões. Se suscitar desejo de vingança, tem sucesso rever valores e aprendizados, o que somos na essência mais profunda e o peso das conseqüências das atitudes que tomamos, deixando o bom senso ocupar o lugar da precipitação e a paciência passar à frente dos impulsos. Se sozinhos não pudermos dirigir a circunstância é proveitoso compartilhar com alguém que tenha sabedoria para nos orientar.
Foi o que fiz em determinado momento de minha vida, tomada de raiva que estava e sem saber como agir. Procurei uma de minhas mestras no caminho espiritual e diante dela cheguei esbravejando, furiosa e na pele de um animal ferido. Pedi uma resposta urgente, mas ela limitou-se a dizer: “Volte daqui a três dias”. Como? Eu tenho pressa!, retruquei. Impassível, embora acolhedora, repetiu a instrução, que acatei mais por respeito do que por concordância. Ao final de três dias, toda a raiva se havia dissipado e eu estava liberta da indignação. Desde então, integrei a lição dos três dias a qualquer situação negativa que bate à porta das minhas emoções.
(*) Crônica publicada na edição de 25 e 26 de julho de 2009 do jornal A Razão (www.arazao.com.br), de Santa Maria (RS).
5 comentários Sábado, 25 de Julho de 2009 às 07:24 Vera Pinheiro